Em mais um capítulo da sua autoeducação sentimental, a cantora de 23 anos equilibra luz e trevas em disco com raízes muito bem fincadas no que se pode chamar de tradição do pop 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A cantora americana Olivia Rodrigo — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O terceiro álbum da cantora divide-se em duas partes temáticas distintas. As treze faixas contrastam a paixão juvenil com a melancolia do amadurecimento. A obra destaca a forte influência do pós-punk dos anos 1980. O lendário Robert Smith, líder do The Cure, faz uma participação especial no disco. Com produção de Dan Nigro, o trabalho transita entre o synthpop e baladas folk. A crítica aclamou o lançamento, classificando-o como ótimo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O amor — ou melhor, como sobreviver ao amor sendo uma jovem mulher — é um jogo muito complicado, que a americana Olivia Rodrigo no entanto ainda não desistiu de jogar. E voltou para contar em “You seem pretty sad for a girl so in love” (“Você parece bem triste para uma garota tão apaixonada”, em tradução livre), seu aguardado terceiro álbum, que chega ao streaming nos primeiros minutos desta sexta-feira. Aos 23 anos de idade e algum tempo nas alturas mais elevadas do pop mundial, a cantora e compositora entrega amadurecimento e inquietude em um disco que revolve o solo da cena musical, embora com raízes muito bem fincadas no que se pode chamar de tradição do pop. Olivia Rodrigo é fiel à sua própria estética: assim como em “Sour” (2021) e “Guts” (2023), o novo álbum traz na capa apenas uma foto da cantora, mais uma vez muito expressiva. E uma foto que estabelece, de cara, um contraste com o título — porque é nos contrastes que esse disco opera. Como nos tempos em que os LPs de vinil reinavam, ele tem dois lados: as canções de 1 a 7 são a parte “garota tão apaixonada” e as de 8 a 13, “você parece bem triste”. Capa do álbum ‘You seem pretty sad for a girl so in love’, da cantora americana Olivia Rodrigo — Foto: Reprodução Olivia Rodrigo aprendeu bem as lições das que vieram antes dela, de Taylor Swift (em como se usar a confessionalidade), Lorde (na força que os refrões podem ter) e Billie Eilish (na dinâmica de voz) a Avril Lavigne, Alanis Morissette e Courtney Love. Mas o que se evidencia em “You seem pretty sad for a girl so in love” é a influência de um tio-avô ilustre: Robert Smith, do grupo inglês Cure, lenda surgida no rock dos anos 1980. Não por acaso, o disco tem uma música chamada “The cure”, uma menção ao clássico “Just like Heaven” em “Drop dead” e a participação de Smith, ele mesmo, em “What’s wrong with me”. Do Cure, a cantora pegou (com a anuência de seu braço direito, o produtor Dan Nigro) não só a sonoridade pós-punk de sabor agridoce (que permeia o disco, com suas guitarras e sintetizadores), mas a ideia de que luz e trevas podem conviver e trazer beleza para vida. A parte iluminada do disco começa em “Drop dead” (uma lapidar canção pop), avança por “Stupid song” (“eu te quero mais do que qualquer música idiota jamais poderia dizer”), pela camerística e carregada de emoção “Honeybee”, e pelas divertidas “Maggots for brains”, “u + me = ˂3” e “My way” (“Talvez eu seja uma pessoa mesquinha? Você me fez recorrer a isso!”). Ainda há alguma ternura em “Purple”, mas logo em seguida o lado “você parece bem triste” mostra a sua cara com “The cure”, que, embalada por um violão climático, apresenta o amor como um veneno, uma doença da qual não se possa sarar. A bela balada folk “Begged” e “What’s wrong with me” expõem as dores do crescimento afetivo de Olivia Rodrigo, que chegarão ao ápice na pianística e jazzy “Less” — linda de tão sofrida. No synthpop “Expectations”, com sua levada meio “Girls & Boys” do Blur, Olivia traz um pouco de humor ao tratar do tema da autoestima. E já absolutamente desencantada, ela encerra o disco quase como uma Lana Del Rey com “Cigarette smoke”, na qual um violão e teclados climáticos a conduzem pelos versos “devolva-me meu tempo e eu lhe devolverei seu coração / eu pensei que formávamos o casal perfeito / até você não querer mais o papel”. Se “You seem pretty sad for a girl so in love” tem uma virtude é a de transformar em uma experiência apreciável as agruras de uma adolescente na sua travessia para transformar-se em mulher. Não são muitos os discos que conseguem isso. Cotação: Ótimo