Quando negociadores dos Estados Unidos e do Irã se reunirem na sexta-feira, na Suíça, após quatro meses de guerra, enfrentarão uma série de obstáculos capazes de inviabilizar os esforços para alcançar um acordo de paz abrangente para encerrar a guerra no Oriente Médio. Embora a possibilidade de os dois lados chegarem a um entendimento não possa ser descartada, a maioria dos analistas está cética quanto à possibilidade de os dois lados fecharem um acordo definitivo dentro do prazo de 60 dias previsto no memorando assinado ontem pelo presidente americano, Donald Trump, e pelos líderes iranianos. O pacto provisório adiou as questões mais difíceis para a segunda fase das negociações, sem qualquer garantia de que elas venham a ser resolvidas. A seguir, os principais fatores que podem comprometer as conversas entre EUA e Irã. Programa nuclear O destino do programa nuclear do Irã - apontado por Trump como o principal motivo para iniciar a guerra - pode representar a maior ameaça às negociações. O presidente americano já exaltou o compromisso do Irã de jamais desenvolver uma arma nuclear, mas isso basicamente é uma repetição de promessas feitas há muito tempo por Teerã. O ponto em que as negociações podem fracassar é o destino do estoque iraniano de urânio enriquecido próximo ao nível necessário para a fabricação de uma bomba. Trump disse que quer que esse material seja enviado para fora do país ou destruído. O Irã não aceita nenhuma dessas opções, mas sinalizou disposição para diluir o material. Outro impasse envolve o futuro do enriquecimento de urânio pelo Irã. Em alguns momentos, os EUA exigiram que o processo fosse encerrado em território iraniano. O Irã, porém, afirma que não renunciará ao direito de enriquecer urânio. Fontes disseram que os dois lados já discutiram, em meio às negociações, uma possível moratória de cinco a 20 anos. Mas um compromisso sobre o tema continua sendo difícil de ser alcançado. Também há incerteza se o Irã aceitará o nível de inspeção internacional previsto no acordo nuclear firmado em 2015 pelo então presidente americano, Barack Obama, e abandonado por Trump em 2018. TV estatal mostra o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, segurando o memorando assinado por Trump — Foto: Pool via WANA/Reuters TV Estreito de Ormuz Muitas dúvidas persistem sobre o Estreito de Ormuz, que o Irã bloqueou na prática após os ataques dos EUA e Israel em fevereiro, desencadeando um choque na oferta global de energia. Sob o memorando de entendimento, a via marítima, por onde passa normalmente um quinto do petróleo produzido globalmente, deveria ser reaberta logo após a assinatura do acordo, mas as empresas de navegação permanecem cautelosas. Os EUA afirmam que a passagem será livre de tarifas. O Irã, que ganhou poder de barganha ao controlar a rota marítima, algo que não possuía antes da guerra, reitera que manterá algum papel na administração do estreito, em coordenação com Omã. Sanções e ativos congelados do Irã Outro obstáculo é que o Irã quer que Trump suspenda rapidamente as sanções e libere bilhões de dólares em ativos congelados, enquanto os EUA afirmam que qualquer alívio será gradual e condicionado ao cumprimento dos compromissos por parte de Teerã. Segundo o texto do memorando de entendimento apresentado por autoridades americanas na quarta-feira, o Irã receberia imediatamente autorizações para voltar a vender petróleo, um gesto conciliatório que alimentou críticas de setores mais duros em relação ao Irã, que acusam Trump de estar cedendo demais. Trump, porém, pode hesitar em ser visto transferindo recursos ao Irã tão cedo. O memorando já vem sendo comparado ao acordo firmado sob Obama, a quem Trump há anos critica por ter devolvido parte dos recursos iranianos. Israel, Líbano e Hezbollah O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que ajudou a convencer Trump a iniciar a guerra, tem insistido que Israel não está vinculado a qualquer acordo entre EUA e Irã e que manterá os ataques ao Hezbollah, aliado de Teerã no Líbano. Segundo o memorando de entendimento, os países concordaram em prorrogar o cessar-fogo em 60 dias em todas as frentes de combate, inclusive no Líbano. Embora os confrontos tenham diminuído desde que Trump repreendeu Netanyahu nesta semana, uma nova escalada pode ameaçar as negociações. Na semana anterior à assinatura, Irã e Israel trocaram ataques após uma ofensiva israelense contra o sul de Beirute, no incidente mais grave desde o anúncio do primeiro cessar-fogo entre as partes, no dia 8 de abril. Às vésperas de uma eleição em que pode ser derrotado, Netanyahu tem sofrido forte pressão interna em razão do acordo. Tanto opositores como aliados criticaram o primeiro-ministro após o anúncio, irritados com a percepção de que Trump forçou o país a aceitar uma trégua humilhante antes de atingir seus objetivos na guerra. Estilos de negociação A equipe americana — composta pelo vice-presidente J. D. Vance, pelo enviado Steve Witkoff e pelo genro de Trump, Jared Kushner — e seus colegas iranianos podem ter dificuldade para conciliar estilos de negociação bastante distintos. Trump é conhecido por exigir resultados rápidos. O Irã, por sua vez, prefere negociações prolongadas. Isso foi um problema em rodadas anteriores que fracassaram e pode levar ao mesmo desfecho desta vez. Trump disse a jornalistas que esta etapa das negociações seria "mais fácil" do que a primeira. Ambos os lados buscam encerrar o conflito. O presidente enfrenta pressão crescente internamente devido aos altos preços da gasolina, enquanto o Irã foi duramente atingido nos campos militar e econômico. A equipe americana, porém, deve ter pouca expertise técnica e enfrentar negociadores veteranos com histórico de prolongar as conversas. Isso significa que 60 dias podem ser insuficientes para elaborar um acordo detalhado. O acordo da era Obama levou cerca de dois anos para ser concluído. Mesmo que um acordo seja alcançado, ainda poderão existir dúvidas sobre sua implementação. Trump ajudou a negociar um cessar-fogo no ano passado na guerra entre Israel e Hamas em Gaza, mas o processo estagnou desde então. Desconfiança O Irã desconfia profundamente de Trump, que em duas ocasiões no último ano atacou em meio às negociações. A disposição dos iranianos para fazer concessões também pode depender de seu líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei, considerado mais linha-dura do que seu pai, que foi morto ao lado da mãe, da esposa e do filho do novo líder em um ataque americano-israelense. Os EUA também agirão com desconfiança, observando se o Irã está apenas ganhando tempo, algo que assessores de Trump dizem já ter experimentado anteriormente. Se não conseguirem superar as divergências para garantir um acordo abrangente, ainda haverá a possibilidade de um entendimento limitado ou da prorrogação das negociações — embora o risco de retomada das hostilidades continue presente. Outros riscos Há outros pontos que podem fazer as negociações desandarem. Se Trump repetir ameaças extremas, como a de "aniquilar a civilização iraniana", Teerã pode reagir e interromper as conversas com os EUA. Os dois lados também terão de suportar a pressão de seus setores linha-dura. Trump vem sendo criticado por alguns republicanos de que cedeu demais ao Irã. Em Teerã, algumas alas do regime também defendem que não haja um acordo entre os dois países.
Programa nuclear, sanções e Líbano: os pontos que ameaçam um acordo definitivo entre EUA e Irã
Representantes dos dois países devem iniciar nova fase de negociações na sexta-feira, na Suíça











