Este texto é da newsletter de Thomas Traumann, enviada toda segunda-feira de manhã com uma análise do cenário político na semana que se inicia. Para ler antes da publicação on-line, direto no seu e-mail, clique aqui para se inscrever. Nesta primeira semana da Copa, escrevo sobre quem está fora do Fla-Flu da política: os não-polarizados. Os que não torcem nem para Lula, nem para Bolsonaro são 27% do eleitorado, segundo um recorte exclusivo para O GLOBO da última pesquisa Genial/Quaest. Justamente por não ter uma opinião firme sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, este é o segmento com opinião mais volátil. É o grupo, por exemplo, que mais puniu Flávio Bolsonaro pelo seu envolvimento no escândalo do Master. Como não há como fugir do futebol, escrevo ainda sobre qual poderia ser a influência do hexa nas eleições de outubro. A resposta honesta é que não há evidências de correlação entre o resultado da Copa e o das eleições, mas estudos concordam que o sentimento de união nacional de eventos esportivos pode aumentar o otimismo da população. Só que nem sempre esse otimismo favorece o candidato incumbente. Boa leitura, TT. 1. Para onde vão os não-polarizados? Num país trincado pela polarização política, o resultado de outubro será definido pela minoria que não rejeita nem Lula, nem Bolsonaro. Recorte exclusivo para O GLOBO da recente pesquisa Genial/Quaest mostra que o país tem 31% de eleitores que se consideram antibolsonaristas, 29% de antipetistas e 10% que dizem rejeitar as duas opções. É o retrato da polarização que o Brasil conhece desde 2018. A novidade está no tamanho do grupo que não rejeita nenhum dos dois: 27%. São eles que vão decidir quem vai ocupar o Palácio do Planalto a partir de 5 de janeiro. Como seria esperado, os não-polarizados são a maioria entre os eleitores independentes: 40%. Justamente por não ter uma opinião firme sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, este é o segmento com opinião mais volátil. É o grupo, por exemplo, que mais puniu Flávio Bolsonaro pelo seu envolvimento no escândalo do Banco Master. Na simulação de primeiro turno, 28% dos independentes preferem Lula, 18% afirmam que pretendem votar em branco ou nulo ou se abster e apenas 14% escolhem Flávio Bolsonaro. De acordo com a Genial/Quaest, entre os eleitores independentes, 22% se dizem antibolsonaristas, 17% rejeitam os dois e 16% são antipetistas. É na base dos neutros que o governo Lula melhorou sua avaliação. Em abril, 49% deles desaprovavam o governo. Agora, 40% reprovam. No mesmo período, a aprovação era de 44% e subiu para 51%. No eleitorado geral, há um empate técnico: a desaprovação é de 48% ante 47% de aprovação. Com o barulho gerado por lulistas e bolsonaristas nas redes sociais e nas ruas, é normal que as campanhas comecem falando apenas para o público interno. Isso explica tolices como Flávio Bolsonaro dizer que, na Copa, os brasileiros deveriam “vestir a camisa de Bolsonaro”, excluindo os demais eleitores, ou da campanha lulista do “nós contra eles”, que tenta empurrar os neutros para um dos dois lados. A reunião das fileiras com um discurso unificado é hoje a principal diferença das duas pré-campanhas. Com os vários percalços ao longo do governo, Lula manteve o núcleo de partidos que o apoiou na campanha de 2022 — do PSOL de Guilherme Boulos ao PSB, agora com Simone Tebet. Já Flávio Bolsonaro corre o risco de perder a aliança formal do PP e do União Brasil e não tem o entusiasmo nem da madrasta Michelle Bolsonaro, nem do governador Tarcísio de Freitas. Num segundo turno, não adianta contar com os votos polarizados. É preciso ampliar e aí os não-polarizados serão decisivos. O discurso radical que levanta o ânimo dos militantes pode acabar assustando o grupo que vai decidir o vencedor. Por ironia, quanto mais radicalizado for o ambiente do segundo turno, mais o candidato terá de ter um discurso para os não-polarizados para diminuir sua rejeição e obter a maioria. O ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 2. O efeito Sidônio A principal informação da recente pesquisa Genial/Quaest não está nos números da corrida presidencial, mas no registro da primeira vitória em anos da comunicação do governo sobre o bolsonarismo. A comunicação do governo Lula convenceu a maioria dos eleitores de que Flávio Bolsonaro esconde ilegalidades no caso Master, atuou a favor das novas tarifas dos EUA, não é mais moderado que o restante da família e representa menos os interesses nacionais do que Lula. Para um governo que até o ano passado morria de medo dos vídeos de Nikolas Ferreira, é uma virada gigantesca. Na disputa de narrativas, o governo ganhou todas. Um mês depois das revelações do Intercept Brasil sobre o patrocínio de mais de R$ 60 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro para a cinebiografia de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio Bolsonaro perdeu credibilidade fora do núcleo duro bolsonarista, passou a ser vista como submissa aos interesses norte-americanos e perdeu o diferencial de moderação que era seu maior ativo. O encontro do candidato com Donald Trump foi apagado pelo novo tarifaço e pelas declarações de Eduardo Bolsonaro sobre negociar o Pix com os EUA. O principal ganho da estratégia montada pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, está na redução do antipetismo. Um recorte inédito da pesquisa Genial/Quaest mostrou que, em março, 42% dos brasileiros se diziam antipetistas ante 54% não antipetistas. Agora, os antipetistas caíram para 38% e os não-antipetistas subiram para 59%. Esta queda do antipetismo pode ser fundamental para o resultado de outubro. Desde a eleição presidencial de 1989, o antipetismo se firmou como a força centrípeta da disputa. O mesmo entusiasmo que levou candidatos do PT ao primeiro ou segundo lugar em todas as eleições gerou a reunião de todas as outras forças políticas em torno primeiro do PSDB e depois do bolsonarismo. Se o antipetismo se reduzir, é natural que também caia a rejeição a Lula. A mesma pesquisa mostrou uma estabilidade do antibolsonarismo. Os não-antibolsonaristas eram 55% e hoje, 56%, enquanto os antibolsonaristas eram 42% e hoje, 41%. Com um novo anúncio de programa de benefício por semana, Lula tem a vantagem da história. De acordo com estudo da Quaest sobre 140 eleições em 18 países da América Latina, os presidentes candidatos à reeleição tendem a ter um aumento de cerca de 4 pontos percentuais na taxa de aprovação do governo no trimestre anterior ao pleito. Ou seja, a aprovação do governo Lula ainda pode subir um pouco mais. O tempo para uma reação do campo bolsonarista está correndo mais rápido. Enquanto Lula é o único candidato da esquerda, Flávio Bolsonaro tem uma oposição dividida, insatisfeita com o monopólio da família. As constantes brigas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro com outros líderes do campo direitista, como a madrasta Michelle, o governador Tarcísio de Freitas e o deputado Nikolas Ferreira pioram a perspectiva. É notável que o candidato que melhor está aproveitando a crise de Flávio Bolsonaro é justamente aquele que mais o critica: Renan Santos. 3. A Copa une o país, mas não rende votos O desempenho do Brasil na Copa pode influenciar o resultado das eleições de outubro? A resposta honesta é que não há evidências de correlação entre o resultado da Copa e das eleições. O governo de plantão venceu com o tetra de 1994, mas perdeu com o penta de 2022. O presidente à época foi reeleito apesar das derrotas em 1998 e 2006. Até o 7x1 da Copa de 2014 não afetou a reeleição de Dilma Rousseff. Mas o fato de não existir correlação direta entre levantar a taça e ser eleito não impede a especulação, numa área de estudo que a ciência política batizou de “eventos irrelevantes” (irrelevantes para quem não é brasileiro, lógico). Anedoticamente, a surpreendente vitória dos conservadores na eleição britânica em 1970 é citada como reflexo da dramática virada que a Inglaterra sofreu na semana anterior contra a Alemanha na Copa do México depois de estar vencendo por 2x0 até os 22 minutos do segundo tempo. Analisando centenas de partidas de futebol americano, os cientistas políticos Andrew Healt, Neil Malhotra e Cecilia Hyunjung concluíram, em estudo publicado em 2010, que as vitórias dos times locais dariam 1,61 ponto percentual a mais para os candidatos dos partidos incumbentes nas eleições ocorridas até dez dias do jogo. Contudo, há quilos de artigos científicos ponderando uma influência eleitoral menor dos eventos esportivos, como a pesquisa de Lauri Rapeli e Peter Soderlund, de 2022, comparando as medalhas olímpicas da Finlândia com os resultados locais. Há comprovações científicas, no entanto, de que eventos como a Copa e a Olimpíada podem trazer um sentimento de unidade nacional que, se não mudam o voto, ajudam a criar um fator de bem-estar. Estudos concordam que o sentimento de união nacional gerados por eventos esportivos pode aumentar o otimismo da população. Só que nem sempre esse otimismo favorece o candidato incumbente. O despertar deste orgulho patriótico foi o que levou os governos da África do Sul (2010), Reino Unido (2012), Brasil (2014 e 16), Rússia (2014, 2018), Coreia do Sul (2018), Japão (2021), China (2022), Catar (2022) e França (2024) a organizarem as últimas Copas e Olimpíadas de inverno e verão, com resultados diversos. O uso do esporte na política é fato da vida. O regime militar brasileiro se mesclou à vitória de 1970, assim como a ditadura argentina faturou a Copa de 1978. Mais recentemente, o governo alemão usou o tricampeonato de 1990 como símbolo do país recém-reunificado. Em suas memórias, Fernando Henrique Cardoso diz que o tetra de 1994 gerou um orgulho nacional que ajudou na implantação do Plano Real e, por consequência, a sua eleição. O primeiro título seleção francesa “black-blanc-beur” (negra-branca-árabe) em 1998 empurrou o discurso racista da extrema-direita contra a parede. Por enquanto. Há um país, porém, em que presidentes mantêm quilômetros de distância do futebol: a Argentina. Desde que Carlos Menem foi à abertura da Copa da Itália assistir à então campeã mundial Argentina de Maradona perder para Camarões, os presidentes argentinos são considerados pés-frios. O próprio Menem não foi à final de 1990, Cristina Fernández Kirchner faltou à derrota no Maracanã em 2014 e Alberto Fernández assistiu de Buenos Aires à vitória no Catar em 2022. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo — Foto: Foto: Cristiano Mariz 4. A última dança de Galípolo A reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) desta terça e quarta-feira (16 e 17) vai testar o limite da boa vontade do governo com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, aquele que já foi chamado pelo presidente Lula de “garoto de ouro”. Mais importante do que a manutenção ou a redução de 0,25 ponto percentual na Taxa Selic, a próxima reunião do Copom vai marcar o fim do ciclo de corte de juros. A decisão quebra o que os ocupantes do Planalto consideraram um compromisso de Galípolo, seguir cortando os juros pelo menos até a reunião de setembro. Os motivos do Banco Central para segurar os juros acima de 14% são conhecidos: a piora constante do cenário externo (mesmo com a possibilidade do fim do conflito no Irã), as projeções de inflação acima do teto da meta em 2026 e nos próximos dois anos, a farra das medidas parafiscais do governo Lula e o clima de o-céu-é-o-limite para os gastos promovido por Davi Alcolumbre. Mas ninguém vai prestar atenção nas justificativas. Para o mercado financeiro, o anúncio do fim do “ciclo de calibração” devolve uma âncora importante de que o BC seguirá comprometido em devolver a inflação para a meta, sejam quais forem os ocupantes do Planalto. Para o governo e o PT, no entanto, será a confirmação de que Galípolo não é mais de ouro. 5. Fique atento O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está na França para tentar uma conversa com Donald Trump, durante a reunião do G7, nos Alpes de Évian-les-Bains. É um ganha-ganha. Se Trump se sentar com Lula e aceitar renegociar o novo tarifaço, o presidente brasileiro sai novamente como aquele que não se submete ao americano. Se Trump ignorá-lo, Lula dirá que a Casa Branca trabalha para eleger Bolsonaro, percepção ruim para o candidato da oposição.O ministro do STF André Mendonça decide onde ficará Daniel Vorcaro, agora que a Polícia Federal recusou a sua segunda oferta de delação premiada. A defesa alega que, se for devolvido ao presídio da Papudinha, Vorcaro corre risco de morte. A PF não o quer mais na cela da Superintendência enquanto não fizer uma delação com começo, meio e fim.O Ministério da Fazenda deve baixar medida provisória para renegociar parte das dívidas rurais, restrita aos produtores que perderam ao menos 30% da sua safra com secas e enchentes. A bancada ruralista vai chiar.A máquina bolsonarista tentará vender a ideia de que a divulgação da perícia contratada para conferir os gastos da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, encerra o caso. Bobagem. Como mostrou o site Metrópoles, a produtora informou que o orçamento inicial era US$ 16 milhões (R$ 89,7 milhões). O valor é R$ 44,8 milhões menor do que a quantia que teria sido negociada pelo senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro. Na terça-feira (16), depois de três semanas, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, envia o projeto que acaba com a escala 6x1 para a Comissão de Constituição e Justiça. Depois, Alcolumbre inventa outro pretexto para atrasar a votação. Na terça-feira (16), a Primeira Turma do STF começa a julgar o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, por suposta coação no curso do processo da trama golpista. A dúvida é só o tamanho da pena.Para destravar a pauta, o presidente da Câmara, Hugo Motta, coloca para votar na terça-feira a urgência do projeto de lei do governo Lula que trata do fim da escala 6x1. É apenas uma burocracia para os deputados poderem votar o aumento dos limites de isenção de imposto das empresas inscritas no MEI e no Simples.Na quarta-feira (17), o Copom tende a fazer seu último corte de 0,25 ponto percentual na Taxa Selic.Na quarta-feira (17), o STF encerra o julgamento sobre a regulação das redes sociais. As plataformas podem ser responsabilizadas civilmente se não agirem imediatamente para remover conteúdos como terrorismo, racismo, tentativa de golpe de Estado ou violência contra a mulher.Com sessões semipresenciais no Senado nesta semana, cai o risco de novos gastos públicos. O seu, o meu, o nosso bolso agradece.
A Copa une o país, mas não rende votos
A Copa une o país, mas não rende votos
27% do eleitorado, não-polarizado, decide eleições de outubro; grupo foi mais atingido pelo caso Master de Flávio Bolsonaro. Eleições exigem atrair neutros com moderação; aprovação governamental sobe entre independentes, antipetismo cai para 38%.














