No aniversário do Brasil e Itália do tricampeonato, o pesadelo da estreia na Copa 2026 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Neymar — Foto: Divulgação No próximo domingo, o Brasil comemora uma de suas datas magnas, a conquista em 1970 do tricampeonato mundial de futebol. O 21 de junho foi incorporado aos festejos nacionais como o dia em que o futebol viveu os seus 90 minutos de mais fina arte naquela vitória da seleção sobre a Itália por 4 a 1. O país fundado em 1958 renascia. Ontem pela manhã, em busca de algo para me orgulhar depois do Brasil e Marrocos, revi o jogo no Youtube. Bem... A final de 1970 não é tão ruim quanto o jogo de anteontem, mas quando Rivelino isolou mais um chute na arquibancada do Azteca, eu achei que estava trocando as bolas, misturando os jogos e assistindo às patacoadas de Casemiro na seleção do Ancelotti. Foi no tempo das chuteiras pretas, das camisetas para dentro do calções e da permissão para atrasar com os pés a bola ao goleiro. Na cobrança de falta, o juiz não dava as nove passadas para marcar os 9m15cm regulamentares de distância entre o cobrador e a barreira. Ficava ao gosto do freguês. A propósito, nesse Brasil e Itália Pelé bateu duas faltas também láááá na arquibancada. Foi no tempo do juiz de preto e do jogador nu e fumando, dando entrevista no vestiário. Mesmo assim é impossível assistir àquele épico da brasilidade, um momento sublime de nossos 526 anos de existência, sem ficar ligeiramente em dúvida. Dá muito sono. Gérson pega a bola na área brasileira e, sem que ninguém lhe tente interromper a caminhada, cisca até a entrada da área adversária, quando lhe é dado tempo suficiente para levantar a cabeça e, canhotinha de ouro, servir seus companheiros com passes perfeitos. Lucas Paquetá, nem com todo o tempo do mundo, conseguiria o mesmo, mas os italianos pareciam apenas assistir à aula dos brasileiros. Foi no mundo distante em que os escudos dos times não se confundiam com o logotipo dos patrocinadores. Os titulares usavam estritamente a numeração de 1 a 11, permitia-se apenas duas substituições, a bola absorvia água e nos dias de chuva dobrava de peso. Os lances fundamentais de Brasil e Itália ainda alumbram as retinas pátrias e agora são reconstituídos de forma notável numa série da Netflix – mas eu revi o jogo inteiro. A memória prometia mais: o que são aquelas escorregadas do Rivelino em todas as bolas chutadas no primeiro tempo? Tão risível quanto o Alisson Becker saindo como se fosse às compras para levar o lençol do marroquino. Os lances do pavoroso Brasil e Marrocos serão esquecidos. Do Brasil e Itália, por mais aborrecido que tenha parecido, ficará para sempre um dos grandes momentos desta civilização à beira-mar plantada. É algo que se junta às pinceladas de Portinari, ao humor do Machado, às coreografias da Deborah Colker, aos sambas do Paulinho, aos cliques do Sebastião, aos braços abertos do Cristo no alto do morro – e explica a grandeza de um país. Foi no tempo em que meia dúzia de polichinelos resolviam a preparação física, os goleiros jogavam de joelheiras e cotoveleiras, e no intervalo todos recuperavam as energias gastas na primeira etapa chupando o isotônico supremo escondido no bagaço de uma laranja lima. Clodoaldo dribla quatro italianos, passa para Rivelino, que passa para Jairzinho, que passa para Pelé que passa para Carlos Alberto que – tudo parecendo como se combinado desde o Big Bang – estufa as redes italianas. Foi há 56 anos. No próximo jogo Ancelotti deveria mostrar a cena para seus jogadores de chuteiras cor-de-rosa – e, pelo amor de Deus, escalar o Endrick!