Um dia, ainda sem data, as portas que nunca se fechavam vão se abrir outra vez. Quando ele voltar, que todos os que descobriram nestes dias o tamanho de seu amor pela casa encontrem uma maneira menos abstrata de demonstrá-lo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cozinha do Café Lamas, em 2017 — Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/06/2026 - 20:26 Incêndio no Café Lamas: Tradição Carioca Resiste e Reabrirá em Breve O incêndio no Café Lamas, um ícone do Rio de Janeiro, gerou comoção entre frequentadores que o consideram uma extensão de suas vidas. O incidente destruiu equipamentos, mas não feriu ninguém, e o restaurante reabrirá em breve. A situação ressalta a importância de apoiar locais históricos, frequentando-os ativamente, para que não se tornem apenas lembranças. A tradição do Lamas é um tesouro que sobrevive além das adversidades. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Assim que as primeiras imagens da fumaça no Café Lamas começaram a circular, meu telefone se encheu de mensagens. Amigos, parentes, todos querendo saber se eu já tinha visto, como se o incêndio tivesse acontecido não apenas num restaurante que frequento, mas numa espécie de extensão pública da minha casa. Fiquei triste, evidentemente, mas confesso que também um pouco contente. Não pelo fogo, que ainda não cheguei a esse grau de desvio de caráter, mas por ser reconhecido como alguém do Lamas. Há lugares que frequentamos e há aqueles que, depois de algum tempo, passam também a nos frequentar. Entram nas histórias que contamos, nos programas que sugerimos, na cartografia afetiva que usamos para explicar quem somos. Eu gosto de ser visto como alguém que vai ao Lamas porque o Lamas, por sua vez, é uma extraordinária máquina de produzir reconhecimento: o cliente reconhece o salão, o garçom reconhece o cliente, e a cozinha reconhece pedidos que, ao menos daquela maneira, já não existem em quase nenhum outro lugar. Ali, o refogado da francesa é como deve ser, a canja não precisa ser reinventada e um filé pode chegar à mesa coberto de alho, com arroz, farofa de ovos e batatas portuguesas, sem que ninguém apareça para explicar o conceito. O cardápio do Lamas é grande porque oferece muita coisa, claro, mas sobretudo porque foi acumulando épocas sem mandar embora as anteriores. É verdade que nem tudo ali é motivo para poesia. Fecha mais cedo que antes, e há dias em que as contas chegam à mesa com ambições incompatíveis com a sobriedade da toalha branca. O afeto não deve servir de desculpa para os defeitos do Lamas. Mas seus problemas também não anulam aquilo que só ele oferece. Uma casa de 152 anos não pode ser avaliada com estrelas no Google apenas como se tivesse aberto na semana passada, embora tampouco possa cobrar dos clientes o preço da própria biografia. Há uma incoerência confortável na forma como nos relacionamos com os lugares antigos da cidade. Gostamos que existam, lamentamos cada fechamento e reclamamos que o Rio está perdendo sua alma, mas muitas vezes fazemos tudo isso de uma mesa em outro restaurante. É claro que cabe à casa conquistar o cliente, servir bem, cobrar de maneira justa e continuar relevante. Mas quem diz amar esses lugares também precisa entender que esse afeto exige uma demonstração bastante prosaica: frequentá-los. Nenhum restaurante se alimenta de história. Restaurante se alimenta de freguês. Patrimônio comercial sem comércio vira cenário, fetiche urbano, lembrança bonita de uma cidade que todos queriam preservar, desde que outra pessoa pagasse a conta. O incêndio foi grave, destruiu equipamentos, atingiu a rede elétrica e obrigará o Lamas a fechar por um tempinho. Mas ninguém se feriu. A seguradora será acionada, fios e canos serão trocados, fogões, geladeiras e fritadeiras voltarão aos seus lugares. Um dia, ainda sem data, as portas que nunca se fechavam vão se abrir outra vez, os garçons esticarão as toalhas sobre as mesas e alguém pedirá o de sempre. Entre o boteco da esquina e as tabernas europeias: Fui à Espanha e reconheci o Rio no balcão A vida do Lamas, que nunca foi exatamente fácil, ficará um pouco mais difícil. O incêndio, justamente por não ter destruído tudo, pode servir como um aviso menos cruel do que poderia ter sido. Quando ele voltar, que todos os que descobriram nestes dias o tamanho de seu amor pela casa encontrem uma maneira menos abstrata de demonstrá-lo. Que não recebam o Lamas apenas com uma saudade antecipada. Que o recebam com fome, peçam alguma coisa e, já que estão ali, fiquem para mais um chope.