A Oxfam, entidade focada no combate à pobreza e à desigualdade, definiu como um "dia sombrio para a democracia" o momento em que a fortuna de Elon Musk - dono de empresas como SpaceX, Tesla e Twitter - chegou ao patamar de US$ 1 trilhão, o mais alto da História, após a abertura de capital de sua companhia de foguetes e inteligência artificial (IA) na bolsa de Nova York. A instituição diz que o agora trilionário viu sua fortuna crescer no último ano ao ritmo de US$ 1 milhão por minuto. Com o valor de riqueza acumulado, Musk se torna mais rico que os 46% mais pobres da população mundial, ou 3,8 bilhões de pessoas, quase metade do planeta. A concentração extrema de riqueza, segundo a Oxfam, é resultado de "décadas de políticas pró-bilionários", que permitiram aos super-ricos "moldar as regras econômicas em seu próprio benefício", disse Nabil Ahmed, diretor sênior de Justiça Econômica da Oxfam América. "As pessoas comuns acabam pagando o preço enquanto os bilionários continuam escrevendo as regras em benefício próprio”, escreveu Ahmed, em comunicado. A entidade traça alguns comparativos para dar dimensão da riqueza acumulada por Musk. Se ele gastasse US$ 1 milhão por dia, ainda levaria 2.740 anos para gastar o US$ 1 trilhão. Com esse valor acumulado, o empresário poderia dar US$ 100 para cada pessoa do planeta e ainda assim continuaria entre os dez bilionários mais ricos do mundo, com mais de US$ 184 bilhões restantes. Fim da extrema pobreza por um ano Na defesa pela taxação dos super-ricos, a entidade calcula que um imposto de 10% sobre o US$ 1 trilhão de Musk já seria suficiente para erradicar a extrema pobreza global pelo menos por um ano, faixa que engloba quem vive com renda insuficiente para necessidades básicas como alimentação, moradia e acesso a serviços essenciais. Isso significaria tirar mais de 800 milhões de pessoas dessa faixa mais vulnerável, condição que atinge quem vive com menos de US$ 2,15 por dia, segundo o critério do Banco Mundial. Um dos principais argumentos da Oxfam é que fortunas na casa dos bilhões costumam dar aos super-ricos um poder desproporcional para influenciar leis e decisões governamentais frente ao restante da população. A entidade calcula que os bilionários tem mais de 4 mil vezes mais chances de ocupar cargos políticos do que pessoas comuns. No caso de Musk, a Oxfam alega que grande parte de sua fortuna veio não só do apoio governamental recebido no passado - já que a Space X tem uma série de contratos com o governo americano -, como também do período em que ocupou cargo na administração do presidente Donald Trump e utilizou de sua posição para proteger e ampliar essa riqueza. A entidade diz que sua empresa de foguetes obtém um quinto de sua receita junto ao governo federal. Por outro lado, Musk provavelmente pagou pouco ou nenhum imposto federal sobre a renda em razão de um benefício tributário corporativo previsto na chamada "Tax Cuts and Jobs Act", sancionada por Trump em 2017. A Oxfam aponta ainda possíveis conflitos de interesse. Segundo a Public Citizen, mais de 70% das agências analisadas pelo DOGE (Departamento de Eficiência Governamental, na sigla em inglês - iniciativa liderada por Musk para revisar gastos e estruturas da administração federal - tinham conflitos de interesse com os seus negócios. Outras reportagens mostraram que sua passagem pela administração coincidiu com a concessão de contratos públicos lucrativos para empresas sob seu controle, como a SpaceX e a Starlink. Para Ahmed, o patamar alcançado pelo trilionário é um sinal de alerta que deveria despertar os governos para a necessidade de agir. "Nunca foi tão urgente conter a acumulação de riqueza extrema e reformar as políticas econômicas que criaram não apenas trilionários, mas também bilionários e a desigualdade obscena que vemos hoje”, concluiu Ahmed.