Manuel Adorni, chefe de gabinete e porta-voz do presidente argentino Javier Milei, admitiu ter mantido uma poupança de US$ 500 mil fora das declarações às autoridades tributárias do país, em meio a uma investigação sobre seus gastos, informou o Financial Times. É terceiro grande escândalo a atingir o governo Milei. O próprio presidente foi acusado de promover um esquema envolvendo criptomoedas, enquanto sua irmã e principal assessora, Karina Milei, chefe da Secretaria-Geral da Presidência, enfrenta investigações por um suposto esquema de suborno de farmacêuticas em troca de contratos com o governo. Adorni, que já estava sob investigação desde março por causa de gastos com imóveis e viagens de luxo, afirmou à emissora local LN+ na noite de quarta-feira que ele e sua mulher acumularam os recursos de forma legítima no setor privado, inclusive por meio de investimentos em criptomoedas. “Economizamos a vida toda e fizemos isso por fora do sistema formal, como a maioria dos argentinos que tem a sorte de conseguir poupar”, disse. No entanto, Adorni reconheceu que manter os recursos não declarados após ingressar no governo, em 2023, foi “um erro”. O caso envolvendo o chefe de gabinete domina as manchetes na Argentina desde março. Milei tem mantido apoio a Adorni, embora o escândalo tenha prejudicado a capacidade do governo de controlar a narrativa política e negociar com aliados. A explicação de Adorni é uma tentativa de deixar o escândalo para trás na véspera do tão aguardado retorno da Argentina à Copa do Mundo, afirmou ao FT Ignacio Labaqui, analista sênior da Medley Global Advisors. “O momento não é coincidência”, disse Labaqui. “Mas o dano já está feito. Eles passaram quatro meses perdendo o controle da agenda, quando Milei deveria simplesmente tê-lo dispensado.” Embora a evasão fiscal seja amplamente disseminada na Argentina, onde políticas econômicas erráticas levaram a população a esconder cerca de US$ 270 bilhões em poupanças não declaradas, analistas afirmam que a explicação de Adorni dificilmente encerrará os questionamentos sobre seus gastos recentes. O inquérito federal que apura suspeitas de enriquecimento ilícito segue em andamento. Diversas pesquisas mostraram que a taxa de aprovação de Milei caiu de cerca de 45% para aproximadamente 35% nos quatro primeiros meses de 2026, embora tenha apresentado leve recuperação em maio. Ainda assim, analistas avaliam que os escândalos terão menos peso sobre suas chances de reeleição em 2027 do que o desempenho da economia. A inflação crônica desacelerou drasticamente sob o governo Milei, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta crescimento de 3,5% para a economia argentina neste ano. As políticas de austeridade e desregulamentação do presidente conquistaram a confiança dos investidores. Apesar disso, a atividade em diversos setores relevantes da economia segue deprimida, enquanto os salários reais permanecem estagnados.