Adiamento das sanções sinaliza, segundo observadores, que a política comercial está sobrepondo a utilização de ferramentas críticas de segurança nacional O governo dos Estados Unidos decidiu, por ora, não adicionar a startup de inteligência artificial DeepSeek, a fabricante de chips de memória CXMT e mais de 100 outras empresas chinesas à sua lista de restrições comerciais, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A medida reflete uma tentativa do governo do presidente, Donald Trump, de evitar uma escalada de tensões diplomáticas com Pequim em um momento de rivalidade geopolítica acirrada. A inclusão dessas empresas na lista, que proíbe exportações de bens, softwares e tecnologias dos EUA sem uma licença especial, havia sido aprovada por um comitê intergovernamental no ano passado, mas nunca foi publicada. Segundo analistas, este é o maior período sem atualizações na lista em mais de uma década, desde outubro de 2025. Riscos à segurança nacional A hesitação em publicar as novas sanções ocorre apesar das graves acusações levantadas contra essas companhias. A DeepSeek, que ganhou notoriedade global em 2025 por seu modelo de IA de baixo custo, é acusada por autoridades dos EUA de apoiar operações militares e de inteligência da China, além de tentar acessar ilegalmente chips avançados americanos via empresas de fachada no Sudeste Asiático. A Anthropic e a OpenAI também relataram que a DeepSeek teria tentado extrair capacidades de suas plataformas de IA para aprimorar seus próprios modelos. A ChangXin Memory Technologies (CXMT), maior fabricante de chips de memória da China já foi designada como “empresa militar chinesa” pelo Departamento de Defesa sob a gestão Biden, mas continua operando sem as restrições da lista de restrições comerciais. O comitê intergovernamental aprovou a inclusão de pelo menos 75 entidades ligadas à produção de semicondutores avançados e modelos de IA, além de empresas acusadas de fornecer drones para a Rússia e de vender chips restritos da Nvidia para universidades chinesas. Tensões geopolíticas e esvaziamento de políticas O adiamento das sanções sinaliza, segundo observadores, que a política comercial está sobrepondo a utilização de ferramentas críticas de segurança nacional. Kevin Kurland, ex-autoridade do Departamento de Comércio, afirmou que a ausência de novas listagens pode estar permitindo que tecnologias americanas cheguem a adversários que poderiam utilizá-las contra os EUA. Desde o fim de 2025, Jeffrey Kessler, subsecretário de comércio para indústria e segurança, tem buscado evitar a designação de entidades chinesas por receio de elevar as tensões entre Washington e Pequim. Essa paralisação gerou um “vácuo” regulatório, o Departamento de Comércio não apenas deixou de publicar a lista de restrições, como também não implementou a substituição de uma norma da era Biden que controlava o acesso global a chips de IA, criando uma possível brecha para a exportação desses componentes a empresas chinesas. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da China reiterou sua posição de que os EUA devem parar de “politizar, instrumentalizar e transformar em arma” questões comerciais e tecnológicas, acusando Washington de abusar das medidas de controle de exportação para conter empresas chinesas. — Foto: Bloomberg