A SpaceX realizou a maior oferta pública inicial (IPO) de todos os tempos, mas Wall Street pode estar esperando algo ainda maior de Elon Musk, dono da empresa de foguetes. Muitos de seus investidores esperam que ele una a SpaceX à Tesla, fabricante de carros elétricos da qual também é CEO, reunindo a maior parte de seus negócios em um único conglomerado tecnológico avaliado em aproximadamente US$ 4 trilhões — uma espécie de Elon, Inc. Investidores, analistas e até mesmo um alto executivo da SpaceX já comentaram os méritos de um acordo desse tipo em redes sociais, relatórios de pesquisa e entrevistas na televisão. As duas empresas compartilham executivos e outros recursos há muito tempo e estão desenvolvendo conjuntamente projetos avaliados em bilhões de dólares. Como Musk controla a SpaceX e é o maior acionista da Tesla, ele estaria, essencialmente, fazendo um acordo consigo mesmo. Isso levantaria questões jurídicas e provavelmente daria origem a processos alegando que ele ignorou os interesses dos demais acionistas. Mas é improvável que qualquer ação judicial consiga impedir Musk, afirmam especialistas em direito. A legislação societária do Texas, onde Tesla e SpaceX estão sediadas juridicamente, torna muito difícil para investidores insatisfeitos contestarem decisões da administração. A Tesla transferiu sua sede jurídica de Delaware para o Texas no ano passado, após Musk demonstrar descontentamento com uma decisão judicial estadual — posteriormente revertida — que questionava um pacote de remuneração de 2018 que ajudou a aumentar a fortuna do homem mais rico do mundo. A SpaceX mudou-se de Delaware para o Estado da Estrela Solitária em 2024. "Basicamente, ele chegou ao ponto em que pode fazer quase tudo o que desejar”, disse Charles Elson, diretor fundador do Centro Weinberg de Governança Corporativa da Universidade de Delaware. Em Delaware, qualquer acionista prejudicado pode levar uma empresa à Justiça. Para abrir um processo no Texas, os acionistas precisam deter pelo menos 3% das ações da companhia. Os únicos acionistas que provavelmente chegariam perto desse limite seriam grandes gestoras de investimentos, como Vanguard e Fidelity, que normalmente não participam desse tipo de ação judicial. Os acionistas podem se unir para formar um bloco de 3%, mas até isso representa um obstáculo considerável. Com o valor de mercado atual da Tesla em US$ 1,5 trilhão, investidores dissidentes precisariam possuir coletivamente ações avaliadas em US$ 45 bilhões. “Estamos falando de uma quantidade realmente enorme de ações”, disse James Spindler, professor de direito societário da Faculdade de Direito da Universidade do Texas. “Isso é um impedimento bastante significativo.” Um foguete Starship da SpaceX próximo à plataforma de lançamento Starbase, no condado de Cameron, Texas — Foto: Meridith Kohut/The New York Times Tesla e SpaceX não responderam aos pedidos de comentário. Um representante do conselho de administração da Tesla recusou-se a comentar. A SpaceX também não respondeu. Especialistas esperam que a SpaceX, por ser a empresa de maior valor de mercado, ofereça suas ações em troca das ações da Tesla para formar a nova companhia. As atividades desse amplo conglomerado poderiam incluir construção de foguetes; inteligência artificial; o serviço de internet via satélite Starlink; fabricação de carros e caminhões elétricos; produção de baterias; equipamentos para energia solar; e a rede social X. Entre os produtos em desenvolvimento nas duas empresas estão centros de dados orbitais, táxis autônomos e robôs humanoides. Pela legislação do Texas, dois terços dos acionistas da Tesla teriam de aprovar a fusão. Musk já controla cerca de 20% dos votos. Muitos dos acionistas restantes têm profunda admiração por ele e recentemente aprovaram um pacote de remuneração que poderia valer quase US$ 1 trilhão caso ele alcance metas ambiciosas. O conselho de administração da Tesla também possui um histórico de apoiar as ideias de Musk. A montadora e a SpaceX compartilham há muito tempo alguns membros do conselho, muitos dos quais mantêm amizades ou relações comerciais duradouras com ele. Na quarta-feira, a SpaceX nomeou Roelof Botha, que trabalhou anteriormente com Musk no PayPal e cuja empresa de capital de risco investiu pesadamente em outras empresas de Musk, para seu conselho de administração. “Musk tem essa torcida organizada que o seguirá até os portões do inferno ou do céu, para onde quer que ele os conduza”, afirmou Elson. Mas, se os termos da aquisição forem excessivamente favoráveis à SpaceX, os acionistas da Tesla podem resistir, disse Eric Talley, professor da Faculdade de Direito da Universidade Columbia. “Existe um limite para o quanto ele pode oferecer pouco aos acionistas da Tesla antes de começar a perder apoio”, disse Talley, referindo-se a Musk. Gwynne Shotwell, presidente e diretora de operações da SpaceX, não desencorajou as especulações sobre uma fusão. Unir SpaceX e Tesla “poderia tornar a vida de Elon um pouco mais fácil”, disse ela à CNBC na semana passada. “Não há dúvida de que existem sinergias entre Tesla e SpaceX em nosso futuro.” Os documentos regulatórios da SpaceX reconhecem a possibilidade de uma fusão, alertando que aquisições ou parcerias “podem apresentar desafios significativos, incluindo o alinhamento de operações, sistemas e culturas, o que pode resultar em ineficiências, aumento de custos ou fracasso na obtenção dos benefícios esperados”. A empresa de foguetes já possui diversas ligações com a Tesla. As duas planejam produzir conjuntamente chips de inteligência artificial em uma fábrica proposta chamada Terafab e desenvolver softwares de IA por meio de outro projeto chamado Macrohard. A Tesla também havia investido na xAI, empresa de inteligência artificial de Musk, que foi incorporada à SpaceX neste ano, e vendeu centenas de milhões de dólares em baterias e veículos para a fabricante de foguetes nos últimos dois anos, segundo o prospecto do IPO da SpaceX. “Planejamos explorar outras áreas de colaboração estratégica com a Tesla no futuro”, afirma o documento. Do ponto de vista da SpaceX, qualquer fusão precisaria da aprovação de apenas uma pessoa: Musk. O bilionário controla mais de 82% dos votos dos acionistas da empresa porque possui uma classe especial de ações que lhe concede dez votos para cada voto atribuído às ações detidas pelos demais investidores. A empresa também firmou diversos acordos destinados a preservar seu poder. Alguns gestores que possuem ações tanto da Tesla quanto da SpaceX afirmam que a fusão simplesmente faz sentido. A experiência da Tesla em semicondutores e construção de centros de dados se encaixaria nos planos da SpaceX de construir centros de dados no espaço, disse Tasha Keeney, diretora de análise de investimentos e estratégias institucionais da ARK Investment Management. Os fundos da Ark possuem ações das duas empresas. A SpaceX reduziu o custo de envio de cargas ao espaço, um pré-requisito para a construção de centros de dados orbitais alimentados por energia solar. Se a SpaceX conseguir comprovar esse conceito, disse Keeney, sua divisão de IA obterá uma vantagem competitiva sobre Anthropic, OpenAI e outras empresas do setor. Advogados, políticos e alguns acionistas provavelmente tentarão bloquear a fusão, mesmo que isso seja difícil. Os acionistas poderiam alegar fraude em tribunais federais caso consigam demonstrar que Musk ou os conselhos da Tesla e da SpaceX omitiram informações antes das votações dos acionistas. Mas especialistas afirmam que esse tipo de ação provavelmente só teria sucesso se a empresa resultante da fusão fracassasse e os acionistas perdessem dinheiro. “Enquanto ele continuar administrando bem o negócio e o preço das ações continuar subindo, existe uma barreira considerável para se abrir uma ação por fraude em valores mobiliários”, afirmou Spindler, da Universidade do Texas. Reguladores federais poderiam, em teoria, tentar bloquear a fusão por motivos antitruste, já que ambas as empresas atuam no setor de inteligência artificial. Os reguladores também poderiam levantar objeções por razões de segurança nacional. “É difícil ignorar as implicações para a segurança nacional de um acordo envolvendo duas empresas importantes que combinam IA, robótica, comunicações e espaço”, disse Talley. Mas é improvável que os reguladores americanos apresentem objeções enquanto Donald Trump for presidente, acrescentou Talley. Musk doou centenas de milhões de dólares para candidatos republicanos, incluindo Trump, e o governo tem evitado contestar diversos outros grandes negócios.
O próximo passo de Musk pode ser uma megafusão entre SpaceX e Tesla
Muitos de seus investidores esperam que ele una as duas empresas em um único conglomerado tecnológico avaliado em aproximadamente US$ 4 trilhões — uma espécie de Elon, Inc.










