Artista, que se tornou uma máquina de fazer dinheiro nos anos 1950, teve carreira barulhenta ao longo de oito décadas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Em 1998, Dercy Gonçalves foi homenageada pela escola Unidos da Viradouro — Foto: Fernando Maia / Agência O Globo Poucos artistas brasileiros deixaram tantas lembranças na memória do respeitável público quanto Dercy Gonçalves. Não apenas pela performance em cena, mas sobretudo quando abria a boca para falar da vida. Suas opiniões eram comumente reforçadas com palavrões cabeludos, garantindo-lhe a fama de indecente e pornográfica. Criada artisticamente no circo mambembe e no teatro de revista, ela era de um tempo em que palavrões surpreendiam a plateia, que ria da atriz às gargalhadas — às vezes, de nervoso pela ousadia, e às vezes porque Dercy sabia mesmo fazer graça com tudo (ela admitiria que criar essa persona desbocada foi sua forma de sobreviver: “Eu não ia vender tóxico, ia? Ia virar traficante?”). Pelo bem ou pelo mal, era impossível ficar indiferente a Dercy. Foi assim que atravessou seus 101 anos de idade, participando de cerca de uma centena de produções, entre teatro, TV e cinema. Nascida em 1907 na pequena Santa Maria Madalena, no Estado do Rio — onde fez questão de que fosse enterrada com o caixão em pé (!) —, a moleca irrequieta e respondona apanhou muito do pai antes de fugir para a fama no Rio de Janeiro. A fama não veio fácil, mas foi definitiva. Antes de ter reconhecido o talento para o canto e para a cena cômica, correu mundo em pequenas companhias, vendendo perfumes para reforçar a renda. Em 1929, deixou de lado seu nome de batismo, Dolores, e reinventou-se como Dercy. Casou e descasou, mas não gostava de sexo. Nos anos 1930, quando despontou por combinar “a delicadeza da cantora com o escracho da humorista”, começou a ganhar mais espaço — até que ganhou até uma bebê, já em 1934. Nunca quis ser mãe, e chegou a abortar meia dúzia de vezes, mas assumiu o papel com seu jeito peculiar e seguiu adiante. Mas o meio, deveras machista, não era tão afeito a artistas-mamães, e ela experimentou um período de ostracismo. Até que, aos trancos, começou a decolar. Nos anos 1950, tornou-se uma máquina de fazer dinheiro. O resto é uma longa história, esmiuçada em “Dercy — A diva debochada”, biografia assinada pela jornalista Adriana Negreiros, autora de “Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço” (Objetiva, 2018). Nesta entrevista via e-mail, Adriana dá mais detalhes sobre essa personagem polêmica ainda hoje, 18 anos após sua morte. Você consegue definir Dercy em três palavras? Genial, irreverente (palavra que detestava) e delicada. Delicada? Como assim? Dercy era delicadíssima porque tinha algo muito raro, que é a capacidade de prestar atenção no outro. Prova disso é a maneira como não gostava da “deixa”, aquele recurso típico do teatro para marcar o momento em que o outro ator entra em cena. Ela dizia que teatro era vida. E que, no teatro, como na vida, é preciso prestar atenção no outro e que, quando se presta atenção no outro, sabe-se o momento certo de “entrar em cena”. Isso eu acho delicadíssimo. Como essa biografia pode surpreender o leitor? Dercy Gonçalves foi uma das grandes damas do teatro brasileiro, uma atriz cômica que atuou do circo mambembe à televisão em alta definição, passando pelo teatro de revista e cinema de chanchadas. Foi uma atriz considerada genial pelos melhores críticos de teatro de sua geração, como Décio de Almeida Prado, Sérgio Viotti e Sábato Magaldi. Isso poderá surpreender o leitor que tem de Dercy a imagem reducionista de uma velhinha desbocada, que dizia palavrões nos programas vespertinos de televisão. Esse mesmo leitor poderá se surpreender ao descobrir que, na intimidade, Dercy era uma mulher com comportamento moralista e conservador. Não admitia o uso de palavrões em casa, não gostava de sexo, achava que mulheres não deveriam tomar a iniciativa na cama. Dercy era nome artístico — ela nasceu Dolores,e adotou a alcunha quando começou a excursionar como artista mambembe pelas pequenas cidades do Sudeste. Ela gostava de dizer que Dercy era da rua, que não levava desaforos para casa, e Dolores era quieta, doméstica. As duas figuras conviviam na mesma mulher. Dercy se inspirou em alguém para se tornar quem foi? Quem foram seus ídolos? Quando sonhava em ser artista, ainda criança, Dercy se inspirava nas artistas do cinema mudo que via na única sala de projeções de Santa Maria Madalena, como a americana Theda Bara e a polonesa Pola Negri. Dercy tentava imitar a maquiagem e o corte de cabelo dessas estrelas, e por se comportar assim chegou a levar surras do pai. No Brasil, tinha admiração por Margarida Max e Otília Amorim, estrelas do teatro de revista, e também tinha adoração por um de seus contemporâneos, Oscarito, a quem se referia como “divino”— como Dercy, ele era um artista do improviso. A despeito disso, eu não diria que Dercy se inspirou em alguém em especial para se tornar quem foi. Ela é produto do seu tempo, das circunstâncias nas quais conduziu sua existência, uma artista que fez do improviso na vida — para driblar a pobreza, a violência e o preconceito — uma marca do seu trabalho nos palcos. Os críticos que queriam atribuir alguma nobreza ao trabalho de Dercy (como se ela precisasse disso) costumavam dizer que ela descendia da commedia dell’arte, teatro popular surgido na Itália, no século XVI, que se contrapunha à comédia erudita. Dercy debochava dessa explicação, e dizia que sua escola havia sido a fome, o abandono, os maus-tratos. “Sou da escola da liberdade”, dizia. Como era a Dercy longe dos palcos, longe do público? Em família, Dercy era uma mulher conservadora e moralista. Fez questão que sua única filha, Decimar, se casasse virgem — ao que consta, a recomendação foi seguida. Não admitia que filha e netos dissessem palavrões, e zelava para que não procurassem seguir seu caminho profissional. Fez gosto de que a filha se tornasse bailarina clássica, projeto que não foi adiante (segundo Dercy, por falta de talento da filha). Também contratou professoras estrangeiras (uma espanhola e uma francesa) para ensinar boas maneiras à menina. Dercy sempre pareceu muito bem resolvida com a vida. Ela guardava mágoas? Tinha tristeza e mágoas, como é próprio do ser humano, mas não se deixava guiar por esses sentimentos. Dercy experimentou todo o cardápio existente de violências de gênero. Foi estuprada em sua primeira incursão na cama, e voltaria a sê-lo com mais de 70 anos. Nas ocasiões em que tratou desse tema, não foi ouvida — seus interlocutores tratavam os relatos como se fossem piadas. Também enfrentou violência patrimonial, sendo enganada por homens com quem se relacionou. Não foi uma mulher que tenha tido sorte no amor. Apreciava homens mais jovens, e era comum que, quando queriam ofendê-la, eles a chamassem de velha — mesmo adjetivo era adotado por seus críticos na imprensa. Dercy passou a vida sendo acusada de ser pornográfica, imoral, tendo seu trabalho diminuído por aqueles que não compreendiam sua genialidade. Tinha, portanto, um caminhão de tristezas e mágoas por meio do qual poderia trafegar pela estrada da vida, mas escolheu outro veículo — a alegria, o bom humor, a irreverência, a capacidade de perceber o ridículo no outro e nas situações. Dercy não deixou que as pancadas que recebeu na vida a paralisassem — ao contrário, transformada os golpes em inspiração para o trabalho. Como Dercy conseguiu sobreviver a dois fortes períodos de censura? Ela costumava se manifestar sobre questões políticas? Dercy enfrentou a ação da censura em diversas ocasiões ao longo da vida, quase sempre sob a acusação de atentar contra o decoro e os bons costumes. Em uma das ocasiões mais pitorescas, ela precisou mudar o nome do espetáculo, “Cara malfeita”, porque se fez uma associação com a aparência do presidente Eurico Gaspar Dutra — e a peça precisou mudar o nome para “Cara bem-feita”, uma evidente provocação. Dercy não era considerada uma artista subversiva, em termos políticos, mas sim imoral e indecente. Nunca enfrentou a desconfiança de que fosse “comunista”, por exemplo, e isso não faria sentido, porque Dercy sempre teve apreço e simpatia por políticos conservadores e mais à direita — chegou a apoiar candidatos alinhados aos militares. Uma única ocasião em que a censura a Dercy envolveu questões políticas foi em 1973, por ocasião da apresentação da peça “Os marginalizados”, com base em texto de Abílio Pereira de Almeida, em que ela explicava como funcionava um pau-de-arara, instrumento de tortura do regime militar. Como ela conseguiu furar os bloqueios e ser tão querida em uma sociedade conservadora? Dercy sempre teve a seu favor a imensa popularidade. Apesar de ser alvo de críticas por parte da imprensa especializada, lotava teatros Brasil afora. Tinha uma maneira única de atuar, espontânea, e fazia a plateia participar de seus espetáculos, que eram calcados no improviso. Dercy mudava os textos de suas peças a depender da reação da plateia. Era a rainha do improviso, e tinha uma capacidade de comunicação com o público que impressionava seus pares mais tarimbados. Parece que não há qualquer outra atriz que tenha exercido sua liberdade de expressão tanto quanto Dercy. Ela deixou seguidores? Dercy costumava dizer que não tinha discípulos. Não identificou nenhuma herdeira de seu estilo próprio. No entanto, era admiradora de Marco Nanini, com quem atuou nos palcos, e que costuma dizer que aprendeu com ela o tempo certo da comédia. A vida dela não foi exatamente moleza. Qual foi o segredo da sua longevidade? Dercy teve boa saúde, apesar de ter enfrentado um câncer (aos 84 anos), e não era mulher dada a excessos etílicos ou alimentares, embora não fosse uma mulher que cumprisse à risca a receita da longevidade — não era fã de exercícios físicos, por exemplo. Ao mesmo tempo, embora tenha passado 71 dos seus 101 anos sendo chamada de velha (a partir dos 30, já começou a enfrentar comentários etaristas), nunca aceitou se comportar de maneira como se espera que idosos o façam. Trabalhou até o fim de seus dias, teve uma vida pública ativa, e gostava de dizer que era isso o que a mantinha viva e em forma. Se ficasse em casa, trancada, morreria. Serviços ‘Dercy: A diva debochada’. Autora: Adriana Negreiros. Editora: Objetiva. Páginas: 304. Preço: R$ 79,90.