Escrevo esta coluna ainda sob o efeito da minissérie documental “Rafa”, que revisita a trajetória do tenista espanhol Rafael Nadal. Enquanto acompanhava, angustiada, os sacrifícios pelos quais ele passou para se tornar um atleta de elite, flashes se passaram na minha cabeça com histórias que cruzei ao longo da vida. Nadal batia recordes atrás de recordes, mas seguia sendo cobrado pela autossuperação. Seu tio, responsável por sua formação como tenista, estava sempre de prontidão para lembrá-lo de que ele poderia ter entregado mais. O adversário mais difícil não estava do outro lado da quadra, mas dentro da narrativa que ele foi ensinado a construir sobre si mesmo. O tenista tornou-se um dos maiores da história ao custo não apenas de situações extremas de dor e esgotamento físico, mas também por períodos de destruição psicológica. E ele não chegou a esse ponto sozinho. Foi condicionado, desde os quatro anos de idade, a ter o objetivo de ultrapassar todos os seus limites. Em um depoimento, seu tio admite: “Nunca disse ao Rafael que seria fácil. Mas ele se acostumou a sofrer”. O que levaria alguém, por vontade própria e não por necessidade da vida, a se acostumar a sofrer? Qual é o limite de esgotamento que cada um é capaz de se submeter para alcançar seus objetivos? O quanto “esticar a corda” para pegar mais uma bola pode matar aquilo que se tem de mais valioso? Fui esportista quando jovem. Obviamente, não cheguei aos pés de um profissional desse nível, mas me lembro com clareza do esforço intenso de treinos e da incansável cobrança por nunca ter ido bem o suficiente. Em um depoimento, seu tio admite: “Nunca disse ao Rafael que seria fácil. Mas ele se acostumou a sofrer” — Foto: Pexels Vivemos em uma cultura que valoriza autoexploração, celebra quem nunca para e transformou o excesso de trabalho em motivo de admiração. Assim como atletas, há empreendedores, executivos, médicos, advogados e outros profissionais que constroem carreiras baseadas na lógica da superação contínua. Trabalham mais horas do que deveriam, sacrificam descanso, convivência familiar e saúde em nome de reconhecimento, dinheiro ou poder. Ignoram sinais de esgotamento e estão sempre acompanhados da sensação de insuficiência. Ao assistir ao documentário, foi impossível não pensar em alguns desses profissionais que conheci. Pessoas que alcançaram posições de enorme prestígio e influência, mas que no caminho acabaram sacrificando aquilo que lhes era mais valioso - por sinal, os mesmos recursos que tinham sido fundamentais para levá-las até lá. Acredito que existam caminhos para a excelência e a alta performance que não exigem esse nível de custo pessoal. Há muitos exemplos de pessoas extremamente exigentes consigo mesmas que souberam construir ao seu redor contrapesos importantes: relações significativas, momentos de reflexão, interesses fora do trabalho e espaços de autoconhecimento. Com a experiência, entendi que respeitar os próprios limites pode nos levar a vitórias ainda maiores na vida, justamente por preservar aquilo que temos de mais valioso: nossa energia física, emocional e mental. Não podemos perder a capacidade de respeitar nossos sentimentos, compreender nossas reais motivações e distinguir os sonhos que são genuinamente nossos daqueles que absorvemos das expectativas dos outros. Espero que essa nova geração tenha mais clareza de que a verdadeira superação talvez esteja em compreender que não somos máquinas de produzir resultados. Vicky Bloch é fundadora da Vicky Bloch Associados, professora do IBGC, da FIA e membro de conselhos de administração e consultivos
Nós não somos máquinas de produzir resultados
A colunista Vicky Bloch escreve sobre o que leva as pessoas a ultrapassarem seus limites em busca de desempenho
Nadal foi condicionado a sofrer pela excelência, reflexo de cultura que celebra autoexploração entre executivos e founders. Para tech leaders, burnout não sustenta performance; preservar energia humana é o verdadeiro driver de resultados duráveis.












