Karine Oliveira, advogada: “As empresas não devem olhar só para o preço” — Foto: Divulgação Na esteira da expansão dos negócios, as empresas têm incorporado uma variedade maior de formas de pagamento. Hoje, muitas companhias de médio porte já utilizam ou avaliam mecanismos como QR Codes dinâmicos, links de pagamento, integração com ERPs (software de gestão) e alternativas de parcelamento sem cartão de crédito. Nesse cenário, especialistas ressaltam que a escolha e a contratação de fornecedores exigem análises criteriosas, que envolvem aspectos tecnológicos, comerciais e jurídicos. Com novas tecnologias, essas soluções se tornaram muito mais do que formas de processar pagamentos e recebimentos, incorporando funcionalidades. Cada vez mais integradas à gestão, contribuem para o controle do fluxo de caixa e fornecem relatórios de inteligência, que apoiam decisões e ajudam a aprimorar a experiência dos clientes. Esse movimento está ganhando força entre as médias empresas, que buscam avançar na digitalização, substituindo processos manuais, ou modernizar suas estruturas tecnológicas. A complexidade das operações requer cuidados na escolha de ferramentas e fornecedores. Fábio Montanari, da Montanari Tecnologia: automação, controle e gestão — Foto: Divulgação “Ao contratar soluções de pagamentos, as empresas não devem olhar só para o preço ou para a facilidade de implementação”, diz Karine Oliveira, sócia da área bancária, de meios de pagamento e fintechs do FAS Advogados. O primeiro passo é checar como as soluções de meios de pagamento funcionam na prática e a aderência ao negócio. Uma loja física tem necessidades diferentes de operações on-line. Mesmo entre os canais digitais existem diferenças, como marketplaces, aplicativos de delivery, vendas via WhatsApp ou redes sociais. Há ainda empresas com atuação “omnichannel”, que integram vários canais e pontos de contato com consumidores, o que exige estrutura de pagamentos alinhada com essa complexidade. “A escolha tem que levar em consideração os tipos e volumes de transações, canais utilizados, perfil dos clientes e rotinas de conciliação”, explica Oliveira. Fábio Montanari, CEO da Montanari Tecnologia, especializada em automação, softwares, conexão entre sistemas e terceirização de processos (BPO), diz que é essencial verificar a capacidade de integração das soluções com os sistemas de gestão (ERP). “É preciso entender como a solução vai resultar em ganhos operacionais”, afirma. Outro fator crucial é a reputação dos fornecedores. Para Oliveira, além de conhecer o modelo de atuação do fornecedor, é fundamental verificar se é idôneo. A advogada recomenda verificar se a empresa a ser contratada tem autorização do Banco Central para atuar diretamente no setor ou se opera como participante vinculado à uma instituição regulada. Liliane Josua Czarny, sócia e co-CEO da ACG/PagCorp, especializada em soluções de pagamentos para grandes, médias e pequenas empresas, observa que uma prestadora autorizada pelo Banco Central fica sujeita a uma série de exigências, como auditoria interna e externa, controles e medidas voltadas à segurança dos serviços. A proteção de dados é um aspecto crítico; o fornecedor terá informações sobre a empresa e seus clientes" Apesar de haver muitas facilidades na contratação, até por meio digital, é preciso evitar a aceitação automática dos termos. No caso de sistemas de meios de pagamento, determinadas cláusulas podem impactar as atividades, diz Oliveira. No caso das médias empresas, a advogada recomenda atenção a prazos de liquidação, repasses e prazos para os recursos serem efetivamente disponibilizados. As regras para contestação de pagamentos, incluindo “chargeback”, quando o titular do cartão questiona uma compra junto ao banco emissor, também precisam ser bem definidas, indicando como será a análise, os prazos, documentos necessários e quem suportará perdas em cada situação. A proteção de dados é outro aspecto crítico na análise, já que o fornecedor da solução terá acesso a informações da empresa e dos seus clientes, ressalta Czarny. ”As normas da LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais] devem ser respeitadas”, afirma. Questões de cibersegurança e prevenção a fraudes igualmente merecem atenção. As responsabilidades e procedimentos devem estar refletidas de forma clara na política de privacidade e nos documentos contratuais aplicáveis. “A empresa deve exigir medidas adequadas de segurança da informação, como controle de acesso, criptografia, logs, critérios de retenção e descarte de dados e procedimentos para tratamento de incidentes”, observa Oliveira. Os especialistas também orientam as companhias a avaliarem a estrutura de suporte dos fornecedores que desenvolvem sistemas de meios de pagamento. É preciso entender como vão funcionar os canais de atendimento, qual será o tempo de resposta e as medidas previstas em caso de instabilidade e planos de contingência. Em caso de falhas, erros de processamento ou instabilidades, mesmo que a operação não fique totalmente parada, podem prejudicar a experiência dos consumidores e as vendas. “Eventuais falhas podem ocorrer em qualquer fornecedor, mas o diferencial está na forma como esses problemas são resolvidos”, comenta Oliveira. Médias empresas que atuam no setor de meios de pagamento, por sua vez, têm investido em inovação e governança para crescer em um segmento cada vez mais competitivo. A ACG/PagCorp desenvolveu uma linha de cartões corporativos com mecanismos de controle de despesas, permitindo que as empresas definam regras de uso, como limites, categorias de gastos e estabelecimentos autorizados. “As médias empresas têm se interessado por cartões corporativos por serem instrumentos de gestão”, diz a CEO da ACG/PagCorp. Em 2025, a ACG/PagCorp passou por uma mudança estratégica e registrou crescimento de 40% na operação corporativa em relação a 2024. O faturamento da empresa alcançou R$ 60 milhões no ano passado. Para 2026, a expectativa é um incremento em torno de 15%. Entre as inovações incorporadas estão o Bob, inteligência artificial que lê comprovantes, avalia despesas conforme as políticas da empresa e gera insights para apoiar decisões dos gestores. Outro serviço da empresa é uma integração ao WhatsApp que permite aos usuários dos cartões enviarem comprovantes pelo aplicativo. A ideia é colocar a experiência de pagamento como se fosse invisível na contratação de produtos e serviços” — Marlon Tseng Na Montanari Tecnologia, que atende grandes emissores de cartões de crédito, como Itaú, Bradesco, Santander e Citibank, os serviços combinam automação, controle e gestão. A empresa vem desenvolvendo funcionalidades com foco em empresas que são clientes dessas instituições financeiras. Entre as novidades da Montanari, estão os cartões virtuais corporativos que permitem definir limites, regras de utilização e automatizar a conciliação das despesas. Outra novidade é uma ferramenta de inteligência artificial que faz leitura das notas fiscais, validação em relação aos contratos, cálculos de retenções e encaminha os pagamentos para liquidação, de forma automatizada. O CEO da companhia diz que o faturamento aumentou 31% em 2025 e projeta alta de cerca de 45% em 2026. A expectativa é atingir entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões, diz Montanari. Na Pagsmile, empresa de tecnologia de pagamentos, o foco são empresas que recebem valores por diferentes meios, incluindo Pix, boleto, transferência e cartão de crédito. Entre os clientes, estão plataformas de comércio eletrônico, empresas com modelos de assinatura ou cobrança recorrente e jogos on-line. O portfólio conta com links de pagamento com Pix e soluções de iniciação de pagamentos por meio do Open Finance, que permitem ao consumidor autorizar transações diretamente em sua conta bancária. Marlon Tseng, CEO da Pagsmile, diz que a empresa aposta no desenvolvimento de novas tecnologias para tornar a experiência de pagamento mais simples e com menos fricção. “A ideia é colocar a experiência de pagamento como se fosse invisível no processo de contratação de produtos e serviços”, ressalta Tseng. A meta é que o usuário consiga autorizar uma transação de forma segura sem precisar acessar diferentes aplicativos ou realizar muitas etapas manualmente. Em 2025, a Pagsmile cresceu cerca de 15% em faturamento. Para 2026, a empresa tinha como meta uma expansão de 45%, mas Tseng projeta agora um ritmo mais moderado.
O que levar em conta na escolha de soluções de pagamento
Análise de cláusulas do contrato e reputação de fornecedor evitam prejuízos











