Em uma apresentação para investidores privados, Elon Musk chegou a prever que uma de suas empresas quintuplicaria sua receita para mais de US$ 26 bilhões e multiplicaria por cinco sua base de clientes até 2028. Essa empresa era o Twitter, e essas projeções foram feitas enquanto Musk se preparava para comprar a rede social por US$ 44 bilhões, em 2022. Hoje, o Twitter, rebatizado de X, ficou muito aquém do que Musk disse que aconteceria. A receita publicitária da plataforma despencou 65% no ano passado. E, neste ano, ela acabou sendo incorporada à SpaceX, a empresa de foguetes de Musk. Agora, enquanto a SpaceX se prepara para uma oferta pública inicial de ações (IPO) histórica, nesta sexta-feira, Musk e os banqueiros de investimento contratados para a operação estão vendendo projeções ainda mais ambiciosas sobre o que a companhia de foguetes e inteligência artificial (IA) poderá alcançar. Mas essas promessas, somadas ao histórico de Musk de exagerar previsões, têm deixado alguns investidores cada vez mais temerosos de que a SpaceX — que precificou sua oferta com valor de mercado de US$ 1,77 trilhão, com a ação cotada a US$ 135 — possa acabar decepcionando o mercado. “Parece muito uma situação de ‘não prestem atenção no homem atrás da cortina’”, disse Jim Chanos, em uma referência ao Mágico de Oz. Chanos é fundador da gestora Chanos & Co. e conhecido por prever o colapso da empresa de energia Enron em 2001, um dos maiores escândalos contábeis da história. Chanos e outros investidores dizem estar preocupados com as finanças da SpaceX. A empresa perdeu US$ 4,3 bilhões apenas nos três primeiros meses do ano e vem gastando pesadamente no desenvolvimento de IA. A receita foi de US$ 4,7 bilhões e está crescendo, mas permanece muito abaixo da registrada por gigantes de tecnologia como a Meta, que faturou US$ 56,3 bilhões no mesmo período e cujo valor de mercado é de US$ 1,4 trilhão. Ao mesmo tempo, a SpaceX afirma que seu mercado potencial — ou seja, a oportunidade de receita caso capturasse toda a demanda dos setores em que atua — é o maior “da História da Humanidade”, estimado em US$ 28,5 trilhões. Esse cálculo depende de a empresa conseguir instalar data centers de IA no espaço e desenvolver fábricas na Lua. O número supera o Produto Interno Bruto (PIB) anual da China em mais de US$ 8 trilhões. Michael Burry, gestor de fundos hedge retratado no livro “The Big Short” por suas previsões sobre a crise financeira de 2008, escreveu em uma discussão no Substack no mês passado que qualquer alta das ações da SpaceX após o IPO ocorreria “por hype (modismo) e fatores técnicos”. “Nada naquele S-1 sugere que a empresa valha US$ 1 trilhão, muito menos US$ 2 trilhões”, escreveu Burry, referindo-se ao documento de registro da oferta pública. Até alguns acionistas da SpaceX têm dúvidas. Ross Gerber, CEO da gestora Gerber Kawasaki, que possui ações da companhia, afirmou que as projeções lembram as promessas pouco verificáveis usadas por startups para atrair investidores. Segundo ele, o valor de mercado de US$ 1,77 trilhão é alarmante, pois representa mais de quatro vezes os US$ 400 bilhões atribuídos à empresa apenas 13 meses atrás. “Os investidores estão pagando um preço extremamente alto por essa ação”, disse Gerber. Um porta-voz da SpaceX não respondeu a um pedido de comentário. Os bancos responsáveis pelo IPO, incluindo Goldman Sachs, líder do processo, também têm reforçado projeções grandiosas. Segundo o Financial Times, o Goldman informou a um potencial investidor que espera que a receita total da SpaceX alcance US$ 474 bilhões em 2030, ante US$ 18,7 bilhões no ano passado. Já o Morgan Stanley teria informado a investidores que a receita poderá chegar a US$ 3,4 trilhões em 2040, de acordo com o Wall Street Journal. Goldman Sachs e Morgan Stanley se recusaram a comentar. ‘Supervalorizado’ A consultoria de investimentos Morningstar divulgou uma avaliação mais cautelosa. Segundo a empresa, o preço do IPO da SpaceX está “supervalorizado” e esta valeria cerca de US$ 780 bilhões. O analista de ações Nicolas Owens atribuiu apenas 7% de chance de o foguete Starship alcançar um estágio em que possa ser reutilizado repetidamente e de os data centers espaciais de IA se mostrarem mais baratos e eficientes do que suas versões terrestres. No cenário mais otimista, disse ele, a SpaceX poderia valer US$ 1,97 trilhão. “Vamos descobrir em dois ou três anos se o Starship é realmente reutilizável ou se um rack de GPUs no espaço será viável e gerará economia de custos”, afirmou Owens. “Mas a empresa está pedindo que todos decidam isso já na sexta-feira e definam quanto vale.” Analistas e investidores também apontam que Musk costuma mudar os objetivos de seus negócios rapidamente. Foi apenas no ano passado que ele começou a falar sobre data centers no espaço, reforçando a ideia em fevereiro após fundir a SpaceX com sua empresa de IA, a xAI. Em abril, a SpaceX anunciou a aquisição da startup de IA Cursor por US$ 60 bilhões, levando a companhia para uma área que antes não era prioridade. Musk, que já investiu bilhões no desenvolvimento de modelos próprios de IA e do chatbot Grok, também parece ter mudado de direção em outros projetos ligados à tecnologia. ‘As pessoas estão pagando US$ 1 trilhão pelo Elon’ No mês passado, a SpaceX fechou um acordo com a startup de IA Anthropic para fornecer capacidade computacional para produtos que não usam os serviços de IA de Musk. Na semana passada, firmou acordo semelhante com o Google. Defensores da SpaceX em Wall Street e nas redes sociais celebraram os acordos como vitórias capazes de gerar dezenas de bilhões de dólares em receita. Já os críticos destacam que a empresa está alterando significativamente seus planos de negócios de longo prazo em cima da hora. “A verdadeira empolgação deveria estar no desenvolvimento de um novo e poderoso modelo de agente de IA”, disse Chanos. “Mas a xAI parece estar mudando repentinamente seu modelo de negócios, saindo do desenvolvimento de modelos como o Grok para se tornar basicamente uma neocloud”, afirmou, usando o termo do setor para empresas que fornecem capacidade computacional para outras companhias de IA. “Isso é crucial porque toda a avaliação da empresa depende do progresso da xAI”, acrescentou Chanos, classificando a estratégia de neocloud como um “negócio de commodities”, que costuma receber múltiplos bem menores nos mercados públicos. No fim das contas, afirmou Gerber, o IPO da SpaceX será um teste da confiança dos investidores em Musk. Quem estiver disposto a pagar esse preço estará apostando que Musk — que transformou a indústria automotiva com a montadora de veículos elétricos Tesla — continua à frente de uma empresa única. “As pessoas estão pagando US$ 1 trilhão pelo Elon”, disse Gerber.
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