Trump estava sentado praticamente à frente de Lula nessa reunião de trabalho Em seu discurso, Lula criticou a redução drástica da solidariedade internacional — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo Em seu primeiro discurso em uma reunião na cúpula do G7, em Évian-les-Bains, nos Alpes franceses, o presidente Lula (PT) criticou, sem fazer referência direta aos Estados Unidos ou a seu presidente, Donald Trump, o protecionismo e o unilateralismo, que “ressurgem como respostas falaciosas” aos problemas atuais do mundo, e defendeu o respeito à soberania dos Estados na luta contra o crime organizado. A fala de Lula ocorreu em sessão sobre novas parcerias para o desenvolvimento que contou com a participação dos líderes do G7 – Estados Unidos, França, Itália, Alemanha, Reino Unidos, Japão e Canadá —, além de nações convidadas, como Índia e Coreia do Sul, e representantes do Banco Mundial e do Banco Africano de Desenvolvimento. Trump estava sentado praticamente à frente de Lula nessa reunião de trabalho. O Brasil não assinou o documento sobre parcerias internacionais que resultou do encontro por considerar, segundo fontes diplomáticas, que os países desenvolvidos focam em alternativas de financiamentos com participação maior do setor privado. Para o governo brasileiro, a responsabilidade dessa ajuda é primordialmente dos Estados. Em seu discurso, Lula criticou a redução drástica da solidariedade internacional, citando a queda histórica de 23% da ajuda oficial no ano passado. O governo Trump, por exemplo, desmantelou em 2025 a Usaid, agência oficial americana para o desenvolvimento internacional, alegando fraudes e desperdício de dinheiro público. “O G7 não podia levar em conta posições levantadas pelo Brasil. Os americanos destruíram a Usaid. Então, não era possível ter um texto assinado pelos Estados Unidos que dissesse que a ajuda pública ao desenvolvimento é muito importante. O Brasil queria mais, mas não está no âmbito do G7”, disse uma fonte diplomática do grupo ao comentar por que o Brasil não se juntou à declaração sobre esse tema. Em seu discurso sobre o tema, Lula também disse que guerras e conflitos continuam desviando o foco da agenda de desenvolvimento e afirmou também que o “neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias.” Crime organizado O presidente brasileiro afirmou ainda que o combate aos crimes transnacionais e ao narcotráfico “devem fazer parte da agenda de desenvolvimento” e ressaltou que a declaração dos líderes do G7 sobre o combate ao tráfico de drogas é um passo positivo. Em mais uma crítica indireta a Trump, Lula ressaltou que a luta contra o crime organizado “deve respeitar a soberania dos Estados.” A fala do presidente brasileiro ocorre dias depois de entrar em vigor a decisão do Departamento de Estado dos EUA de classificar as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Mais cedo, Lula havia se reunido à margem do G7 com a primeira-ministra japonesa, Takaichi Sanae. No encontro, foi anunciado que a próxima cúpula do Mercosul, que será realizada no final de junho em Assunção, no Paraguai, marcará o lançamento das negociações para um acordo de parceria econômico entre o bloco e o país asiático. Veto à carne brasileira na UE Lula teve ainda, nesta terça, um encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, para discutir o veto à carne brasileira a partir de setembro. Os europeus alegam que o Brasil não cumpriu normas relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção. Na reunião, foi acertado um “mecanismo bilateral” entre o Itamaraty e funcionários da Comissão. Na prática, as discussões técnicas terão um acompanhamento político de ambas as partes “para achar uma solução”, diz uma fonte brasileira ligada às discussões. “É reconhecer que há um problema técnico. É um direito soberano da União Europeia estabelecer um padrão de alimentação. Mas fomos pegos de surpresa porque o material entregue pelo Ministério da Agricultura, sobretudo do ano passado para cá, não indica que havia lacunas. Faltou um pouco de sensibilidade política”, acrescenta a fonte. Nesta quarta (17), último dia da cúpula de líderes do G7, o presidente Lula participa de uma sessão de trabalho sobre crescimento equilibrado, na qual deverá fazer um discurso sobre a necessidade de reforma da governança mundial e de instituições internacionais como a ONU e a OMC. Ele participará também de um almoço dos chefes de Estado e de governo do grupo e uma dezena de CEOs do setor de tecnologia e Inteligência Artificial.