Nas profundezas do oceano Atlântico, uma vasta corrente marinha transporta calor dos trópicos em direção à Groenlândia. Trata-se da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico ("Atlantic meridional overturning circulation", ou Amoc, em inglês). Esse processo ocorre em grande parte fora de nossa vista, por isso não tem a mesma posição no imaginário público das florestas tropicais, das calotas polares ou de outros enormes sistemas reguladores do clima.
Estudos recentes sugerem que a Amoc está enfraquecendo. Se ela desacelerar ainda mais, o norte da Europa poderá enfrentar invernos muito mais frios, mesmo com o aquecimento global, enquanto as monções tropicais poderão se deslocar e o nível do mar poderá subir repentinamente ao longo da costa leste dos Estados Unidos.
Mas apesar dos repetidos alertas dos cientistas, a Amoc raramente fica nas manchetes por muito tempo. Uma explicação envolve donos das mídias e restrições editoriais, mas há outra. A Amoc apresenta um problema específico para o jornalismo moderno: é extremamente difícil para muitos sequer imaginá-la, já que ela existe em um mundo muito abaixo do nosso —movendo-se lenta e silenciosamente pelo Atlântico.
Imagens ajudam a moldar a forma como as pessoas compreendem as questões climáticas. No jornalismo, ao longo de décadas, desenvolveu-se uma cultura visual: florestas em chamas, icebergs se fragmentando, plataformas de petróleo ao pôr do Sol, furacões giratórios, praias repletas de garrafas plásticas. Essas imagens funcionam como representações de sistemas que são difíceis ou impossíveis de observar diretamente. O jornalismo climático não criou esse filtro visual, mas precisa operar dentro dele.













