Autoridades têm apresentado interpretações contraditórias sobre conteúdo do memorando de entendimento acertado entre Washington e Teerã, enquanto termos não são tornados públicos O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, discursa durante uma reunião com embaixadores estrangeiros em Teerã, Irã, em 16 de junho de 2026 — Foto: Ministério das Relações Exteriores do Irã/WANA (Agência de Notícias da Ásia Ocidental)/Divulgação via REUTERS O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou nesta terça-feira que o acordo provisório anunciado com os Estados Unidos exige que Israel se retire do Líbano, uma condição já rejeitada pelo governo de Benjamin Netanyahu que pode inviabilizar a sequência das negociações. O memorando de entendimento anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, no domingo ainda não foi tornado público. Com isso, autoridades dos dois lados têm apresentado interpretações muitas vezes contraditórias sobre o conteúdo do texto acertado entre os países. Israel não é parte formal do acordo, mas é um dos protagonistas do conflito após ter iniciado os ataques ao Irã, ao lado dos EUA, em 28 de janeiro. Desde então, o país também combate o grupo xiita libanês Hezbollah, que atacou o território israelense em retaliação à ofensiva a Teerã, além de ter ocupado extensas áreas do território do Líbano. Ao falar sobre as negociações hoje, Araqchi afirmou que a permanência das forças israelenses no sul do Líbano configuraria uma violação do acordo. "Sem a retirada das forças israelenses dos territórios que ocuparam durante esta guerra, o conflito não terá chegado plenamente ao fim", declarou. Ao mesmo tempo, o chanceler e outras autoridades iranianas indicaram estar prontas para iniciar a segunda fase das negociações para fechar um acordo definitivo para encerrar a guerra. Segundo Araqchi, uma nova rodada de diálogo terá início da sexta-feira, data em que o memorando de entendimento está previsto para entrar em vigor. Na mesma linha, o principal negociador do Irã, Mohammad Baqer Qalibaf, enfatizou que Israel deve se retirar de "áreas ocupadas" no Líbano, em uma conversa com o presidente do Parlamento do Líbano, Nabih Berri. "O povo do sul do Líbano deve retornar às suas casas", acrescentou Qalibaf em uma publicação em seu canal no Telegram. Uma autoridade americana, sob condição de anonimato, afirmou à agência Associated Press que o acordo não prevê a retirada israelense do Líbano. Netanyahu, por sua vez, disse na segunda-feira que Israel permanecerá no território libanês "pelo tempo que for necessário". O Paquistão, um dos principais mediadores, afirmou que o acordo previa o fim das operações militares, inclusive no Líbano, como o Irã defendia há muito tempo. No entanto, a exigência de Araghchi pela retirada israelense acrescenta um novo elemento de complexidade às negociações. Isso coloca Israel diante de um dilema: tentar enfraquecer as capacidades militares do Hezbollah e restaurar seu poder de dissuasão sem comprometer um acordo patrocinado por seu principal aliado, os EUA. Apoiadores do Hezbollah exibem bandeiras e cartazes do falecido líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, durante um comício nos subúrbios do sul de Beirute, Líbano, em 10 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Mohamed Azakir Israel invadiu o sul do Líbano depois que o Hezbollah lançou mísseis através da fronteira durante a primeira semana do conflito. Desde então, ampliou sua presença militar a níveis não vistos há décadas e realizou ataques contra alvos localizados no coração de Beirute. A intensidade dos ataques israelenses chegou, em alguns momentos, a expor divergências públicas entre a liderança de Israel e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que declarou a jornalistas nesta terça-feira que "não está satisfeito com a forma como Israel tem lidado com o Líbano e com o Hezbollah". "Isso simplesmente continua para sempre", disse Trump ao se referir à estratégia israelense e aos ataques recentes. "E, quando isso acontece, lança uma sombra negativa sobre o grande acordo. E esse grande acordo é o acordo com o Irã." Trump também pareceu criticar a estratégia israelense no Líbano e sugeriu que a vizinha Síria — que, sob o comando do presidente Ahmed al-Sharaa, tenta estabilizar o país após anos de guerra civil — poderia estar em melhor posição para intervir. "Sugeri a Israel que deixasse a Síria cuidar do Hezbollah porque, sinceramente, acho que eles fariam esse trabalho melhor", afirmou Trump. Pessoas deslocadas transportam seus pertences em carros, enquanto retornam para suas casas, após um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã, em Bir Al-Salasil, distrito de Tiro, sul do Líbano , 15 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Aziz Taher