Daniel Vorcaro após dar entrada no sistema prisional — Foto: Reprodução O iminente fracasso nas negociações em torno da segunda proposta de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal (PF) tem feito os investigadores acreditarem que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro espera ser “resgatado” e conseguir a prisão domiciliar no Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque estão no Tribunal recursos que podem funcionar como boia de salvação, caso a ala próxima ao dono do Banco Master no STF decida ajudá-lo e derrubar as decisões tomadas pelo relator do caso, André Mendonça. As saídas às quais ele pretende recorrer se dariam em duas frentes. A primeira envolve a concessão do regime domiciliar para seu pai, Henrique Vorcaro, e o primo, Felipe. Os dois foram presos na sexta fase da Operação Compliance Zero por determinação de Mendonça, mas a decisão ainda não foi referendada pela Segunda Turma. O presidente do colegiado, o decano Gilmar Mendes, pediu vista nos dois processos. No caso do pai e do primo do banqueiro, Mendonça e Luiz Fux já votaram pela manutenção da prisão no plenário virtual do STF. Com os dois ministros alinhados e Dias Toffoli se declarando impedido no caso Master, o fiel da balança seria o ministro Kassio Nunes Marques, já que pela jurisprudência da Corte o empate favorece sempre o réu. O cálculo de Vorcaro e de sua defesa é que os pedidos de vista podem levar a uma derrota do relator. Conforme publicou o colunista Lauro Jardim, há a expectativa de que o pai do banqueiro vá para o regime domiciliar ainda nesta semana, caso a votação seja retomada. Caso os dois consigam a soltura, o próximo passo seria colocarem julgamento um agravo regimental do próprio Daniel. Em março, a posição de Nunes Marques foi decisiva na manutenção da prisão preventiva de Vorcaro. Autoridades dos Três Poderes receosos com o avanço das investigações calculavam que a permanência do ex-dono do Master na cadeia fortaleceria a possibilidade dele negociar uma delação premiada, cenário que acabou se confirmando pouco após o voto determinante de Nunes Marques. Dessa vez, caso Gilmar defenda a prisão domiciliar e seja acompanhado pelo ministro, Mendonça não terá a maioria da Turma e sairá vencido do julgamento. Já para Vorcaro, uma inflexão de Kassio Nunes Marques nessa hipótese abriria caminho para cumprir a prisão preventiva em casa ou mesmo responder em liberdade. Isso porque ainda cabe recurso à decisão unânime do colegiado que o manteve na cadeia em março. Até agora, a movimentação estava parada justamente porque o banqueiro negociava uma delação premiada. A expectativa era que a domiciliar fosse concedida se o acordo fosse acatado pela PGR e pela PF e homologado por Mendonça, mas tudo indica que isso não ocorrerá. Assim, uma decisão favorável de Nunes Marques ao pai e ao primo sinalizaria a Vorcaro que ele seria o próximo da fila. Em março, Gilmar acompanhou o restante da Turma e manteve sua prisão, mas segurou o voto por uma semana e fez críticas à condução do caso por André Mendonça e à fundamentação da Polícia Federal. O cálculo também leva em conta as mudanças no cenário político desde a operação que prendeu o ex-CEO. O magistrado foi indicado ao Supremo em outubro de 2020 pelo então presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro, presidenciável do PL que, embora hoje não seja investigado pela PF, ainda não esclareceu a natureza do aporte de R$ 134 milhões por Daniel Vorcaro no filme “Dark Horse” negociado em conversas de WhatsApp com o banqueiro. Além disso, a nomeação de Nunes Marques foi patrocinada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos alvos da delação de Vorcaro. Irritação com Mendonça Como mostramos no blog, a decisão de André Mendonça que tirou a tornozeleira eletrônica do irmão de Ciro, Raimundo Nogueira, alvo da quinta etapa da Compliance Zero e suspeito de mascarar pagamentos de mesadas pagas por Vorcaro ao parlamentar, enfureceu o banqueiro. Para o ex-CEO, o caso de Raimundo seria idêntico ao de Felipe Vorcaro, que está preso em Minas Gerais, sujeito, portanto, a uma medida cautelar mais dura. Mas a decisão de Mendonça destacou que, para o relator, não havia evidências que sugerissem risco de fuga ou tentativa de obstruir investigações. Já o primo do banqueiro fugiu da PF em janeiro, ao escapar de um condomínio em Trancoso pouco antes da chegada dos agentes, na segunda fase da operação, segundo a corporação. O próprio Vorcaro vinha tentando ganhar tempo durante a negociação de sua proposta de colaboração com a Justiça. Desde que sinalizou a intenção de delatar, ele foi transferido da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal no DF, na mesma suíte pela qual passou o ex-presidente Bolsonaro. Quando a primeira proposta de delação foi rejeitada pela PF, em 21 de maio, o executivo foi transferido para uma cela provisória da corporação no mesmo prédio. O temor do banqueiro é que, caso sua delação seja rejeitada novamente, ele seja transferido sumariamente para o presídio da Papuda. Desde a segunda prisão em março, Daniel Vorcaro já passou por cinco carceragens em São Paulo e na capital federal. Para escapar da Papuda, as boias de salvação do banqueiro passam necessariamente por Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques.