Cumaná já foi um polo econômico, produzindo Toyota Land Cruisers e exportando alimentos para toda a América do Sul; agora, está à beira do desastre com o colapso dos serviços públicos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoas se reúnem ao redor de um riacho poluído para encher recipientes com água em Cumaná, Venezuela — Foto: Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/06/2026 - 21:28 Cumaná: De Polo Industrial a Símbolo da Crise Venezuelana Após Chavismo Cumaná, outrora centro industrial da Venezuela, reflete a decadência após 27 anos de chavismo. De polo econômico, produzindo veículos e exportando alimentos, a cidade enfrenta colapso dos serviços públicos, com água escassa, apagões e uma economia devastada. Enquanto Caracas atrai investidores pós-Maduro, Cumaná luta com hiperinflação e infraestrutura em ruínas, simbolizando o desafio de reconstrução do país. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A água potável em Cumaná, cidade no leste da Venezuela, está em níveis extremamente baixos. Apagões diários assolam a cidade. O vento uiva pelos restos saqueados de sua outrora ilustre universidade. Catadores vasculham lixões em busca de restos de comida. Grande parte de Cumaná, que já foi uma joia da coroa da base industrial do país, tem a atmosfera de uma zona de guerra devastada. Esta cidade litorânea é um mundo completamente diferente de Caracas, a capital, que está prestes a vivenciar uma recuperação em grande parte isolada da decadência que assola grande parte do país. Após as Forças americanas deporem e capturarem o ex-líder, Nicolás Maduro, em janeiro, magnatas do petróleo e das criptomoedas têm corrido para Caracas para explorar negócios. Cumaná conta uma história muito diferente — a da economia devastada no resto do país, que pode levar gerações para ser reconstruída. Em maio, dirigi pelo leste da Venezuela, uma viagem do amanhecer ao anoitecer por mais de 20 postos de controle militares e policiais, para ver em primeira mão as condições de vida fora da capital. — Sabe aqueles ataques com mísseis na Ucrânia de que sempre falam? — disse José Luis Sánchez, 56, presidente da Associação de Economistas de Cumaná, um grupo empresarial. Com um toque de humor ácido, acrescentou: — Às vezes dizemos que nossa cidade parece Kiev. Não foram os bombardeios que devastaram grande parte de Cumaná. Em vez disso, o regime de partido único, a gestão econômica desastrosa e as campanhas de vingança ideológica são os culpados, dizem aqueles que agora expressam abertamente sua dissidência na cidade de meio milhão de habitantes, à medida que as restrições autoritárias à liberdade de expressão na Venezuela começam a ser flexibilizadas. Os edifícios vandalizados da Universidade do Oriente, outrora um dos mais importantes centros de pesquisa marinha da América Latina, em Cumaná, Venezuela — Foto: Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times Quando Hugo Chávez chegou ao poder há 27 anos, Cumaná figurava entre outros polos industriais como Ciudad Guayana e Valência, ajudando a tornar a Venezuela uma potência regional. Era um epicentro da indústria pesqueira e de conservas para toda a bacia do Caribe, processando uma quantidade impressionante de atum e sardinha consumidos em toda a América do Sul. Os estaleiros que construíam embarcações de pesca comercial prosperavam. O principal motivo de orgulho da cidade era uma fábrica da Toyota que produzia Land Cruisers, os lendários veículos com tração nas quatro rodas que se tornaram um ícone na Venezuela. Então Chávez embarcou em uma onda de estatizações de empresas privadas, um pilar fundamental em seu plano de construir uma economia socialista sob seu controle. Cumaná e o estado vizinho de Sucre, um bastião chavista, tornaram-se um laboratório para esses esforços. As expropriações, inicialmente destinadas a garantir a segurança alimentar interna, privaram a indústria de conservas de Cumaná de capital privado. O colapso da produção em outras empresas estatais em outras partes da Venezuela privou as fábricas de conservas do que elas mais precisavam: latas de metal. Muitas fábricas de conservas agora operam com dificuldades, estão temporariamente fechadas ou completamente abandonadas, como uma no bairro de Caigüire, contribuindo para a paisagem de ruínas de Cumaná. A fábrica de montagem da Toyota, paralisada repetidamente por greves apoiadas pelo governo e impasses sindicais, reduziu suas operações em fases. A espiral da economia rumo à hiperinflação, há uma década, finalmente a forçou a fechar, juntamente com todo o seu ecossistema de fornecedores locais. Com seu setor manufatureiro devastado, Cumaná agora depende, como grande parte do país, do governo da Venezuela para suas necessidades básicas. Este novo capítulo não está indo bem. Um deslizamento de rochas em fevereiro, dentro de um túnel no reservatório que abastece Cumaná, provocou um colapso em todo o sistema. Incapazes de resolver o problema, as autoridades ordenaram um severo programa de racionamento com o objetivo de preservar a água que pudesse ser transportada por caminhão. Cenas de caos agora acompanham a chegada desses caminhões, com moradores implorando, às vezes gritando, para que lhes seja permitido encher galões de plástico. Soldados empunhando fuzis semiautomáticos estão de prontidão para evitar confrontos. Quando os caminhões-pipa públicos não chegam, caminhões-pipa particulares suprem a demanda. Mas a inflação fez com que os preços da água disparassem, com um único galão de 20 litros custando até US$ 8 — um fardo significativo para famílias que já sobrevivem com baixos salários e um subsídio mensal de US$ 240 do governo. Aqueles que não podem comprar água engarrafada são obrigados a caminhar até pontos de coleta públicos ou poços improvisados. Comércios fecharam as portas. Escolas suspenderam as aulas porque as instalações não têm água para saneamento básico e banheiros. Pessoas enchem garrafas em reservatórios comunitários de água instalados em resposta à crise hídrica em Cumaná, Venezuela — Foto: Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times Yamileth Sotillo, de 43 anos, uma empregada doméstica que mora em Brisas del Golfo, um assentamento irregular, disse que esperava que as coisas melhorassem depois que as forças americanas capturaram Maduro em janeiro e o substituíram por Delcy Rodríguez, sua vice-presidente. Mas a crise hídrica piorou muito uma situação que já era ruim, disse ela. “Todavía no se ve queso en la tostada”, relatou Sotillo, usando uma expressão popular venezuelana que pode ser traduzida livremente como “Você ainda não vê queijo na torrada”. Outra forma de dizer: Nada melhorou ainda. Eles disseram que ainda temiam represálias dos líderes do Conselho Comunal, a célula organizacional na Venezuela que administra o governo local e serve como os olhos e ouvidos do partido governante nas ruas. Os líderes do Conselho monitoram postagens em mídias sociais e conversas cotidianas, disseram esses moradores, e podem limitar subsídios como alimentos básicos ou combustível para cozinhar se acreditarem que alguém é desleal ao Estado. Em um lixão a céu aberto perto de hotéis decadentes que antes recebiam turistas em busca de sol, idosos catam comida, lenha e latas de alumínio para reciclar. Como em outras partes do país rico em petróleo fora de Caracas, a eletricidade cai por várias horas quase todos os dias. Isso transforma algo corriqueiro, como ir a um shopping center, em uma experiência surreal. Por volta do meio-dia de um dia recente no shopping Hipergalerías, o estacionamento estava completamente escuro, obrigando quem chegava de carro a usar as lanternas do celular para encontrar o caminho. Dentro do shopping, escadas rolantes e elevadores pararam de funcionar. Sem ar condicionado e com temperaturas externas próximas a 32 graus Celsius, a estrutura cavernosa parecia uma sauna. Mesmo assim, alguns compradores circulavam. A maioria das lojas estava às escuras, mas algumas com seus próprios geradores permaneceram abertas. — Obviamente, isso é terrível para os negócios — afirmou Taís Mago, de 35 anos, que administra um restaurante no shopping que precisa fechar as portas sempre que há apagões. Em outros pontos de Cumaná, murais pró-governo cobrem paredes por toda a cidade, como se para lembrar às pessoas quem ainda está no comando. Embora as imagens de Hugo Chávez tenham desaparecido em grande parte de Caracas, elas ainda são onipresentes em Cumaná. Entre os slogans que estampam: “O turismo é a arma secreta do novo modelo econômico da Venezuela.” “A esperança está nas ruas.” “Quando há determinação, nada é impossível.”
De joia industrial a ruína: cidade revela a decadência da Venezuela ao longo de 27 anos de chavismo
Cumaná já foi um polo econômico, produzindo Toyota Land Cruisers e exportando alimentos para toda a América do Sul; agora, está à beira do desastre com o colapso dos serviços públicos






