Um menino tímido, determinado e com um talento com a bola nos pés muito diferenciado desde o começo. Assim era Vinicius Júnior em São Gonçalo, segundo relatos de quem fez parte da história da jovem estrela na cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Hoje, esse garoto cresceu, se tornou o melhor jogador do mundo e o principal nome da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026. Agora, mesmo longe de onde foi criado, ele é motivo de orgulho e inspiração em "São Gonça". Esse é o primeiro capítulo da série Meninos do Rio, que vai contar as raízes cariocas dos atletas que defendem a amarelinha. Muito antes de ser conhecido por seus dribles, gols e dancinhas nas comemorações, Vinicius iniciou seus passos no futebol em uma Escolinha do Flamengo, no bairro do Mutuá, com cerca de 6 anos de idade. E já era diferente dos demais desde o começo. — Ele era mais rápido, já sabia o que ia fazer com a bola quando ela chegava, enquanto os outros da mesma idade ainda paravam para pensar. Quando ele estava com cerca de 8 anos, começamos a levá-lo para competições e ali a gente viu que tinha algo diferente nas mãos — conta Cacau, o primeiro professor do Vini na escolinha. Vini Jr. na Escolinha do Flamengo em São Gonçalo — Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo — A gente ia para as competições e ouvia os pais dos adversários falando: "Pô, para parar esse menino aí, só se for de moto. Não tem como pegar esse garoto, é muito rápido" — acrescentou. Vini cresceu, chegou às categorias de base do Flamengo e ganhou cada vez mais destaque. Mesmo assim, não esquecia de onde começou e retornava ao Mutuá com cada novo troféu que conquistava e presentes para Cacau e Valéria, responsáveis pelo local, que guardam diversas fotos antigas do jogador na escolinha e camisas autografadas. O uniforme mais recente é do Real Madrid, utilizado pelo atacante em fevereiro deste ano. Cacau observa fotos de Vini Jr. na Escolinha do Flamengo, em São Gonçalo — Foto: Leonardo Siqueira / O Globo Hoje, a escolinha em São Gonçalo conta com diversas referências ao craque e um recado em um dos muros ao redor do campo: "Daqui saiu o melhor do mundo". Daqui saiu o melhor do mundo: homenagem a Vini Jr. na Escolinha do Flamengo em São Gonçalo — Foto: Leonardo Siqueira / O Globo O destaque no Odete São Paio Outro local da cidade que se orgulha de ter feito parte da história do camisa 7 da seleção é o Colégio Odete São Paio, no bairro do Colubandê. Aos 8 anos, Vini não era um dos melhores do mundo dentro da sala de aula, mas seu talento com os pés encantou Fernando Lessa, treinador do time de futsal da escola, e abriu as portas também para a educação. O técnico ficou tão impressionado com o Vinicinho, como era chamado na época, que convenceu o diretor Diego São Paio a dar uma bolsa-atleta ao menino. A questão, porém, era que o projeto contemplava alunos somente a partir dos 11 anos, que é quando passam a disputar os jogos escolares. Mas não tinha como deixar aquele talento escapar. — Desde os 8 anos, eu via um potencial muito grande nele, tanto que insisti para que o diretor desse a bolsa-atleta, que é de 100%. Claro que o caminho até chegar ao profissional tem muitas curvas, mas desde os 8 anos eu sabia. O menino fazia seis ou sete gols por jogo — contou Fernando. Vini, à esquerda, Fernando, ao centro, e Diego São Paio, à direita, celebram título do Colégio Odete São Paio — Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal Vini ficou no Odete São Paio até os 14 anos e foi destaque no time do colégio nas conquistas de diferentes títulos. O menino jogava tão bem que até os pais dos adversários viravam fãs. — Depois de uma final, eu vi um pai da escola adversária pulando a grade e vindo em minha direção. Fiquei com medo e pensei que ele iria arrumar algum tumulto, reclamar, porque nessa final o Vinicius fez gol até de lambreta no goleiro. Aí, quando o pai chegou perto de mim, falou: "Professor, eu posso tirar uma foto com o Vinicinho? Vou tirar foto agora com ele e meu filho, porque esse com certeza vai ser jogador". Se o pai guardou aquela foto, deve estar curtindo muito ainda — revelou o técnico da escola. Fernando Lessa é treinador do time de futsal do colégio Odete São Paio, onde Vini foi destaque — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo Assim como fez com a Escolinha do Flamengo, Vini não esqueceu o Odete São Paio. Em 2023, já um craque no Real Madrid e na seleção, o jogador ligou para o diretor do colégio e propôs um desafio contra o time da escola. O astro levou os amigos e jogou bola com os alunos na quadra da instituição, para a festa de todo o Odete São Paio. — Eu sempre brinco com ele que o nosso time da escola está há 11 anos como o melhor do Rio de Janeiro no futsal. E ele falou: "Vou desafiar essa galera". Só que eu não podia contar para ninguém, aí organizei o futebol, os alunos e foi uma festa maravilhosa. A gente tem muito orgulho dele, principalmente fora de campo, pelo homem que se tornou, pela voz ativa que tem em diferentes temas. É o nosso menino de ouro que vai trazer o hexa — declarou o diretor Diego São Paio. — Botei várias equipes da escola para jogar, inclusive o feminino, para todo mundo brincar um pouco. E ele sentiu todo aquele carinho. Sem dúvida, foi um dia que ele sentiu o nosso amor, o amor da escola, das crianças com ele, é um amor verdadeiro. Foi bonito, um dia muito bonito — completou. Vini em visita ao colégio Odete São Paio em 2023 — Foto: Divulgação / Odete São Paio Diante de tanta festa na escola e da segurança em volta de Vini, foi até difícil para o técnico Fernando se aproximar da estrela. O próprio jogador, porém, o viu de longe e fez questão de falar com ele. — Nesse dia em que ele veio ao colégio, eu fiquei longe porque, enfim, todo mundo queria ver e tirar foto com o Vinicius. E no momento em que ele me viu, devia estar a uns 20 metros de distância, ele largou tudo o que estava fazendo, veio falar comigo, me deu um abraço e falou: "É, tio, vencemos" — contou Fernando, emocionado. — Isso foi muito legal porque ele reconheceu, lembrou do período em que esteve conosco. É bom lembrar que durante um bom período ele ficou perto da gente. O nascimento da estrela Antes do Odete São Paio, em 2010, Vini estudou na Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire, localizada no Mutuaguaçu, na mesma rua da Escolinha do Flamengo. Hoje, o colégio recebe o apoio do CT Base do Instituto Vini Jr.: uma sala ambientada com imagens do atacante e de elementos do futebol, com o objetivo de criar um ambiente lúdico para os alunos. Muitos deles têm o sonho de crescer e ser igual ao Vini, como Arthur da Conceição, de 14 anos. Paulo Enrique, David Gomes, Arthur da Conceição e Pietro Alexandre: alunos da Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire, no CT Base do Instituto Vini Jr. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo Atualmente, a escola não conta mais com nenhum professor que chegou a dar aula para o jogador. No entanto, a professora Glória Melo, de 68 anos, já trabalhava na unidade e conviveu com um tímido Vinicinho, que não causava problemas, mas que sempre se soltava com a bola nos pés. Glória conta que ajudou a aplicar uma prova de Língua Portuguesa para o 4º ano do ensino fundamental, que trazia o texto de Clarice Lispector intitulado "Como nasceram as estrelas". Vini tirou uma nota apenas regular, sem fazer ideia de como aquela avaliação poderia ter relação com seu futuro. Prova de Vini Jr. na Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire. Nota: Regular — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo — Eu guardei a prova, a escola também e inclusive dei a xerox para o pai do Vini. O que me surpreendeu foi o texto, "Como nasceram as estrelas", e eu disse para o pai: "Quem diria? A estrela hoje é o seu filho" — contou a professora. — O Vinicius sempre foi respeito, companheirismo, superação, dedicação e vitória. E acreditamos que muito mais está por vir, inclusive que ele vai trazer o hexa para São Gonçalo. E São Gonçalo inteiro está de pé aplaudindo o Vinicius, e ele sabe disso. Professora Glória Melo no CT Base do Instituto Vini Jr. na Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire, em São Gonçalo — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo Vini deixou sua marca em cada lugar que fez parte da sua história no município. Hoje, além de aplaudir, São Gonçalo conta com um grande mural em homenagem ao jogador no centro da cidade. Quem passa por lá, sabe: "Nosso cria de São Gonça é o melhor do mundo" — ele foi eleito pela Fifa em 2024. Aos 25 anos, o camisa 7 da seleção marcou o gol que garantiu o empate por 1 a 1 com o Marrocos na estreia na Copa do Mundo, no último sábado. Agora, ele se prepara para enfrentar o Haiti, na próxima sexta-feira, pela segunda rodada do Grupo C do torneio.
'É, tio, vencemos': a história de Vini Jr. em São Gonçalo e o legado do destaque do Brasil na Copa
Jogador é motivo de orgulho na cidade; O GLOBO começa a série Meninos do Rio, com as origens dos cariocas da seleção













