A menos de quatro meses da eleição, o governo federal lançou nesta sexta-feira (12) uma linha de crédito para financiar a compra de motos e bicicletas elétricas por entregadores celetistas e motociclistas de aplicativos. As contratações terão início a partir do dia 13 de julho. A iniciativa será bancada com recursos do Fundo de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS), mas o volume de recursos disponível não foi divulgado. O Valor apurou que não foi travado um valor e o governo vai acompanhar como se dará o andamento da linha de crédito. A operação terá garantia do Fundo de Garantia de Operações (FGO) e as montadoras deverão dar descontos nos preços dos veículos. Também foi anunciada uma linha de financiamento para pessoas jurídicas. O programa foi lançado em evento no Palácio do Planalto com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; dos presidentes da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira; e do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros; e de ministros. Também estiveram presentes entregadores da categoria. A nova medida é vista como uma tentativa de Lula de ampliar sua interlocução com uma categoria que historicamente demonstra maior afinidade com candidatos da oposição. "O programa vai atender perto de 1 milhão de profissionais, se contarmos todos celetistas e os em plataformas. Vamos alcançar 1 milhão de companheiros", disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Márcio Elias Rosa. A linha de crédito voltada à aquisição das motos terá taxa de juros de 12,5% ao ano (0,99% ao mês) para homens e de 11,5% ao ano (0,91% ao mês) para mulheres. O financiamento poderá ser pago em até 48 meses, com carência de dois meses. O programa contará ainda com garantia do FGO, com cobertura de 50% da carteira e 100% da operação. O mecanismo é importante para reduzir as taxas de juros cobradas dos beneficiários, uma vez que o perfil dos tomadores é considerado de maior risco e as instituições financeiras enfrentam maior exposição em caso de inadimplência. Há ainda limitações de usar as motos como instrumento de garantia. Segundo cálculos do governo, em uma operação de R$ 21 mil, a prestação mensal será de aproximadamente R$ 552, em 48 meses. A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil participarão do programa, além de outras instituições interessadas. O governo definiu critérios de elegibilidade para acesso ao programa. No caso dos profissionais vinculados a plataformas digitais, será necessário comprovar pelo menos seis meses de cadastro ativo na plataforma e a realização mínima de 100 corridas. Para os trabalhadores com carteira assinada, a exigência será de ao menos seis meses de exercício da atividade. Cada beneficiário poderá financiar apenas um veículo. As montadoras participantes, por sua vez, deverão oferecer contrapartidas na forma de descontos sobre o preço das motos adquiridas por meio do programa. Durante o evento, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirmou que a linha vai aumentar a produtividade e garantirá a renovação da frota, com foco na descarbonização. O governo também anunciou uma linha voltada a pessoas jurídicas destinada à expansão da infraestrutura de serviço de troca de bateria e sistemas de recarga de motos elétricas, com limite de R$ 70 milhões. O programa terá taxa de 12,5% ao ano, com carência de dois meses e prazo de pagamento do empréstimo em até 48 meses. Essa linha permite o financiamento de itens como baterias, postos de troca e sistemas de recarga de motos elétricas, além de capital de giro associado, limitado a 30% do valor dos investimentos. Cabe ao Ministério da Fazenda definir as condições finais do financiamento. Antes, o governo já havia destinado R$ 30 bilhões para uma linha de crédito voltada à compra de carros por motoristas de aplicativo e taxistas, cuja operação está prevista para começar em 19 de junho. O presidente tenta reduzir a rejeição dos trabalhadores dessas categorias em relação ao seu governo e à sua pré-candidatura. O programa voltado para motos já era uma demanda de Lula desde o ano passado. A proposta chegou a ser avaliada para lançamento simultâneo à linha de financiamento para carros, mas foi adiada diante da avaliação de que poderia aumentar a complexidade operacional da iniciativa e retardar sua implementação. Como mostrou o Valor, os bancos ainda estão avaliando o apetite para participar da iniciativa aos motociclistas. Na avaliação de fontes do setor privado, o programa é bastante desafiador. Isso porque trata-se de um público mais arriscado devido à maior incidência de roubos, furtos e acidentes envolvendo motos, além das dificuldades de recuperação do bem em casos de inadimplência. Diferentemente dos carros, as motocicletas têm menor valor de garantia e costumam apresentar maior risco de perda total. Por isso, interlocutores avaliam que a modalidade precisará, além de garantia, de mecanismos adicionais de proteção, como seguros e cláusulas beneficiárias em favor dos bancos para cobertura em caso de sinistro. A análise é que, sem essas salvaguardas, o interesse das instituições financeiras pela linha tende a ser limitado. Em meio à desaceleração da economia e diante do ano eleitoral, o governo tem lançado novas medidas de crédito direcionadas a setores específicos. O objetivo, de acordo com os técnicos, é identificar onde a atividade foi mais afetada e que estímulos podem induzir investimento, redução da ociosidade ou preservação da capacidade produtiva. Alguns economistas, no entanto, têm alertado que as medidas podem elevar a dívida pública e dificultar o controle da inflação pelo Banco Central (BC). Durante o evento, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro por fazer apenas motociatas e não entregar programas para a categoria. "Enquanto tinha gente que a única coisa que fazia pelos motoqueiros era ficar desfilando em motociata para fazer gracinha na internet, o governo do presidente Lula entrega realidade, vitória e conquistas", disse Boulos. — Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil