A Copa do Mundo deste ano é a primeira desde que mercados de previsão como Kalshi e Polymarket explodiram em popularidade como uma nova forma de apostar em esportes. Nos EUA, os torcedores podem apostar coletivamente bilhões de dólares no torneio, mas um número crescente de outros países está dificultando o acesso às plataformas que oferecem essas apostas. A possibilidade de apostar em quantos gols Kylian Mbappé marcará ou em quem vencerá o torneio pode depender do local onde a pessoa vive. Em alguns casos, os torcedores podem nem sequer conseguir apostar. A Copa do Mundo pode gerar cerca de US$ 3 bilhões em apostas adicionais e impulsionar até US$ 10 bilhões em volume de apostas em plataformas de apostas esportivas e mercados de previsão, segundo analistas da Bernstein. Nas últimas semanas, Espanha, Indonésia e Índia se juntaram à crescente lista de países — incluindo a maior parte da União Europeia e amplas regiões da Ásia — que adotaram medidas temporárias ou permanentes para bloquear o acesso aos sites e aplicativos da Kalshi e da Polymarket. Veto no Brasil O Brasil fechou 27 plataformas de previsão em abril, incluindo a Kalshi, cuja cofundadora, Luana Lopes Lara, é brasileira. A atividade só é permitida na seara econômico-financeira, sob a regulação dos derivativos, a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Vertentes políticas ou esportivas estão vetadas, a não ser no segmento de bets esportivas, reguladas pelo Ministério da Fazenda. Luana Lopes, brasileira que se tornou bilionária como cofundadora da Kalshi, plataforma de previsões baseada nos EUA — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo 'Importante o suficiente para ser regulada' Os reguladores intensificaram a fiscalização sobre os mercados de previsão à medida que as empresas expandiram rapidamente suas operações pelo mundo, oferecendo um novo tipo de contrato financeiro que ocupa uma zona intermediária entre jogo e especulação financeira. Alguns países consideram os novos contratos financeiros oferecidos por essas plataformas uma forma de jogo e os submetem à legislação de apostas. Outros defendem que eles deveriam ser enquadrados nas regras de valores mobiliários ou derivativos. As startups têm se beneficiado da incerteza jurídica em torno desses produtos para oferecê-los aos clientes enquanto os reguladores tentam acompanhar a evolução do setor. — Os mercados de previsão estão entrando na mesma fase pela qual toda nova inovação financeira acaba passando: primeiro um mercado de entusiastas, depois atração em massa e, por fim, disputas por legitimidade — disse Dovey Wan, sócia-fundadora da Primitive Ventures, investidora da plataforma Opinion Labs. — As recentes proibições significam que a categoria se tornou importante o suficiente para ser regulada. Risco de uso de informações privilegiadas Os operadores de mercados de previsão argumentam que suas plataformas fornecem informações valiosas ao agregar previsões coletivas sobre temas que vão de indicadores econômicos a eventos geopolíticos. Os críticos, por outro lado, afirmam que esses contratos podem estimular especulação excessiva e criar novas oportunidades para negociações com informação privilegiada, além das questões éticas envolvidas em permitir apostas sobre guerras e outros assuntos de vida ou morte. — A aposta não é novidade — disse Chris Holland, sócio da consultoria de Singapura HM Strategy. —O que é novo é a estrutura. Como os contratos dos mercados de previsão normalmente são classificados como derivativos, eles ficam fora das estruturas de licenciamento para jogos de azar, acrescentou: — Essa brecha é um convite aberto para quem possui informações privilegiadas. Proliferação de plataformas Embora Kalshi e Polymarket sejam de longe as maiores empresas do setor, muitas outras estão se expandindo globalmente, incluindo a Opinion Labs, apoiada pela YZi Labs, escritório familiar do cofundador da Binance Changpeng Zhao, e a Limitless, que tem investimento da Coinbase Ventures. Diversas plataformas fecharam acordos de marketing com ligas e equipes de futebol antes da Copa do Mundo para aumentar sua visibilidade durante o torneio. Cifras extraordinárias O mercado movimenta cifras expressivas — e continua crescendo. Na segunda-feira, o analista Patrick Moley, da Piper Sandler, escreveu que a Copa do Mundo era “como o Super Bowl todos os dias” e estava impulsionando volumes diários recordes na Kalshi desde a sexta-feira. A Polymarket registrou cerca de US$ 2,8 bilhões em volume nominal negociado em suas plataformas internacional e americana na primeira semana de junho, segundo dados compilados por usuários no Dune Analytics, ante US$ 2,1 bilhões na semana anterior. A Kalshi informou cerca de US$ 4,5 bilhões no mesmo período, acima dos US$ 4,2 bilhões registrados anteriormente. Gráfico de apostas em Neymar na Copa desde 17 de março (à esquerda) e apenas na quarta-feira, dia 22 de abril — Foto: Reprodução/Polymarket Criar uma estrutura regulatória capaz de restringir essas plataformas tem se mostrado um desafio para reguladores nacionais. As empresas vêm se expandindo rapidamente ao redor do mundo, ao contrário das operadoras tradicionais de apostas, que normalmente ficam limitadas a uma jurisdição específica. O uso de redes privadas virtuais (VPNs) e criptomoedas facilita a operação sem a intermediação de instituições financeiras locais e dificulta o bloqueio completo das plataformas. Bloqueio na Índia O governo da Índia afirmou que usuários conseguiam acessar mercados de previsão “ilegais e bloqueados” e disse que “a Polymarket e alguns outros sites semelhantes” permitiam o uso de VPNs para contornar a proibição nacional. O governo solicitou aos provedores de internet que cortassem o acesso às plataformas. Os termos de uso da Polymarket e da Kalshi já proíbem o cadastro de pessoas em determinados países, incluindo muitos dos que recentemente adotaram medidas contra as plataformas. As empresas também reforçaram mecanismos de proteção contra negociações com informação privilegiada e manipulação de mercado, à medida que os mercados de previsão passam por crescente escrutínio. A Polymarket está trabalhando em parceria com a empresa de análise de blockchain Chainalysis Inc. para monitorar operações suspeitas em sua plataforma. Jogadores da Coreia do Sul comemoram gol de empate contra a República Tcheca na primeira rodada da Copa do Mundo 2026 — Foto: Ulises RUIZ / AFP “Recebemos com satisfação a oportunidade de colaborar com Espanha, Brasil e outros países em uma solução que apoie inovação responsável, transparência e proteção dos usuários nos mercados de previsão”, afirmou um porta-voz da Polymarket por e-mail. Segundo ele, a empresa monitora operações com possível uso de informação privilegiada e outras atividades ilegais, de forma consistente com outros mercados. A Opinion Labs restringiu o acesso de usuários em diversas jurisdições e bloqueou endereços sujeitos a sanções, afirmou por e-mail Alex Chan, diretor de investimentos da empresa. “Estamos trabalhando em estreita colaboração com várias autoridades locais para lançar plataformas compatíveis com a regulamentação.” Kalshi e Limitless não responderam aos pedidos de comentário enviados por e-mail. Por enquanto, os mercados de previsão permanecem legais em um mosaico de jurisdições, mas a direção parece cada vez mais clara: governos estão cada vez menos dispostos a permitir que essas plataformas operem em uma zona regulatória cinzenta.