A Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) instaurou um processo de esclarecimento para apurar os factos relacionados com denúncias que envolvem o director do serviço de Gestão de Recursos Humanos da Unidade Local de Saúde (ULS) de Lisboa Ocidental. O dirigente André Coelho Dias, que já exerceu funções em gabinetes ministeriais nos governos de António Costa, é acusado de ter prendido uma trabalhadora a uma cadeira com fita-cola para a obrigar a terminar um trabalho que lhe havia pedido.O caso, noticiado pelo PÚBLICO, ocorreu no mês passado e foi denunciado à IGAS, no dia 30, pela Ordem dos Enfermeiros. Segundo nota da IGAS, enviada nesta quinta-feira ao PÚBLICO, o processo de esclarecimento foi instaurado por despacho do inspector-geral, Carlos Carapeto, em 5 de Junho, com "o objectivo de apurar os factos relacionados com denúncias de alegadas situações de assédio envolvendo um dirigente na Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental".O ambiente no Hospital São Francisco Xavier, que integra a ULS Lisboa Ocidental, é de “descontentamento geral” com a actuação do director do serviço de recursos humanos daquela unidade. No final do mês, o director clínico para a área hospitalar daquela ULS, João Gamelas, demitiu-se do cargo por razões pessoais, mas reconhecendo em declarações à Lusa que “o problema que se vive na confiança e na relação com os profissionais” pesou na decisão.O episódio com a administrativa que foi agarrada à cadeira foi confirmado junto de várias fontes e é falado abertamente nos corredores do Hospital de São Francisco Xavier. De acordo com a denúncia da Ordem dos Enfermeiros apresentada à IGAS, a que o PÚBLICO teve acesso, o episódio foi presenciado por colegas que tiveram receio de intervir por medo de represálias ou despedimento e “incluiu a utilização de fita-cola e expressões dirigidas à trabalhadora em tom intimidatório, designadamente a afirmação: 'Não se levanta até terminar o que lhe mandei'.”Uma fonte próxima contou ao PÚBLICO que a administrativa foi enrolada na cadeira com fita-cola porque tinha estado a enviar uns emails e ainda não tinha concluído o trabalho que lhe fora pedido. Sentiu-se apanhada de surpresa e humilhada. Inicialmente pensou que poderia ser brincadeira, mas não fazia o género do chefe que, noutra ocasião, já tinha ordenado que as mesas das secretárias fossem todas viradas para a parede.A trabalhadora teve um quadro de ansiedade e taquicardia e foi observada por um médico de medicina interna, descreve a Ordem dos Enfermeiros na denúncia. Mais tarde, participou o caso à administração da ULS, à IGAS e à Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego.À data da publicação da notícia, o PUBLICO questionou a ULS, que não quis comentar o caso, alegando apenas que tem tomado as decisões que lhe competem e que são adequadas à situação.É o segundo processo em poucos meses a visar André Coelho Dias. Em Março deste ano, a IGAS abriu um processo de inspecção ao serviço de recursos humanos da ULS Lisboa Ocidental, na sequência de uma denúncia anónima sobre alegadas irregularidades relacionadas com contratações de profissionais, visando a direcção do serviço, nomeadamente André Coelho Dias.O episódio que ocorreu no gabinete de Recursos Humanos foi o corolário de uma série de acontecimentos que têm vindo a indignar os trabalhadores daquela ULS. Recentemente, um grupo de directores, gestores e responsáveis de serviços assistenciais da unidade, preocupados com o mau ambiente dentro da instituição, subscreveu uma carta em que denunciam um clima de “desrespeito e desconsideração pelos profissionais”, numa gestão de recursos humanos “centrada no controlo burocrático e administrativo” e na degradação do ambiente de trabalho, com impacto directo na motivação e retenção de profissionais.A ULS justificou os problemas com o processo de actualização do programa de registo da assiduidade – “algo que não acontecia há diversos anos e, por isso, trouxe constrangimentos acrescidos”. E acrescentou que a forma de contacto dos colaboradores com o serviço também sofreu alterações, “o que trouxe uma nova realidade para todos”.