“Planejar uma capa de Copa é mais ou menos como montar uma estratégia para marcar o Messi: parece fazer sentido até que a bola começa a rolar”. A frase de Thales Machado, editor de Esportes do GLOBO, resume o que foi a terça-feira, 16, quando toda a estrutura pensada para a edição impressa do dia seguinte foi atropelada pelos três gols marcados pelo argentino, que fazia história. No vídeo e no texto abaixo, publicado na newsletter Que jogo é esse, Thales conta os bastidores da jornada que ele sintetiza com humor: faltou combinar com os craques. Como Messi driblou um jornal inteiro “Uma edição de jornal costuma começar muito antes de existir qualquer notícia que justifique a sua capa. Começa com uma espécie de aposta coletiva, uma mistura de planejamento, intuição e torcida para que o futebol colabore minimamente com quem está tentando contá-lo. A gente olha os jogos, as reportagens já encaminhadas, os personagens que estarão em campo, as histórias que podem render, as que certamente vão render e aquelas que, embora pareçam ótimas pela manhã, correm o risco de chegar completamente desidratadas à noite. Depois, com alguma convicção e bastante fingimento, escolhe um caminho. Na Copa do Mundo, esse exercício fica ainda mais divertido porque, além de imprevisível, o futebol vem em escala industrial. Há jogos o dia inteiro, craques espalhados pelo continente e um relógio que não respeita o tamanho da história. Quando a capa precisa ser decidida, às vezes o principal jogo do dia ainda nem começou. Quando o jornal fecha, às vezes o sujeito que está prestes a reescrever a história das Copas ainda está voltando para o segundo tempo. Onze da manhã O dia 16 de junho, a terça-feira, parecia especialmente promissor. Tínhamos a estreia da França de Mbappé, da Argentina de Messi e até da Noruega de Haaland, o que, em tese, oferecia um cardápio bastante confortável para quem precisava escolher a capa de um caderno de Esportes. Só que uma Copa que, na véspera, havia colocado a Espanha de Lamine Yamal diante de Cabo Verde e terminado com Vozinha, goleiro de 40 anos, tomando para si a manchete do jornal já havia deixado o aviso: não adianta combinar a edição apenas com os favoritos. Ainda assim, é preciso começar de algum lugar. E começamos por Cristiano Ronaldo. Portugal só estrearia no dia seguinte, mas Cristiano chegaria à sua sexta Copa do Mundo com a possibilidade de alcançar um feito inédito: tornar-se o primeiro jogador a marcar em seis edições diferentes. Mesmo sem a confirmação de que seria titular, a história existia, era grande, havia um repórter em Houston, onde o técnico da seleção falaria, e permitia uma capa planejada com antecedência, esse luxo raríssimo durante um Mundial. Três da tarde Pedimos à equipe visual uma proposta centrada nele e combinamos a estratégia: Cristiano estaria sozinho na primeira edição, fechada antes do fim do jogo da Argentina. Dependendo do que Messi fizesse à noite, a segunda poderia reuni-los. Depois de quase duas décadas polarizando o futebol mundial, Messi e Cristiano dividiriam também a capa de um caderno de Copa do GLOBO. Parecia uma ideia boa. Faltou apenas combinar com os outros craques. Cinco da tarde O primeiro a apresentar objeções foi Mbappé. Não deu tempo nem de rascunhar. No fim da tarde, em Nova Jersey, ele fez dois gols na vitória da França sobre Senegal, um deles um golaço, ultrapassou Pelé e, naquele momento, o próprio Messi na lista de maiores artilheiros da história das Copas. De repente, já não fazia muito sentido deixar na capa um astro que ainda entraria em campo no dia seguinte quando outro acabava de se impor, novamente, como aquilo que vem sendo desde 2018: um jogador construído especialmente para a Copa do Mundo. Levanta a placa. Sai Cristiano. Entra Mbappé. A nova capa ficou pronta com o título “2+2”: os dois gols que ele havia marcado naquela noite e os outros dois que ainda precisava fazer para alcançar os 16 de Miroslav Klose, recordista histórico das Copas. Era uma capa forte, objetiva e completamente coerente com o que o dia havia produzido até ali. Ela foi fechada, enviada e impressa na primeira edição do jornal, que circulou sem qualquer informação sobre Argentina e Argélia, jogo marcado para as dez da noite. Possível capa do Jornal O Globo — Foto: Divulgação Antes disso, Haaland ainda resolveu testar nossas convicções. Fez dois gols pela Noruega e, durante alguns minutos, surgiu o temor de que um possível terceiro pudesse criar uma discussão incômoda: seria um hat-trick de Haaland mais capa do que os dois gols e a arrancada histórica de Mbappé? Há momentos numa redação em que um editor se pega torcendo não exatamente por um jogador, mas pela manutenção de uma página bonita já pronta. Haaland não fez o terceiro. Mbappé sobreviveu. Às dez da noite, porém, Messi entrou em campo em Kansas City e começou a desmontar tudo. A possibilidade de ele marcar uma vez já estava contemplada. Havíamos combinado com a equipe visual que, caso isso acontecesse, a segunda edição teria uma capa dividida entre Messi e Mbappé. Os dois chegariam aos 14 gols em Copas e ficariam a apenas dois de Klose. Seria mais uma daquelas imagens perfeitas para contar a disputa entre gerações: o grande personagem do futebol recente diante do principal candidato a herdar seu lugar. Possível capa do Jornal O Globo — Foto: Divulgação Messi, aparentemente, achou pouco. Fez o primeiro gol, depois o segundo e depois o terceiro. Em uma única noite, alcançou os 16 de Klose, passou a dividir com ele o posto de maior artilheiro da história das Copas e ainda se tornou o primeiro jogador a atuar em seis edições consecutivas do torneio. Mbappé, que poucas horas antes parecera ter tomado de assalto a história da competição, já havia sido alcançado, ultrapassado e empurrado para fora da capa. Foi a terceira capa principal do dia. Desta vez, argentiníssima, com o 10 sozinho. Meia-noite O título escolhido foi “A História”, porque já não havia muito como disputar com o tamanho do que estava acontecendo. Messi não era apenas o personagem da rodada ou o jogador de uma grande atuação. Ele havia alcançado, na mesma noite, dois marcos que pareciam reservados à soma de uma carreira inteira. E havia feito isso com três gols, de maneira suficientemente contundente para evitar qualquer debate de redação. Àquela altura, ninguém mais perguntava quem deveria estar na capa. A única pergunta era quanto do jornal precisaríamos refazer. Capa do Jornal O Globo — Foto: Divulgação Porque Messi não mexeu apenas na manchete. Ele entrou pelas páginas internas, atravessou textos já fechados, bagunçou tabelas e obrigou a edição inteira a se atualizar ao tamanho de sua noite. A reportagem sobre a França, por exemplo, havia sido escrita a partir da perseguição de Mbappé ao recorde de Klose. Quando terminou, o francês estava a dois gols do alemão. Algumas horas depois, continuava a dois de Klose, mas agora também estava a dois de Messi, o que transformava em incompleta uma informação que, pouco antes, era rigorosamente verdadeira. O texto sobre Cristiano Ronaldo também precisou ser revisto, porque a conversa sobre a sexta Copa já não podia ignorar o fato de que Messi acabara de se tornar o primeiro jogador a efetivamente entrar em campo em seis edições consecutivas. Uma boa matéria preparada sobre a estreia do Congo perdeu espaço. A tabela dos artilheiros mudou. A página da Argentina mudou. A chamada da França mudou. A hierarquia da edição mudou. E, em algum momento perto da meia-noite, enquanto Messi comemorava em Kansas City, uma redação no Centro do Rio de Janeiro reabria páginas que já tinham sido fechadas e refazia a forma como o leitor receberia aquela Copa na manhã seguinte. Há muitas belezas nas Copas, e essa é outra. Um gol marcado a milhares de quilômetros de distância altera instantaneamente o trabalho de dezenas de pessoas que não estão no estádio, não vestem chuteiras e provavelmente já gostariam de estar em casa, mas estão aceleradas pelo trabalho e pela paixão pelo esporte. A bola entra em Kansas City e uma foto cai no Rio. Messi marca de novo e uma manchete desaparece. Faz o terceiro e um jornal inteiro precisa ser atualizado porque o mundo que existia antes daquele gol já ficou velho. No começo do dia, Cristiano Ronaldo era a capa. Depois, Mbappé se impôs. Haaland ameaçou entrar na conversa. No fim, Messi não dividiu espaço com ninguém. Tomou a capa, tomou o recorde, tomou a edição e tomou algumas horas de sono de quem precisava explicar, ainda naquela noite, o que ele acabara de fazer. É mais ou menos assim que se fecha um caderno de Copa: planejando com cuidado para depois assistir aos grandes jogadores destruírem o planejamento. E ainda bem. Porque, no fundo, todo editor de Esportes deseja secretamente que o futebol produza uma história tão grande que seja necessário jogar a página pronta fora.”