Doces lembranças de quando fui cobrir a Copa na Alemanha, há exatos 20 anos. Foi o acontecimento mais insólito da minha vida 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A capivara de pelúcia e o campo de morangos — Foto: Cora Rónai/7-6-2006 De todas as coisas improváveis da minha vida, a mais insólita aconteceu aqui mesmo no GLOBO, há exatos 20 anos. Rodolfo Fernandes, o melhor dos chefes de redação, o mais querido e saudoso, me chamou no aquário: — Você quer cobrir a Copa do Mundo na Alemanha? — Mas eu não entendo nada de futebol! Ele me olhou com aquela cara de emoji de olhinhos revirados e respondeu: — Eu sei. É claro que ele sabia. Fiz a cara de um emoji derretido, morto de vergonha. — Eu já tenho a equipe que mais entende de futebol na imprensa brasileira. O que eu quero agora é alguém que nunca tenha visto um jogo. Nesse quesito eu era imbatível. Só tinha ido uma vez ao Maracanã, para ver Paul McCartney, mas, para efeitos de Copa do Mundo, isso não contava. Aliás, é curioso como algumas das melhores coisas da minha vida profissional me aconteceram às avessas; antes disso, ainda nos anos 1980, Zuenir Ventura me chamou para cobrir televisão no Jornal do Brasil quando descobriu que eu não tinha TV em casa. A bem dizer, o elogio da ignorância. Na verdade, o que o Rodolfo queria era alguém capaz de ignorar o futebol para escrever sobre as coisas que aconteciam ao redor do futebol, mas não eram futebol. Isso eu tirava de letra. Assim, quando a poderosa equipe do jornal embarcou — Calazans, Renato Maurício Prado, Tadeu de Aguiar, Fellipe Awi, Aydano, Antônio Maria Filho e metade da editoria de Esportes; Ancelmo Gois, João Ubaldo, Luis Fernando Verissimo, Artur Xexéo — eu estava junto. Foi um fracasso. Os leitores do caderno de esportes escreviam todos os dias para a redação, preocupadíssimos com os gastos da equipe, perguntando o que aquela mulher estava fazendo lá, comprometendo o orçamento. — Ela não entende nada de futebol! Foi um sucesso. Os meus leitores do caderno de informática e do Segundo Caderno escreviam para mim todos os dias, felicíssimos de me acompanhar em circunstâncias tão especiais, dando força e torcendo pela capivara de pelúcia que eu tinha levado, com uma infinidade de acessórios verde e amarelos, para servir de primeiro plano nas fotos, e que havia virado personagem fixo da coluna. A capivara foi muito útil, sobretudo nos dias absurdamente monótonos que passamos em Sulzbach, num hotel que ficava perto da concentração da seleção em Königstein, mas longe de qualquer outra coisa. No dia em que fomos para Berlim, Xexéo escreveu uma coluna de descarrego e fez uma descrição maravilhosa daquele lugar: “Em frente fica uma autopista de alta velocidade. Um passo em falso e o hóspede corre o risco de ser atropelado. Do lado esquerdo, uma plantação de morangos. Do lado direito, uma plantação de aspargos. Nos fundos... bem, não dá para ir aos fundos sem sair pela frente e ser atropelado. Assim, o único contato que tivemos foi com os morangos (poderia ter sido com os aspargos, mas todo mundo há de convir que morangos são mais fotogênicos).” Houve um dia em que o caderno da Copa saiu com três colunas diferentes sobre morangos. Foi uma Copa inesquecível. Aprendi algumas coisas sobre futebol (Carlos Alberto Parreira, por exemplo, me explicou o que é impedimento) e aproveitei cada instante ao lado dos meus fabulosos colegas, um time sem estrelismos, que ria muito e sabia tirar leite de pedra quando não havia nada no horizonte além de morangos. A saudade mata a gente, morena.