Lógica envolve o uso de infraestrutura digital, como smart contracts, stablecoins e, em alguns casos, agentes de IA, para permitir que pagamentos sejam feitos sem a necessidade de uma ordem manual a cada operação Pagamentos programáveis ganham espaço em discussões sobre stablecoins e IA — Foto: Mohamed_hassan/Pixabay Os pagamentos programáveis, modelo em que uma transação pode ser executada automaticamente a partir de regras pré-definidas, começam a ganhar espaço nas discussões sobre stablecoins, blockchain e inteligência artificial (IA). A lógica envolve o uso de infraestrutura digital, como smart contracts, stablecoins e, em alguns casos, agentes de IA, para permitir que pagamentos sejam feitos sem a necessidade de uma ordem manual a cada operação. A ideia é que uma empresa, uma plataforma ou até um agente de IA possa movimentar recursos a partir de condições estabelecidas previamente. Isso pode incluir, por exemplo, pagamentos entre empresas, liquidação de operações com ativos digitais, micropagamentos por uso de serviços on-line ou alocação automática de recursos em determinados produtos. O tema ainda está distante do uso cotidiano pelo consumidor, mas começa a aparecer em iniciativas voltadas à integração entre criptoativos, inteligência artificial e o sistema financeiro tradicional. Para Jorge Borges, head de Latam da Fireblocks, provedora de infraestrutura para empresas que desejam criar produtos com ativos digitais, os pagamentos programáveis ainda exigem atenção a riscos de governança, segurança e supervisão, já que envolvem movimentação de dinheiro com menor intervenção humana. Segundo Borges, a stablecoin, ativo digital lastreado em moeda fiduciária, é hoje “a principal gasolina” desse mercado. A Fireblocks, que oferece infraestrutura para custódia, movimentação e liquidação de ativos digitais, vem acompanhando a aproximação entre blockchain e inteligência artificial. Borges avalia que essa combinação tem potencial especialmente para pagamentos e movimentação de recursos, mas ainda está em fase de testes e validação. Entre os casos de uso observados estão plataformas de mercado preditivo, ativos tokenizados, tesouraria corporativa e alocação automatizada de recursos. “O mercado já vê isso como um caminho sem volta. No momento em que isso valer para as empresas, elas querem estar prontas”, disse Borges, em entrevista ao Valor. Para ele, o Brasil tende a adotar novas tecnologias com rapidez, mas ainda é difícil prever como esse tipo de solução será explorado em um ambiente regulado. A regulação é um dos pontos que deve influenciar o ritmo de adoção no país. O Banco Central está em processo de construção do arcabouço para prestadoras de serviços de ativos virtuais, enquanto o setor acompanha discussões sobre stablecoins, câmbio, prevenção à lavagem de dinheiro e integração com o sistema financeiro. Esses temas devem ajudar a definir até que ponto pagamentos programáveis poderão avançar no mercado brasileiro. Apesar do interesse crescente, o uso em larga escala ainda não é uma realidade. Antes disso, empresas do setor veem a necessidade de ampliar a adoção de stablecoins em operações mais comuns, criar padrões de segurança e estabelecer modelos de supervisão que permitam automatizar pagamentos sem abrir mão de controle, rastreabilidade e proteção ao usuário. No mercado externo, a discussão ganhou força com iniciativas voltadas a pagamentos “agênticos”, em que sistemas de IA podem executar transações dentro de limites e regras definidos. A Coinbase, uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo, tem impulsionado o x402, protocolo aberto voltado a pagamentos automatizados na internet. A Visa também tem se movimentado nessa direção. Em março, a companhia apresentou uma especificação técnica e um kit de desenvolvimento para permitir pagamentos com cartão dentro do protocolo de pagamentos entre máquinas. Em abril, anunciou a ampliação de seu piloto global de liquidação com stablecoins para nove blockchains, incluindo Base, rede ligada à Coinbase; Polygon; Canton; Arc; e Tempo. Em entrevista ao Valor durante o evento TokenNation, em São Paulo, Antonia Souza, diretora de Moedas Digitais para a Visa América Latina e Caribe, afirmou que a programabilidade pode ser vista como uma próxima fase, mas depende de um passo anterior: a ampliação do uso de stablecoins no dia a dia. Segundo ela, boa parte do volume transacionado hoje ainda está concentrada em operações B2B, pagamentos transfronteiriços, fornecedores e gestão de tesouraria. A Visa, que mantém parcerias com empresas de infraestrutura cripto, como Bridge, Stripe e Rain, tem buscado conectar carteiras digitais, cartões e soluções de liquidação. “Quando a gente fala de programabilidade, a gente fala muito das possibilidades de investimentos e de produtos originados em cripto. Mas hoje boa parte disso ainda não acontece no mercado institucional”, disse. Para a executiva, a entrada de bancos e instituições financeiras tradicionais tende a ampliar a base de usuários e criar condições para que produtos mais sofisticados sejam desenvolvidos.
Pagamentos programáveis ganham espaço em discussões sobre stablecoins e IA
Lógica envolve o uso de infraestrutura digital, como smart contracts, stablecoins e, em alguns casos, agentes de IA, para permitir que pagamentos sejam feitos sem a necessidade de uma ordem manual a cada operação










