Antes de ser ator, Matt Smith era um jogador de futebol adolescente com aspirações profissionais mas uma lesão pôs fim aos seus planos; desde então ganhou fama com 'Doctor Who' e como o príncipe Philip em "The Crown" 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Matt Smith em Londres, em junho de 2026 — Foto: Ariel Fisher / New York Times Numa manhã de maio, no jardim de sua casa em Londres, Matt Smith se mostrou o anfitrião perfeito — ofereceu chá, trocou de cadeira para que a repórter pudesse sentar na sombra, pediu desculpas cada vez que se levantava para cuidar de seu cachorro, um terrier que acabara de voltar do veterinário. Eu estava preparada para o charme de Smith, astro de “Doctor Who” e “The Crown”, e sua sedução fácil. O escritor Steven Moffat, que o conhece há duas décadas, descreve sua habilidade de cativar uma plateia — ou um jardim — como quase ridícula. —Todo mundo com quem Matt conversa acha que é o melhor amigo dele.—disse ele—Que nada, você só foi ‘MattSmithizado. Mesmo avisada, a gentileza foi irresistível, ainda que um pouco surpreendente. Após despontar em 2010 como a 11ª encarnação do Doutor na série "Doctor Who", da BBC, ele passou os anos seguintes interpretando assassinos, misantropos e homens em submissão desconfortável a esposas poderosas. Ele pegou seu charme irresistível — um sorriso largo, aquele cabelo castanho ondulado — e o aplicou ao tipo de homem que poderia cortar os lábios de um rival com uma tesoura cega, como fez no thriller macabro "Rio perdido". —Na verdade, foi bem divertido— comentou Smith sobre a cena. Matt Smith em Londres, em junho de 2026 — Foto: Ariel Fisher / New York Times Quando interpreta esses homens, os grandes olhos de Smith se estreitam em fendas, seu calor natural se torna gélido. Ninguém ganha chá. E ainda assim, ele faz você se importar com esses vilões, a vê-los tanto como vítimas quanto como algozes. Ele tem um jeito de interpretar a dor, de mergulhar nas partes mais cruas de qualquer personagem. —Se ele é um assassino em série, você vai pensar que ele provavelmente tinha um bom motivo— afirmou Moffat. Em "A Casa do Dragão", prelúdio de "Game of Thrones" que retorna à HBO para sua terceira temporada neste domingo, ele interpreta Daemon Targaryen, um príncipe de cabelos prateados que mata com facilidade e indiferença. O sangue espirrado fica ótimo nele. Nas mãos de Smith, Daemon é quase simpático. Certamente, Smith simpatiza com ele. Ele se compadece de todos os homens que interpreta, apesar das coisas terríveis que fazem. " —Eu definitivamente defendo a causa deles— diz, mencionando uma exceção razoável: Charles Manson, a quem interpretou no filme de 2018 “Charlie Says” —Precisamos dos nossos vilões. Não é como se eu quisesse interpretar apenas isso pelo resto da vida. Mas é o que ele interpreta agora, por razões que não conseguiu articular completamente. Antes de ser ator, Smith era um jogador de futebol adolescente com aspirações profissionais. Quando uma lesão pôs fim a esses planos, ele acabou, com alguma relutância, em uma produção escolar de “Doze Homens e uma Sentença”. Isso era bem diferente do campo, mas Smith descobriu que a preparação intensa e a sensação de risco e libertação não eram tão diferentes do jogo em si. Ele continua atraído pela precariedade, pelo que chamou de uma espécie de precipício. —Quando você assiste às Olimpíadas e alguém ganha por uma margem mínima, você tenta recriar essa sensação no teatro— afirmou ele. Matt Smith em Londres, em junho de 2026 — Foto: Ariel Fisher / New York Times A paixão que ele outrora dedicava ao futebol, passou para a atuação, criando o que Karen Gillan, sua colega de elenco em "Doctor Who", descreveu como "uma abordagem implacável à atuação, quase atlética". Smith herdou o papel de "Doctor Who" de David Tennant, uma das estrelas mais adoradas da franquia. Ele era significativamente mais jovem e menos experiente do que qualquer Doutor anterior, mas Moffat, o roteirista da série, considerou a escolha natural para o personagem atemporal. —Havia algo ancestral em seus olhos — disse Moffat —Eu costumava dizer que ele parecia um jovem construído por homens idosos a partir da memória. Gillan notou essa qualidade em seu primeiro teste de química. —Foi como conhecer o cara jovem mais legal e o alienígena mais velho e estranho— relembrou ela. Smith tinha apenas 26 anos quando sua escalação foi anunciada. Ele se sentiu sobrecarregado pelo papel, mas manteve a calma. "Doctor Who", que transita entre a comédia, o drama e a fantasia, foi tanto uma vitrine quanto uma escola de aperfeiçoamento, dando-lhe uma amostra de quase todos os gêneros. Também o tornou, pelo menos na Inglaterra, muito famoso e muito amado. Dias após o término de sua última temporada, ele começou a desconstruir sua reputação de herói. Seu primeiro projeto pós-"Doctor Who" foi uma adaptação musical de "American Psycho", no papel de Patrick Bateman, o psicopata do título. — Eu decidi: quero interpretar vilões— disse. Ele não é um ator que se transforma facilmente. Tem um rosto e uma expressão marcantes, mas queria levar sua simpatia natural ao limite. —Sempre me interessei pelo elemento surpresa, até para mim mesmo. Seu próximo grande papel foi como o jovem Príncipe Philip em "The Crown", o drama da Netflix sobre a monarquia britânica. Philip, o consorte real da Rainha Elizabeth II, talvez não fosse um vilão ou um psicopata. Mas, em seus últimos anos, ele tinha a reputação de ser atrapalhado e racista. Ainda assim, Smith não considera o personagem tão diferente do Doutor ou mesmo de Patrick Bateman. —Todos eles são meio que forasteiros incompreendidos. Isso parece um exagero, especialmente para Philip, mas sentado naquele jardim, completamente imerso na obra de Matt Smith, eu acreditei.—argumenta. Também acreditei quando ele disse que a atração por esses personagens mais sombrios era artística, e não especificamente pessoal. Há algo privado, até mesmo sombrio, sob aquela aparência elegante, e há elementos de seu trabalho que ele prefere manter ocultos. "É importante manter essas coisas em segredo", disse ele quando questionado sobre as emoções específicas que transmite em Daemon. O papel, mais um anti-herói e um forasteiro com ares de quem está por dentro do sistema, não o interessou de imediato. O presumido sucessor de seu irmão como rei, Daemon é preterido em favor de sua sobrinha Rhaenyra, com quem se casa posteriormente. Smith já havia participado de uma grande franquia de fantasia e não buscava outra. Ele também temia que Daemon, que precisa se submeter a Rhaenyra, fosse muito parecido de Philip. (Ele ainda se preocupa com isso.) Mas após se encontrar com o produtor executivo Ryan Condal e discutir a dimensão da série, concordou em fazer um teste de elenco. Ele se sentiu atraído pelo que chamou de talento de Daemon para "poesia, destino, fatalismo e romance, e eu suponho que uma espécie de desejo psicopático por violência". — O trabalho é fazer as pessoas reconhecerem todas essas coisas ,não apenas a versão mais superficial dele, o vilão—diz Smith.—Ele é egoísta, violento e, às vezes, sádico. Mas também é um ser humano.” Smith não soube dizer se Daemon sobreviverá até a próxima temporada, a última da série. Assim que suas obrigações promocionais desta temporada terminarem, ele espera tirar um tempo de folga, “viver um dia de cada vez, tentar cuidar das minhas rosas”, diz, o que pareceu literal. Seria uma fuga dos homens maus que ele interpreta, mas os homens maus também são uma espécie de fuga, uma libertação do trabalho diário de consistência e bondade e uma guinada em direção ao risco, em direção ao precipício. “—É um presente—diz ele.—Que trabalho incrível poder entrar, colocar uma peruca, brandir uma espada e chamar isso de trabalho [palavrão].
Matt Smith, astro de ‘A Casa do Dragão', procura enxergar humanidade nos vilões que interpreta
Antes de ser ator, Matt Smith era um jogador de futebol adolescente com aspirações profissionais mas uma lesão pôs fim aos seus planos; desde então ganhou fama com 'Doctor Who' e como o príncipe Philip em "The Crown"
Matt Smith em "A Casa do Dragão" (HBO, domingo) é Daemon Targaryen: príncipe que mata sem piedade, mas Smith encontra humanidade nele. Smith humaniza vilões buscando sua psicologia profunda com método atleticamente intenso; transforma complexidade moral em empatia para o espectador.














