Registros feitos por cidadãos em plataformas digitais ajudam cientistas a mapear a biodiversidade brasileira e até identificar espécies ainda não descritas pela ciência 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O país alcançou a marca de 37,5 milhões de registros de espécies de 2022 a 2025 — Foto: Reprodução iNaturalist RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 12/06/2026 - 21:32 Brasileiros usam ciência cidadã para descobrir novas espécies no país Brasileiros estão ampliando o mapeamento da biodiversidade nacional por meio da ciência cidadã, tirando fotos de espécies e enviando-as a plataformas como iNaturalist e SiBBr. Este método permitiu a descoberta de espécies inéditas, como insetos do gênero Cladonota, fotografados por José Valério, e Leptodelphax maculigera, registrado por Kerolainy Rodrigues. A prática cresce rapidamente, com contribuições significativas para o conhecimento científico. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O biólogo José Valério, de 34 anos, caminhava pelo campus da Universidade de São Paulo (USP), em 2023, quando avistou uma espécie de inseto, um membracídeo do gênero Cladonota, conhecida popularmente como soldadinho. Ele decidiu fazer uma foto do bicho e publicar na plataforma internacional iNaturalist, que permite que qualquer pessoa envie imagens de espécies (plantas e animais) para análise e classificação por especialistas. Os cientistas, então, constataram que aquele tipo de soldadinho encontrado por ele ainda não havia sido identificado. No ano seguinte, a história se repetiu: Valério fotografou outro membracídeo do gênero Cladonota não descrito pela ciência. Impulsionada pela fotografia digital, a prática de registrar espécies para colaborar com pesquisadores e instituições científicas é conhecida como ciência cidadã e tem se popularizado no país com a ajuda de plataformas como essa — há ainda o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e a WikiAves, uma das maiores plataformas brasileiras de observação de aves. Na prática, a parceria tem ajudado a ampliar informações sobre a presença de plantas e animais em território brasileiro. No mês passado, o IBGE mostrou que os registros saltaram 65,49% entre 2022 e 2025, chegando a 37,5 milhões. Quase metade das ocorrências veio da ciência cidadã. No caso das aves, a colaboração chega a 90%. Espécies descobertas por José Valério: 1- Membracideo do gênero Cladonota e 2- Moscas parasitóides da família Tachinidae — Foto: José Valério No caso de Valério, que descobriu a plataforma iNaturalist em 2018, ele decidiu juntar a paixão por natureza, o hobby da fotografia e a oportunidade de tornar os registros em algo útil. Hoje, ele é vice-presidente da Rede Brasileira de Naturalistas, ONG com o intuito de promover a ciência cidadã no Brasil. — Sempre fui apaixonado por natureza e principalmente pela fauna. Ao longo dos anos, já registrei algumas espécies ainda não descritas pela ciência. No dia a dia, estou sempre atento e registrando algo diferente na rua, em casa, no jardim — diz o paulista, que lembra a dificuldade em coletar dados sobre a biodiversidade exclusivamente por meio da ciência, seja por falta de profissionais, recursos ou barreiras geográficas. Desertos de dados Segundo o IBGE, as áreas com maior nível de conhecimento de espécies continuam concentradas na Região Sudeste e ao longo do litoral brasileiro, enquanto faltam mais dados sobre a Região Norte. O biólogo Fernando Pacheco, do Comitê Brasileiro de Registro Ornitológico, conta que a ciência cidadã é recente no Brasil e está associada à popularização das câmeras digitais, que permitem uma quantidade enorme de registros em lugares que não seriam percorridos pelos pesquisadores. José Valério já enviou mais de 20 mil fotografias de espécies, entre elas, a Aranha-de-teia-dourada, um dos primeiros animais que registrou na plataforma — Foto: Arquivo pessoal José Valério | iNaturalist — Antes da colaboração da ciência cidadã, os registros ficavam limitados à atividade profissional, às expedições financiadas pelas universidades e pelos institutos. Quando uma quantidade enorme de pessoas está com os olhos abertos e com equipamentos, isso oferece uma oportunidade de vasculhar todo o território brasileiro de uma maneira nunca vista, aumentando os bancos de dados com muita informação — diz Pacheco. — A chance de se deparar com registros novos é muito real. Foi o caso da engenheira Kerolainy Rodrigues, que começou a fazer fotos de animais na pandemia com o objetivo de identificar alguns insetos que via em casa. Em certa ocasião, fez o primeiro registro no Brasil de Leptodelphax maculigera, um tipo de cigarrinha, também com suporte de cientistas: — Comecei a enviar as imagens para ajudar a identificar os insetos e acabei descobrindo o Leptodelphax maculigera por acaso. Milhões de imagens Somente a iNaturalist contou com 1 milhão de registros de espécie feitos por brasileiros em 2025. Já no SiBBr, principal plataforma nacional sobre biodiversidade, foram mais de 2,5 milhões de contribuições no ano passado. — Embora os registros precisem ser avaliados quanto à qualidade, identificação taxonômica, localização, data e evidências associadas, eles são fundamentais para ampliar a base de conhecimento, reduzir lacunas de informação e apoiar pesquisas — avalia a representante do SiBBr, Keila Juarez. Kerolainy Rodrigues enviou o primeiro do inseto Leptodelphax maculigera no Brasil — Foto: Reprodução Kerolainy Rodrigues/ iNaturalist Professor da educação infantil e fotógrafo, Célio Moura Neto já cadastrou mais de 40 mil imagens na iNaturalist e também encontrou espécies que ainda estavam em processo de catalogação, entre elas uma aranha-espinhosa e um sabiá-laranjeira: — Fiz os primeiros registros em vida de algumas destas espécies. E só foi possível saber disso graças aos vários profissionais identificadores na plataforma — diz. — É uma atividade muito satisfatória. O analista federal Diogo Luiz também contabiliza mais de 40 mil envios de fotos nas plataformas de ciência cidadã. Ele começou em 2019. — Já fotografei algumas espécies ameaçadas de extinção, como o sagui caveirinha. Em alguns registros, saí ocasionalmente a lazer ou a trabalho e vi ali uma oportunidade de surgir um registro — afirma. Stalachtis phlegia, Aranha-Espinhosa, espécie de Sabiá-Laranjeira e Superfamília Noctuoidea: espécies em processo de identificação registrados por Célio Moura Neto — Foto: Reprodução Célio Moura Neto / iNaturalista Voluntário do projeto de ciência cidadã da Plataforma de Biodiversidade e Saúde Silvestre da Fiocruz, o cientista social Pedro Zeno, em oito anos de estudo, fez diversos registros de ocorrência de espécies ameaçadas. Tucano registrado por Pedro Zeno no voluntariado — Foto: Reprodução Pedro Zeno No mesmo projeto, Maria Luísa Ferreira fotografou em 2025 uma nova espécie em Petrópolis (RJ): um tapicuru (Phimosus infuscatus). Ela se deparou com um bando dessas aves se alimentando em meio ao lixo acumulado às margens do Rio Piabanha. — Com os dados da ciência cidadã, os órgãos de saúde podem decidir fazer a coleta do animal, fortalecer as práticas de vigilância e saúde que cuidam dos outros bichos que ali circulam — conclui Zeno. Tapicuru ( Phimosus infuscatus) descoberto por Maria Luísa Ferreira — Foto: Reprodução Maria Luísa Ferreira Ciência cidadã: veja algumas espécies encontradas Mais da metade das ocorrências de espécies partiram de iniciativas de ciência cidadã 1 de 12 Savacu (Nycticorax nycticorax) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist 2 de 12 Cobra-Cipó-Verde (Chironius bicarinatus) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist X de 12 Publicidade 12 fotos 3 de 12 Saí-Azul (Dacnis cayana) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist 4 de 12 Aranha-de-Teia-Dourada (Trichonephila clavipes) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist X de 12 Publicidade 5 de 12 Borboleta-coruja (Heliconius ethilla ssp. narcaea) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist 6 de 12 Tico-Tico (Zonotrichia capensis) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist X de 12 Publicidade 7 de 12 Tiê-de-Topete (Trichothraupis melanops) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist 8 de 12 Borboleta-coruja (Gênero Actinote) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist X de 12 Publicidade 9 de 12 Aranha Orbitelares (Mangora strenua) — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist 10 de 12 Pseudotinea gagarini — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist X de 12 Publicidade 11 de 12 Trigonopselaphus coelestis — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist 12 de 12 Gênero Cladonota — Foto: Reprodução José Valério | iNaturalist X de 12 Publicidade Plataformas permitem que qualquer pessoa envie fotos de plantas e animais, e os especialistas identificam Como enviar registros de ocorrência de espécies? Por meio de iniciativas de ciência cidadã, qualquer pessoa pode enviar fotos de espécies. Plataformas como o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), iNaturalist e WikiAves permitem que usuários registrem animais e plantas observadas e compartilhem os dados com pesquisadores e instituições científicas. O SiBBr, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), é a principal plataforma nacional sobre biodiversidade e permite que cidadãos também compartilhem registros. Segundo dados da plataforma, nos anos de 2023 e 2024 foram recebidos mais de 4 milhões de registros. Em 2025, o total chegou a mais de 2,5 milhões. — A ciência cidadã tem papel cada vez mais importante para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira, essas contribuições ajudam a complementar os dados produzidos por coleções biológicas e pesquisas formais. Embora os registros de ciência cidadã precisam ser avaliados quanto à qualidade, identificação taxonômica, localização, data e evidências associadas, eles são fundamentais para ampliar a base de conhecimento, reduzir lacunas de informação e apoiar pesquisas, políticas públicas, ações de conservação e educação científica — pontua a representante do SiBBr, Keila Juarez. Site do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) — Foto: Reprodução SiBBr O iNaturalist é uma plataforma internacional de ciência cidadã. Usuários podem fotografar espécies, registrar a localização e compartilhar os dados. As observações passam por validação colaborativa de especialistas. De acordo com dados da própria plataforma, aproximadamente 1 milhão de registros de espécie foram realizados por brasileiros em 2025. — A ciência cidadã é extremamente importante. Quando as pessoas documentam a natureza ao seu redor por meio do iNaturalist, elas ajudam a criar um panorama global da biodiversidade que não seria possível de outra forma. A escala e a velocidade com que a ciência cidadã está acontecendo são cruciais para nos ajudar a enfrentar a crise da biodiversidade. Novas espécies são encontradas em todo o mundo por meio da plataforma quase todos os meses — destaca a representante americana do iNaturalist, Arya Natarajan. Site da plataforma internacional iNaturalist — Foto: Reprodução iNaturalist O WikiAves é uma das maiores plataformas brasileiras de observação de aves. Usuários registram fotos e sons de aves encontradas em diferentes regiões do país, contribuindo para bancos de dados científicos. Site da plataforma brasileira de observação de aves, WikiAves — Foto: WikiAves (*Estagiária sob supervisão de Cibelle Brito)
De uma foto feita por acaso à descoberta científica: brasileiros ajudam a encontrar espécies inéditas
Registros feitos por cidadãos em plataformas digitais ajudam cientistas a mapear a biodiversidade brasileira e até identificar espécies ainda não descritas pela ciência
Brasil registrou 37,5M registros via ciência cidadã (iNaturalist, SiBBr) 2022-2025, descobrindo espécies inéditas. Crowdsourcing biológico escala pesquisa além limites geográficos, habilitando knowledge base para decisões científicas e investimento biotech.








