“Eu vou ser muito sincero: estou muito esperançoso. E é engraçado, porque ninguém está. Você fala com as pessoas e elas dizem: ‘Ih, seleção... sei não…’. Mas assim é melhor. Quando ninguém dá nada, é quando chega. Acho que a gente consegue essa sexta estrelinha.” Testemunhar pela primeira vez o Brasil campeão da Copa do Mundo é uma expectativa que vai além de Bernardo Durães, de 19 anos: a geração nascida após o penta é a que mais acredita no hexacampeonato em 2026, segundo pesquisas de institutos como o Datafolha e a Quaest. Mas esse otimismo já foi maior entre os mais jovens. Em julho de 2022, segundo o Datafolha, 63% dos brasileiros que tinham de 16 a 24 anos de idade à época apostavam em título brasileiro no Mundial disputado no Catar, no fim daquele ano. Agora, de acordo com o mesmo instituto, apenas 35% dos entrevistados com essa mesma faixa etária estão confiantes no hexa, em pesquisa realizada em abril de 2026. — Eu diria que minha relação com a seleção foi ficando bem mais forte ultimamente, por incrível que pareça — garante a estudante Alice Fernandes, de 23 anos. — Nas seleções anteriores, eu sentia que não havia uma vontade de ganhar, de recuperar essa hegemonia que o Brasil tinha em relação à Copa do Mundo. Agora, estou sentindo que eles querem tanto quanto a gente. Os anos de seca da seleção brasileira vêm sendo acompanhados por uma redução gradual no otimismo da população como um todo. Mas essa queda é mais sentida entre os jovens, que costumam sustentar índices mais altos de confiança na seleção, de acordo com as pesquisas. Nascida em 2003, um ano após o título na Copa do Japão e Coreia do Sul, Alice vem adquirindo confiança após anos difíceis. — Cresci vendo a forma que todo mundo falava sobre a seleção ser forte, e quando eu comecei a entender o que era a Copa do Mundo, ficava muito animada. Mas, querendo ou não, a primeira que eu me lembro mais foi a de 2014, infelizmente. Lembro exatamente onde estava no 7 a 1 (contra a Alemanha). Então, nunca construí uma relação muito forte com a seleção, diferente da relação que eu tenho com o meu time — completa a torcedora do Flamengo. Alice Fernandes, de 23 anos, vive a expectativa de ver a seleção brasileira campeã da Copa pela primeira vez — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Às vésperas da Copa de 2014, mesmo com o país ainda mexido por manifestações — lideradas pelos jovens — questionando gastos com o Mundial, duas em cada três pessoas com 16 a 24 anos acreditavam no hexa, segundo o Datafolha. Depois do 7 a 1 contra a Alemanha, a crença na Amarelinha despencou. Quando a Copa de 2018 estava prestes a começar, o Datafolha detectou pela primeira vez que o percentual de brasileiros confiantes no hexa (48%) era inferior ao índice dos que disseram ter pouco ou nenhum interesse na Copa (57%). Entre os jovens de 16 a 24 anos da época, porém, a situação era melhor para a seleção brasileira: 42% estavam desinteressados pelo Mundial, mas 52% apostavam que Neymar e companhia conquistariam o troféu. No Catar, em 2022, o otimismo havia crescido timidamente na população como um todo, mas disparado entre os mais jovens, grupo no qual 63% apostavam em título do Brasil, segundo o Datafolha. Pela quarta vez desde que nasceram, no entanto, os torcedores de 16 a 24 anos viram a seleção ser eliminada nas quartas de final, para a Croácia. — Em 2014, lembro que foram saindo os gols, as minhas tias tiraram as crianças da sala e trancaram a gente no escritório. Foi um funeral, praticamente. Nunca mais vi esse jogo, só lembro que foi um trauma para o país todo — lembra Bernardo, nascido em 2007. — Em 2018, contra a Bélgica, tínhamos muita esperança, só que não aconteceu. E em 2022, o Neymar faz aquele gol de gênio (contra a Croácia), criou aquela esperança... em quatro minutos, eles acham o empate, o Brasil perde nos pênaltis. Foi uma decepção maior. Os novos talentos A presença de Neymar em sua quarta Copa foi motivo de muito debate antes e depois da convocação de Carlo Ancelotti. E a faixa etária que mais apoiou a presença do camisa 10 é justamente a dos jovens. Segundo o Datafolha, em abril deste ano, 65% deles defendiam a convocação, percentual que caía para 46% entre os mais velhos. — Acho que essa geração toda sempre colocou uma expectativa muito grande em um jogador. Quem nasceu de 2002 para cá cresceu vendo o Neymar — crava Bernardo. — Nesta Copa, eu o enxergo como uma liderança mesmo. Até os jogadores falam isso dele, querem no elenco porque tem a experiência, o nome, sabe carregar esse peso. Pesquisas mostra dados da confiança da geração pós-penta no hexa da seleção brasileira — Foto: Editoria de Arte Para além dele, porém, quem mais faz os olhos da juventude brilhar são os caçulas do elenco. Únicos convocados que nasceram após o penta, ambos em 2006, Endrick e Rayan carregam esperanças de crescer durante a campanha. — O Rayan é um garoto que tem um potencial gigantesco e acho que tem muitas chances de fazer a história acontecer. E para mim, o Endrick atualmente é o nome da seleção. Até mais do que o Vinícius Júnior. Acho que o Vini é um pilar da seleção, mas o Endrick é a personificação de vontade pra mim. Ele quer muito — afirma Alice. Endrick e Rayan com a amarelinha — Foto: Mauro Pimentel / AFP A sequência de frustrações não impactou o interesse dos mais jovens pela Copa, que segue mais alto do que na média da população, mas abalou a crença no Brasil. Segundo o Datafolha, enquanto 35% da geração pós-penta acredita em título, um percentual semelhante (34%) espera eliminações nas quartas ou na semi, o que vem acontecendo desde que eles nasceram. A Quaest, em levantamento divulgado na última quinta-feira, apontou uma tendência geracional semelhante. Juntando a geração pós-penta com aqueles um pouco mais velhos, mas que não viram o tetra, na Copa dos Estados Unidos, em 1994, 44% apostam em Brasil campeão, mas outros 38% esperam uma eliminação no mata-mata. Entre os que acompanharam o tetra, os percentuais se invertem, segundo a Quaest: 31% esperam o hexa, e 45% acham que a seleção cai após a fase de grupos. Entre os que viram o tricampeonato no México em 1970, há mais incerteza, mas o pessimismo em relação ao mata-mata ainda supera a confiança no título.
Geração 'pós-penta' é a mais empolgada com a Copa do Mundo, mas queda de otimismo no Brasil liga alerta
Seleção brasileira já iguala seu maior jejum em Copas, mas pesquisas apontam que os jovens, que não testemunharam título, ainda são os que mais acreditam no hexa; após traumas como o 7 a 1, faixa etária mostra confiança em novos talentos do elenco
Geração pós-penta mais otimista em hexa 2026, mas confiança de jovens 16-24 caiu de 63% (2022) para 35% (2026) após eliminações consecutivas em quartas. Delusões repetidas eroderam esperança; juventude brasileira redireciona otimismo a talentos emergentes como Endrick, reconfigurando narrativa pós-trauma coletivo.













