A fatia correspondente aos 10% de consumidores com maior despesa no mundo é responsável por danos ambientais anuais estimados entre 1,5 e cinco biliões de euros, segundo o artigo científico publicado nesta quinta-feira na revista Communications Sustainability. Dito de um modo simplista: quem consome mais é também quem mais contribui para a destruição do planeta.O estudo conclui que esta pesada factura ecológica supera, ou pelo menos iguala (nas estimativas mais conservadoras), as lacunas de financiamento actuais para se travar a perda de biodiversidade e combater a crise climática na Terra.“O valor total dos custos dos danos ambientais é muito elevado para os 10% mais ricos do planeta”, explica ao Azul Inge Schrijver, primeira autora do estudo e investigadora da Universidade de Leiden, nos Países Baixos.“Isto demonstra, por um lado, a responsabilidade desse grupo em resolver o problema que criou de forma desproporcional e, por outro, o potencial da tributação ambiental para financiar as transições necessárias”, acrescenta Inge Schrijver.Limites planetáriosO trabalho calcula o valor financeiro dos impactos associados a quatro limites planetários — alterações climáticas, perda de biodiversidade, poluição por azoto e fósforo e uso de água doce — para mostrar a dimensão da responsabilidade concentrada no topo do consumo global.Em média, cada pessoa integrada nesse grupo privilegiado de consumidores impõe ao planeta um dano anual entre 2300 e 7500 dólares, em valores de 2017, o que equivaleria hoje, por aproximação, a um intervalo entre dois mil e 6500 euros.“Os cálculos dos danos ambientais são geralmente efectuados por tipo de impacto e nos próprios termos (toneladas de CO₂, por exemplo, ou hectares de natureza perdidos). Aqui, nós analisámos os danos em vários limites planetários e somámos esses valores em termos monetários para se obter um custo total dos danos”, refere Inge Schrijver, numa resposta ao Azul.A perda de biodiversidade surge como o principal ónus desta factura ambiental. Como sintetizam os autores, “os dois maiores contributos para a factura dos danos são a perda de biodiversidade, com 47% a 56% do total, e as alterações climáticas, com 36% a 45%”.Esta conclusão contraria a tendência internacional de tratar clima e biodiversidade como crises separadas (e com conferências internacionais distintas), reforçando, segundo os autores, a necessidade de uma resposta articulada.Desigualdades geográficasAs desigualdades entre países também são acentuadas. Nos Estados Unidos, onde os impactos per capita são os mais elevados entre os casos analisados, a factura anual atribuída aos consumidores do topo varia entre 19 mil e 63 mil dólares por pessoa, o equivalente a 6% a 20% do rendimento ou 0,8% a 3% da riqueza.Mais de 60% dos membros do grupo de consumidores privilegiados vivem nos Estados Unidos e na União Europeia, enquanto países como a Índia surgem com valores substancialmente mais baixos.O trabalho assenta em dados de 2017, o ano mais recente para o qual existem pegadas de consumo comparáveis à escala global. Os próprios autores sublinham, por isso, que os valores apresentados são conservadores.Só quatro das nove fronteiras planetárias puderam ser incluídas no cálculo, e a análise considera apenas o consumo directo, deixando de fora impactos ligados aos investimentos. Ainda assim, o artigo recorda que, entre os grupos de rendimento mais elevado, cerca de metade das emissões pode estar associada precisamente a investimentos, o que sugere que a conta total será bem maior do que a estimada no estudo publicado na Communications Sustainability, uma revista do grupo Nature.Precificar a natureza?O estudo inclui ainda um comentário relevante sobre a metodologia. A monetização da natureza não pretende, dizem os autores, transformar ecossistemas numa mercadoria, nem sugerir que um preço compensa a destruição. Os cálculos apresentados têm antes como objectivo tornar visível, numa linguagem económica e fiscal, a dimensão dos danos causados ao sistema climático e terrestre.Inge Schrijver reconhece o incómodo de precificar a natureza. “Embora me cause desconforto atribuir um preço ao ambiente, porque o verdadeiro valor da natureza é infinito, expressar o dano total em termos monetários permite perceber a dimensão tanto dos estragos como da responsabilidade dos 10% do topo.”Para a investigadora, o princípio do poluidor-pagador poderia gerar receitas significativas para financiar a transição ambiental, mas o essencial não é cobrar depois: é evitar a destruição ambiental antes que ela tenha lugar. “O mais importante é evitar os danos. Para lá das medidas financeiras, são cruciais regras e regulamentação mais apertadas”, afirma.Paul Behrens, co-autor do estudo, argumenta ainda que as pessoas que estão na fatia privilegiada dos 10% não importam apenas porque consomem mais, mas sobretudo porque moldam mercados, padrões sociais e decisões de investimento.“Estes grupos têm muitas vezes um poder desproporcionado de intervenção, não apenas individualmente, como consumidores, mas também como investidores, empregadores, criadores de tendências e modeladores do mercado”, sustenta Paul Behrens, professor na Universidade de Oxford, no Reino Unido, citado num comunicado da instituição.