A tese é bastante sedutora. Aproximar o poder das pessoas e das comunidades locais parece facilitar a resolução de problemas concretos e a resposta às necessidades que variam consoante o território. Apesar de geograficamente pequeno, o país é suficientemente complexo do ponto de vista social, económico e demográfico para justificar que determinadas decisões sejam tomadas mais perto de quem sofre directamente os seus efeitos. O perigo surge quando confundimos proximidade com responsabilidade.A atribuição de competências ao poder local pode ser vista como uma faca de dois gumes. Por um lado, permite que a alocação de recursos seja mais eficiente, visto que os decisores detêm maior conhecimento sobre os problemas dos territórios que governam. No entanto, a multiplicação de centros de poder abre a porta à promiscuidade. Em círculos mais restritos, as amizades influenciam, as empresas conhecidas ganham vantagem, os favores antigos são cobrados e a clientela eleitoral torna-se mais difícil de fiscalizar.Em relação às autarquias e freguesias, a má gestão não se cinge ao peso excessivo atribuído, por exemplo, ao planeamento de eventos festivos ou actividades de lazer. A hierarquia de prioridades tem sido distorcida por actos políticos que rompem o compromisso assumido com a sociedade. Entre concursos duvidosos, avenças, consultorias, ajustes directos, apoios a associações próximas, obras com utilidade questionável ou publicidade institucional, o dinheiro público vai sendo dissipado com demasiada facilidade e escrutinado de forma complacente. Muitas vezes sem se perceber como foi gasto, para que serviu e quem realmente beneficiou.