Há uma distinção que o mercado financeiro raramente fala em voz alta, porque admiti-la seria inconveniente: o preço que alguém paga por um ativo e o valor que esse ativo tem são coisas diferentes. Quando a diferença é pequena, ninguém se importa. Quando a diferença é de US$ 1 trilhão, ela merece pelo menos uma frase. PUBLICIDADEA SpaceX precificou seu IPO a US$ 135 por ação na quinta-feira, 11, levantando US$ 75 bilhões e estreando na Nasdaq nesta sexta-feira, 12, sob o ticker SPCX com valor da empresa de US$ 1,77 trilhão, o maior IPO da história, superando a Aramco saudita com folga. A Morningstar, uma das casas de análise mais respeitadas do mundo, estima o valor justo da empresa em US$ 780 bilhões. O mercado pagou o dobro. Esse gap de US$ 1 trilhão não é erro. É escolha. E escolhas tão grandes merecem ser entendidas antes de serem seguidas. Então remonto à época em que comecei como investidora anjo há 15 anos. A pergunta central era: qual o valuation? E, eu envergonhada, mal sabia calcular um valuation (quanto custo o valor de uma empresa, por exemplo). Até porque o valor de mercado em empresa nascente de tecnologia é meramente especulativo. Quando ela começa a rampar, obviamente podemos usar fluxo de caixa descontado, múltiplos de Ebitda, etc.Ações da SpaceX estreou na Nasdaq valendo US$ 135 Foto: John RaouxPela Staged Ventures, gestora de venture capital na qual sou venture partner, tive posição secundária na SpaceX que gerou saída de 3,3x. Conheço os números por dentro, não apenas pelas manchetes. Uma pausa para uma felicidade ou angústia: já que precificou muito além, valeria a pena ter segurado mais? PublicidadeE o que me chama atenção nessa precificação não é o tamanho do IPO. É a estrutura do argumento que o mercado está fazendo ao pagar US$ 1,77 trilhão por uma empresa com prejuízo de US$ 4,94 bilhões no último ano. O argumento não é sobre o que a SpaceX é hoje. É sobre o que ela pode ser se a Starlink escalar globalmente, se o Starship viabilizar o transporte interplanetário e se a divisão de IA entregar o que promete. São três apostas simultâneas embutidas num único preço. Quando as três dão certo ao mesmo tempo, o retorno é extraordinário. Quando uma falha, o modelo inteiro precisa ser recalculado.O dado que separa os otimistas dos céticos não é o valuation. É a Starlink. Por volta do primeiro trimestre de 2026, a Starlink cruzou 10 milhões de assinantes e a receita da divisão praticamente dobrou em 12 meses, consolidando-se como o motor de lucro real da companhia dentro de um conglomerado que ainda queima caixa em outras frentes. Uma divisão de internet via satélite com 10 milhões de assinantes crescendo dessa forma tem dinâmica de plataforma, não de infraestrutura. Leia outras colunas de Camila FaraniVini Jr. tem 14 patrocinadores: o que separa as marcas que vão ser lembradas das que vão se perderAfastamento por burnout dispara 823% em quatro anos; esgotamento profissional virou dado de gestãoPlataforma escala com custo marginal decrescente. Infraestrutura, não. Quem está comprando SPCX está comprando a tese de que a Starlink é uma plataforma disfarçada de empresa de telecomunicações. Se estiver certo, US$ 1,77 trilhão vai parecer barato em 2030. Uma gestora de fundos de impacto com sede em Belo Horizonte, que opera carteira de R$ 280 milhões com exposição a infraestrutura digital, me ligou ontem perguntando se fazia sentido alocar nos BDRs da SpaceX que a B3 disponibiliza a partir de hoje. A pergunta dela era precisa: “É uma empresa ou é uma narrativa?” PublicidadeA resposta honesta é que é as duas coisas ao mesmo tempo, e o preço que você paga determina qual das duas você está comprando. A US$ 135, com valuation de US$ 1,77 trilhão, você está comprando mais narrativa do que empresa. Isso não significa que é errado. Significa que o horizonte de tempo e a tolerância à volatilidade precisam ser compatíveis com essa realidade.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO IPO foi estruturado com preço fixo de US$ 135, em vez do modelo tradicional de faixa com bookbuild, o que significa que toda a descoberta de preço acontece no mercado secundário. Com 30% das ações destinadas ao varejo, o triplo do usual em mega-IPOs, a abertura pode ter oscilações maiores do que o típico para uma oferta desta magnitude. Trinta por cento para o investidor comum é uma decisão política, além de comercial. Musk democratizou o acesso ao maior IPO da história da mesma forma que democratizou o acesso à internet via satélite: com uma generosidade que tem lógica clara por trás. Quanto mais pessoas físicas comprarem SPCX, mais difícil fica para qualquer regulador ou investidor institucional questionar as decisões de governança que mantêm Musk com 85% do poder de voto. Generosidade e controle raramente são incompatíveis. O que a precificação de hoje revela sobre o estado do mercado vai além da SpaceX. É o termômetro mais preciso do apetite global por risco tecnológico nos próximos 18 meses. Se a SPCX se sustentar acima de US$ 135 nas primeiras semanas, a OpenAI, a Anthropic e a fila de unicórnios privados que estavam esperando a janela vão entrar no mercado em série. Se travar ou cair, o ciclo de IPOs de tecnologia de 2026 vai ser mais curto do que o mercado projetava. Uma ação vai calibrar o humor de um ecossistema inteiro. Esse poder desproporcional de um único pregão é o que torna o desempenho inicial da SPCX mais relevante do que o próprio valuation.PublicidadePara o gestor brasileiro que está acompanhando esse movimento e tentando entender o que ele significa para alocação local, a conexão é direta e imediata. Capital que migra para SPCX é capital que não vai para outra coisa. O humor que o desempenho inicial da ação cria nos mercados globais chega ao Ibovespa, ao câmbio e ao custo de capital das empresas brasileiras antes do fim do mês. Não é questão de querer ou não ter exposição à SpaceX. É questão de entender que o maior IPO da história muda o ambiente de capital ao redor de todos, independentemente de qualquer decisão individual de investimento.O mercado pagou US$ 1,77 trilhão pela SpaceX. A Morningstar calcula US$ 780 bilhões. A diferença entre os dois números não é um erro de cálculo. É a quantificação de quanto o mundo está disposto a pagar pela possibilidade de Elon Musk estar certo sobre o futuro. Esse preço tem sido alto com frequência. Tem sido justificado com frequência. E tem sido errado com frequência suficiente para que nenhum investidor experiente o ignore sem ao menos entender o que está comprando. Agora te pergunto: Fiz eu certo ou errado em ter vendido minhas ações?
Opinião | O maior IPO da história: o que ele vale e o que ele revela são perguntas diferentes
A empresa de Elon Musk levanta US$ 75 bilhões com ações a US$ 135; Morningstar calculou o valor justo da empresa em US$ 780 bilhões












