Nada na aparência de Dionysios Tabakis sugere que ele seja uma estrela em ascensão na cena do drone metal. Ele é um padre ortodoxo de 53 anos, com uma longa barba branca e vestes pretas esvoaçantes, que passou quase três décadas servindo à mesma igreja em Náflio, na Grécia. No entanto, para além dos muros da igreja, Tabakis conquistou um público improvável entre os aficionados por música alternativa. Seu álbum de estreia, “Paradise Metal”, é um fluxo hipnótico de 32 minutos, repleto de reverberação, de cantos bizantinos e guitarra elétrica oscilante, entrelaçados com batidas eletrônicas pulsantes, cantos de pássaros e o dedilhar de instrumentos folclóricos tradicionais. Como o título sugere, ele une o sagrado e o alternativo — embora sonoramente pouco se assemelhe ao metal clássico. Em vez disso, ocupa um território singular entre a música litúrgica ortodoxa, o doom metal (subgênero do heavy metal focado na lentidão) e com influências de drone metal (subgênero extremo do heavy metal que combina a lentidão e o peso do doom metal com o minimalismo da música drone). Foi lançado inicialmente na primavera passada em uma pequena edição de 150 cassetes, e a notícia se espalhou como fogo em blogs de música e redes sociais. O influente site de música Pitchfork impulsionou a visibilidade do álbum com uma crítica elogiosa, afirmando que ele merecia ser resgatado do "reduto de discos baratos, pelo menos para arrancar uma risada, talvez uma epifania". A procura por cópias físicas de “Paradise Metal” é agora tão grande que a Elhellhel e a Heat Crimes, as editoras gregas que colaboraram no seu lançamento, vão prensá-lo em LP para um relançamento ainda este verão. Tabakis nunca fez um show ao vivo, mas depois que seu primeiro álbum se tornou um sucesso de boca a boca, ele se apresentará em um festival nos EUA neste verão — Foto: Myrto Papadopoulos / The New York Times — As pessoas têm dito tantas coisas boas, é como se eu estivesse pagando para que elas fizessem isso. Não me considero um músico particularmente talentoso. Estou apenas fazendo o que amo, o que me parece significativo — disse Tabakis em uma entrevista em sua igreja, um marco histórico do século XV com ícones dourados adornando as paredes e santos contemplando tudo de um teto ricamente pintado. Tabakis raramente viaja para fora de Náuplia e nunca foi além da Turquia. Mas, em setembro, ele se apresentará no festival Making Time, na Filadélfia, dividindo o palco com grandes nomes da música alternativa e eletrônica, como Kim Gordon, Theo Parrish e Bicep. — Estou em apuros. Na verdade, nunca fiz um show antes — afirmou rindo. A única outra pessoa que o ouviu tocar ao vivo, disse Tabakis, é sua esposa, Fotini — que regularmente guarda seus instrumentos e pede que ele pare de fazer tanto barulho. Entre os bens mais preciosos de Tabakis está uma guitarra elétrica sem trastes, crucial para o som de “Paradise Metal”. O instrumento, explicou Tabakis, permite-lhe alcançar notas que os instrumentos ocidentais padrão não conseguem produzir e atingir os microtons usados na música litúrgica ortodoxa grega. Guitarra elétrica do padre Dionysios Tabakis em sua casa em Náuplia, Grécia, 8 de junho de 2026 — Foto: Myrto Papadopoulos / The New York Times Ele também incorporou sons de instrumentos tradicionais da península da Anatólia, como a zurna (uma corneta em forma de sino) e o kabak kemane (um instrumento semelhante a um violino feito de uma cabaça oca). Essa região tem um significado especial para Tabakis. Embora tenha crescido em Pireu, perto de Atenas, ele vem de uma família que fugiu de Esmirna, um antigo e próspero centro da vida grega que agora faz parte da Turquia, durante a Guerra Greco-Turca na década de 1920. Centenas de milhares de gregos fugiram através do Mar Egeu naquela época para uma pátria ancestral onde muitos nunca haviam pisado antes. — Éramos muito pobres, mas estávamos sempre rodeados de música e refugiados cantando canções do Oriente — contou Tabakis sobre sua infância — Sempre senti, no fundo, que minha pátria é no Oriente. Sua família era profundamente religiosa e, ainda no ensino médio, ele já sabia que seu futuro estava na igreja, disse Tabakis. Ele estudou em um seminário antes de ingressar na Igreja de Panagia em Náuplia, onde permanece há quase 30 anos. Filhos de Caetano, de Gil, de Rita Lee e dos Novos Baianos lembram infância nos tempos do desbunde: 'Os pais caretas também erravam, mas eram os primeiros a querer esconder' Fazer música tem sido um passatempo ao longo de sua vida, disse Tabakis, e em 2012 ele criou um canal no YouTube para compartilhar suas experiências com um público maior. Além de vídeos dele improvisando em seu violão sem trastes e interpretando cantos bizantinos, ele também começou a testar misturas inusitadas de gêneros, como ler salmos sobre batidas de hip-hop. Foi no YouTube que Nikolas Rafael, fundador da gravadora Elhellhel, descobriu Tabakis enquanto se perdia em busca de raridades musicais. — Entrei no canal e pensei: 'Isso é incrível. Isso precisa virar um disco' — disse Rafael. Tudo aconteceu muito rápido. Duas semanas após entrar em contato com Tabakis por e-mail, Rafael reuniu uma seleção de gravações do YouTube e enviou a mixagem para ser produzida em fita cassete, que Elhellhel lançou em colaboração com a Heat Crimes. Rafael disse que foi a estranheza peculiar de “Paradise Metal” que impulsionou seu sucesso. — Há uma espécie de ingenuidade descontraída no trabalho do Padre Dionysios. Ele criou algo muito estranho e distintamente espiritual, que não se parece com nada que tenha vindo antes. Na entrevista, Tabakis mostrou-se um tanto perplexo — mas, no fim das contas, extremamente satisfeito — com o sucesso do disco. Ele disse estar tocado pela diversidade de pessoas que se identificaram com ele. —Eu só quero criar uma grande mistura de tudo. Céu e Terra, Ocidente e Oriente, presente e passado.
Do altar à cena alternativa, padre grego estreia na música em disco de heavy metal
Estreante no mundo da música, Dionysios Tabakis se apresentará em um festival, pela primeira vez, em setembro









