0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Abdullah Ibrahim numa coletiva de imprensa na Cidade do Cabo, em 26 de março de 2026 — Foto: GIANLUIGI GUERCIA / AFP O pianista e compositor Abdullah Ibrahim, que faleceu na segunda-feira aos 91 anos, escapou da África do Sul da era do apartheid e foi descoberto pelo grande jazzista Duke Ellington. Com um estilo musical singular, tornou-se uma figura de grande influência, realizando turnês pelo mundo até os noventa anos. Ibrahim passou muitos anos longe da África do Sul — fugindo pela primeira vez em 1962, ano em que o líder antiapartheid Nelson Mandela foi preso — mas sempre manteve uma forte ligação com sua terra natal, especialmente através de sua música. "Ibrahim faleceu em paz, cercado por sua família, na Alemanha, após uma breve doença", disse sua família em um comunicado. Sua última apresentação pública na África do Sul foi no Festival Internacional de Jazz da Cidade do Cabo, em março. "Abdullah faleceu em paz, com a África do Sul e seu povo em seu coração. Seu amor por seu país jamais vacilou, não importa onde estivesse no mundo", disse sua companheira, Dra. Marina Umari. Nascido em 1934, no caldeirão cultural da Cidade do Cabo, Adolph Johannes Brand, começou a ter aulas de piano aos sete anos, influenciado por sua mãe e avó. "Suas primeiras memórias musicais são de canções tradicionais africanas Khoi-san e hinos cristãos, músicas gospel e spirituals que ouvia de sua avó, pianista da igreja Metodista Episcopal Africana, e de sua mãe, que liderava o coral", diz a biografia em seu site. Ele fez sua estreia profissional aos 15 anos, tocando com grandes grupos de swing e formando sua primeira banda, o Dollar Brand Trio, em 1958, aos 24 anos. No ano seguinte, juntou-se ao septeto The Jazz Epistles, que incluía outra lenda da música, o falecido trompetista Hugh Masekela, e gravou o primeiro álbum de uma banda negra sul-africana. Ellington, um mentor Na década de 1960, o jazz havia se tornado um símbolo de resistência ao apartheid devido às suas bandas e público multirraciais – e o governo segregacionista linha-dura reprimia o movimento. Ibrahim e sua futura esposa, a cantora de jazz Sathima Bea Benjamin, decidiram partir, aceitando um contrato para tocar em um clube na cidade suíça de Zurique. Lá, em 1963, ele foi descoberto pelo pianista de jazz americano Ellington, que ficou tão impressionado que levou o sul-africano para uma sessão de gravação em Paris. Em 1965, Ibrahim e sua esposa se mudaram para Nova York, onde ele liderou a Orquestra de Duke Ellington em diversas ocasiões, estudou na Juilliard School of Music e conviveu com outros artistas de jazz. Três anos depois, o casal retornou à Cidade do Cabo e ele se converteu ao islamismo, adotando o nome de Abdullah Ibrahim. Em 1974, ele gravou a icônica "Mannenberg – 'Is Where It's Happening'", que se tornou um hino contra o apartheid. Após o levante estudantil de Soweto em 1976, que ceifou dezenas de vidas, o casal deixou a África do Sul novamente, levando seus dois filhos pequenos de volta para Nova York. Eles retornaram quando Mandela foi libertado após 27 anos de prisão, em 1990. Ibrahim se apresentou na posse de Mandela como o primeiro presidente negro da África do Sul, em 1994, e fundou uma escola de jazz, mas continuou a viver e trabalhar internacionalmente, estabelecendo-se na Alemanha em seus últimos anos. Faixa preta de caratê Com uma cabeleira grisalha e um semblante introspectivo e gentil, Ibrahim tinha faixa preta em caratê e foi aluno de artes marciais japonesas por décadas. Entre os mais de 70 álbuns que lançou, o tranquilo e minimalista "3" foi gravado quando ele tinha 89 anos. Ele comemorou seu 90º aniversário em 2024 com uma turnê mundial que incluiu uma apresentação na Cidade do Cabo, a primeira vez que retornou à cidade em cinco anos. Refletindo sobre seus 75 anos de carreira em uma entrevista em sua cidade natal, ele admitiu que nunca teve a intenção de se tornar famoso. "Não fazemos isso porque queremos alcançar a fama", disse ele à Eyewitness News. Suas composições eram sobre o que ele conhecia melhor, como um professor certa vez o aconselhou, disse ele. E "o que eu conheço melhor é minha família, meus amigos, as pessoas ao meu redor, onde cresci, a narrativa da história da Cidade do Cabo". Sua música tinha como objetivo ser "tão sincera que comunicasse, mas não há passado, não há futuro, só existe o agora. Se conseguirmos transmitir esse momento, o ouvinte é atraído para qualquer experiência que possa ter", disse Ibrahim à revista Jazzwise em 2021. "Seu legado é um pouco como o de Duke Ellington, pois ele foi extremamente influente tanto como pianista quanto como compositor", disse a pesquisadora musical Christine Lucia. "Não creio que nenhum músico de jazz sul-africano tenha escapado dessa influência, e imagino que ele tenha tido uma influência considerável nas cenas de jazz dos lugares onde viveu, especialmente em Nova York." Em 2019, o National Endowment for the Arts dos EUA concedeu-lhe sua maior honraria, o prêmio Jazz Masters, um dos muitos reconhecimentos ao longo de uma vida dedicada à música.
Morre Abdullah Ibrahim, pianista de jazz sul-africano de renome mundial
Morre Abdullah Ibrahim, pianista de jazz sul-africano de renome mundial










