Entre as obras selecionadas, está 'Bodas de sangue', grande destaque da carreira do coreógrafo espanhol, que morreu em 2004 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cena de 'Bodas de sangue' — Foto: Divulgação/Fundação Antonio Gades Nascido na região da Andaluzia, o flamenco, que tem origem na música e na dança dos ciganos da região, é considerado uma manifestação cultural tão simbólica da Espanha que, em 2010, foi declarado patrimônio imaterial da Humanidade pela Unesco. Este reconhecimento, porém, seria impensável sem as contribuições de Antonio Gades (1936-2004), uma das figuras mais importantes na dança e no teatro europeu do século XX. Sua companhia, agora sob a direção artística de Stella Arauzo — que foi durante muitos anos primeira-bailarina ao lado de Gades —, traz de volta ao Brasil trabalhos do coreógrafo, em apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio, o espetáculo acontece no Theatro Municipal, nos dias 19, 20 e 21, e, em São Paulo, no Teatro Bradesco, nos dias 23 e 24. A apresentação traz interpretações de “Suíte flamenca”, um compilado de performances que ressaltam a estética da dança, demonstrando as facetas do gênero dentro da perspectiva de Gades, e “Bodas de sangue”, grande destaque da carreira do coreógrafo. Arauzo ingressou aos 17 anos no balé de Gades. A partir de 1988, aos 24, substituiu Cristina Hoyos, passando a interpretar o papel principal na adaptação flamenca de “Carmen”, de Bizet. Foi no mesmo ano que ela se apresentou no papel em solo brasileiro, quando pisou no palco do Theatro Municipal pela primeira vez. — No Brasil, quando estreei como Carmen, cheguei como uma menina e saí como uma mulher. Isso me emociona. Por mais que eu não queira, existe um peso que estará aqui, mas espero carregá-lo com leveza — diz Stella Arauzo, hoje com 62 anos. — Para mim, claro, Gades é tudo. É um mentor que esteve comigo assim que comecei. Sem ele, eu teria sido uma pessoa diferente. Há tantas lembranças e tanta responsabilidade, tendo crescido como sua bailarina. E, da minha perspectiva como diretora, isso vem também com um grande senso de responsabilidade. Stella Arauzo com Antonio Gades em 'Carmen' — Foto: Divulgação/Acervo Fundação Antonio Gades Myrian Dauelsberg, fundadora da Dellarte, empresa responsável por trazer os espetáculos da companhia ao Brasil, recorda a primeira vez de Stella Arauzo por aqui: — Lembro do momento em que a vi desembarcando no Galeão. Ela parecia uma garotinha que tinha acabado de sair de um romance do José de Alencar — rememora Myrian. — Fiquei receosa, não era fácil vir depois da Hoyos. Mas Gades me falava: “Espera para ver ela no palco”. E tinha razão, ela virou uma estrela e sempre teve total apoio de seu mestre. 'Suíte flamenca' faz parte do programa que companhia apresenta no Theatro Municipal do Rio nos dias 19, 20 e 21 e no Teatro Bradesco, em São Paulo, nos dias 23 e 24 — Foto: Divulgação Para a crítica de dança Adriana Pavlova, assistir à companhia de Gades ao vivo é assistir a uma aula de história do flamenco. — Sua força e seu encanto, que continuam atraindo plateias em todo o mundo, vêm da forma dramática de evocar com intensidade sentimentos tão humanos. Gades e a Compañía são, ainda hoje, a referência maior dessa arte no planeta — diz Pavlova. Considerado um dos trabalhos mais emblemáticos da dança espanhola, “Bodas de sangue” é uma adaptação da obra do poeta e dramaturgo Federico García Lorca, escrita em 1932, pertencente à trilogia formada por “Yerma” e “A casa de Bernarda Alba”. Esta pode ser a última vez que Stella Arauzo, além de diretora artística, também atuando como bailarina até hoje, se apresenta em solo brasileiro. Em 1986, aos 22 anos, ela recebeu o papel de "mãe" em “Bodas de Sangue". Agora, quatro décadas depois, ela volta a interpretá-lo em sua remontagem. — É uma obra transbordando amor, amor por Gades, pela sua obra, pelos artistas que tenho em minhas mãos, pela dança e pela vida. Não creio que pudesse ser feita sem amor. Mas ainda sou sua aluna, mesmo com a idade que tenho, mesmo depois de mais de 40 anos dançando e 20 anos dirigindo — diz a diretora. — Ele era exigente, mas também muito humano, muito generoso. Exigia muito, mas exigia porque sabia do que você era capaz. Ele tinha o dom de enxergar esse potencial e de fazê-lo florescer. Um dos pontos cruciais para a difusão da obra de Gades foi a parceria com o cineasta Carlos Saura (1932-2023), que consolidou o flamenco como linguagem cinematográfica e ampliou sua projeção no mundo. Nos anos 60, em meio ao regime franquista, Gades descobriu, supõe-se que por meio de edições clandestinas, o mundo poético de García Lorca. Durante a ditadura, os livros de Lorca foram banidos, e a circunstância de sua morte, encoberta, incluindo a localização de seu corpo. Ele foi fuzilado na Guerra Civil, em 1936. Assim como o poeta e dramaturgo, Gades se opunha ferrenhamente ao franquismo. Em 1975, ao saber da condenação à morte de cinco companheiros opositores do regime, Gades dissolveu sua companhia. Com o apoio do Ballet Nacional de Cuba, ele voltou à dança após quase quatro anos. Vem desta época sua afeição àquele país que visitou inúmeras vezes, inclusive como artista convidado. Comunista convicto, Gades considerava Cuba seu segundo lar e, não à toa, suas cinzas repousam no Mausoléu dos Heróis do Segundo Frente Oriental, onde também estão as cinzas de Fidel Castro, seu grande amigo. *Estagiária sob supervisão de Cláudia Amorim
Cia Antonio Gades apresenta clássicos do flamenco no Rio e em São Paulo, sob direção da antiga primeira-bailarina Stella Arauzo
Entre as obras selecionadas, está 'Bodas de sangue', grande destaque da carreira do coreógrafo espanhol, que morreu em 2004









