Empresa passa por dificuldades financeiras há tempos e seu valor de mercado hoje é de apenas R$ 25 milhões Foto: Gabriela Biló/Estadão - 29/10/2015Uma nova disputa societária está se desenhando na Gafisa, que atravessa dificuldades financeiras há tempos. Um grupo de acionistas orquestrado pela gestora de recursos ativista L4 Capital requereu - e conseguiu - agendar uma assembleia geral extraordinária para ampliar o conselho de administração da incorporadora e trocar todo o conselho fiscal. A assembleia foi marcada para 1º de julho.PUBLICIDADEAgora, a L4 quer garantir que a AGE ocorra sem dar chances para a entrada de credores na discussão. A Gafisa tem em aberto um processo de aumento de capital que prevê a conversão de dívidas em ações. O processo foi iniciado em abril e se estenderá até o fim de junho, véspera da assembleia, podendo movimentar entre R$ 110 milhões e R$ 250 milhões - muitas vezes mais que seu valor de mercado de R$ 25 milhões.Na fase de exercício de direito de preferência, os acionistas subscreveram apenas R$ 10 milhões. O grosso da capitalização se concentrará na conversão de dívidas - que abre a possibilidade para diversos credores ganharem participação relevante na empresa - desde fornecedores e empreiteiros, até detentores de debêntures - o que mudaria completamente o quadro acionário.Na lista de credores aparece o empresário Nelson Tanure, que já é ligado à Gafisa através de fundos geridos pela Planner que respondem por 19% da companhia, além de possuir debêntures da empresa. Há uma preocupação da L4 que Tanure ganhe participação no negócio e vote contra os pleitos dos acionistas que solicitaram a convocação da AGE. A L4 reuniu um grupo que tem 8% da empresa ao todo.Gestora pediu data de corteDiante desse receio, a L4 pediu à Gafisa que fixe 5 de junho como data de corte para a AGE. Assim, apenas a base acionária existente até essa data poderia votar na assembleia. Detentores de ações emitidas depois dessa data ficariam de fora.Publicidade“Quem quis participar do aumento de capital, aceitou a tese da empresa. Mas os credores não têm direito de discutir governança nesse momento da assembleia”, afirmou à Coluna o sócio da L4, Hugo Queiroz. Segundo ele, a data de corte não afetaria quem já tem ações ou que venha a comprar os papéis em bolsa, mas barra quem pretende ganhar corpo via conversão de dívidas.A Gafisa, porém, negou o pedido da L4, sob alegação de que a imposição de uma data de corte representaria uma violação da lei. A incorporadora cita que a lei 6.404/76 impede a escolha de data base para a definição de acionistas habilitados a participar de uma assembleia. Procurada, a companhia não se manifestou, pois está em período de silêncio, no processo de aumento de capital.No entendimento da empresa, a data de referência para verificação da posição acionária deve ser a mais recente possível, portanto, a base vigente na manhã da data da assembleia. “Essa prática visa garantir que as pessoas que comparecerão à assembleia sejam, efetivamente, acionistas da companhia no momento da deliberação”, explicou a direção, em troca de e-mails com a L4.A resposta desagradou a L4, que sustenta que o argumento não procede. “Já participei de várias assembleias em que tinha data de corte para acionistas participarem de discussões de governança”, rebateu Queiroz. Agora, a L4 pretende ir atrás de uma liminar judicial para assegurar o seu pleito. “Mais tardar, até semana que vem devemos entrar com essa petição”, antecipou à reportagem.Instituição busca mudar conselhosNa assembleia, o grupo da L4 quer emplacar dois representantes no conselho de administração, que passaria de três para cinco membros. Também pede a destituição e eleição de um novo conselho fiscal.PublicidadeA justificativa é que a empresa não vem dando resultados: diminuiu os lançamentos e a receita, tem margens estagnadas e prejuízos recorrentes, além de disparada na dívida. Nos últimos 12 meses, as ações caíram mais de 90%, negociadas hoje na faixa de R$ 1. Para mudar esse quadro, é preciso mudar a governança, dizem.PUBLICIDADEA Gafisa mudou o foco para empreendimentos de alto padrão e luxo, abandonando os lançamentos para classe média. Por sua vez, a L4 pretende rediscutir a rota. A ideia é vender terrenos considerados sobressalentes no Rio e em São Paulo, e buscar projetos nas Regiões Centro-Oeste e Sul.“Hoje a Gafisa está competindo com JHSF, Lindenberg, Even e outras empresas com mais nome no alto padrão. Vamos usar a marca nacional da Gafisa em outros lugares onde tem muitas oportunidades para o alto padrão, mas com terrenos mais baratos”, diz Queiroz.A direção da Gafisa tem falado a investidores e acionistas que 2026 é um ano de transição, com a entrega de projetos antigos e redução da dívida, enquanto a retomada do crescimento ocorrerá a partir de 2027. Por isso ainda não houve melhora dos resultados.Dívida chega a R$ 1,6 bilhãoO maior desafio está na dívida total, de R$ 1,6 bilhão, enquanto os recursos em caixa somam apenas R$ 306 milhões, conforme o balanço mais recente. O que complica são os vencimentos de curto prazo. Da dívida total, R$ 672 milhões (41%) vencem até dezembro deste ano e R$ 697 milhões (43%) até o fim do ano que vem.PublicidadeQueiroz, da L4, diz que considera pedir aos credores uma paralisação temporária das cobranças (stand still) se conseguir influenciar o conselho de administração. “Vamos criar comitês específicos para mostrar que a gestão mudou e depois negociar um stand still”, antecipa.Por sua vez, a direção da Gafisa acredita que a dívida será equacionada sem a necessidade de renegociações. Além do aumento de capital, a empresa espera gerar caixa com a finalização de obras e o repasse de clientes para o financiamento bancário. Com isso, a direção prevê um corte de 48% na dívida total até o fim do ano.“A nossa alavancagem está muito ligada aos projetos. Então, na medida em que a gente vai fazendo as entregas e os repasses, a gente deve ter uma redução muito boa do endividamento”, afirmou o presidente da Gafisa, Luis Ortiz, durante a última teleconferência com analistas. Até o fim do ano, serão cinco obras entregues, com apartamentos avaliados em R$ 1,7 bilhão, sendo que aproximadamente 90% já estão vendidos. A empresa também passou por atraso de obras e distratos.Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 12/06/2026, às 15:52A Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.PublicidadePara saber mais sobre a Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.
Acionistas da Gafisa querem limitar influência de credores em assembleia
Processo de aumento de capital da incorporadora pode movimentar até R$ 250 milhões













