Há 20 anos, quando foi anunciada a convocação para a Copa do Mundo de 2006, a CBF divulgou, junto com os nomes, a numeração do elenco, indicando a escalação titular que estaria em campo dois meses depois, na Alemanha. Hoje, o cenário é bem diferente. Com dúvidas sobre as duas laterais, o centroavante, possível terceiro meia ou ponta direita, além do próprio esquema tático, a atual seleção é uma das que chega, na semana de estreia no Mundial, com mais lacunas em aberto na sua história. A indefinição contrasta com um padrão histórico da amarelinha, cujos 11 iniciais costumam estar na ponta da língua da torcida às vésperas da competição. Durante treino coletivo nesta quarta (10), Ancelotti misturou titulares e reservas dos últimos amisotos. Uma das equipes, por exemplo, tinha Matheus Cunha, outra, Igor Thiago. Na zaga, a mesma situação: Marquinhos em uma equipe, Gabriel Magalhães em outra. A lateral direita — maior dúvida na equipe após a lesão e corte de Wesley — também permanece sem um jogador titular. Danilo e Roger Ibañez disputam a vaga. A três dias da copa, equipe titular permanece indefinida Por enquanto, a escalação mais provável para o jogo contra o Egito, no sábado (13), tem Alisson, Danilo (Ibanez), Marquinhos, Gabriel Magalhães, Alexsandro (Douglas Santos); Casemiro, Bruno Guimarães, Lucas Paquetá (Luiz Henrique), Raphinha, Vini Jr e Matheus Cunha (Igor Thiago) Ciclo curto O italiano Carlo Ancelotti estreou como técnico há apenas um ano, o que explica a formação tardia de uma equipe titular. Mas, mesmo em situações do passado em que treinadores assumiram perto da Copa, a escalação não gerava tanto mistério na, literalmente, semana de estreia. Em 1970, Zagallo herdou uma base sólida de João Saldanha, e, convicto da necessidade de encorpar o meio campo, chegou ao México com a decisão de que Rivellino barraria Edu. A última definição, sob suspense até às vésperas do primeiro jogo, foi a entrada de Tostão. Pentacampeonato da Seleção na Copa do Mundo do Japão, 2002 — Foto: Ivo Gonzalez Em 2002, o técnico Felipão, que também assumira o time um ano antes, chamou a atenção por adiantar a escalação da estreia aos jornalistas durante o período de preparação da seleção. Durante a fase de grupos, houve a troca de Juninho Paulista por Kleberson, mas a formação com 3 zagueiros, e o restante dos titulares, já estavam definidos na cabeça do técnico. Histórico de mudanças durante a Copa Mudanças no time titular durante a competição, mesmo nas campanhas de títulos mundiais, estão longe de ser raridade na história da seleção brasileira. Mas as trocas, pontuais, costumavam acontecer dentro de formações bem estabelecidas, sem alterações de esquemas táticos ou espinhas dorsais. No bicampeonato conquistado entre 1958 e 1962, as hierarquias e funções dentro do elenco eram parte do que ficou conhecido como Plano Paulo Machado de Carvalho, que levava o nome do então chefe da delegação da seleção, responsável por implantar uma gestão mais profissional e rígida à equipe. Nesse plano, o Brasil tinha, em 1958, uma espinha dorsal com Gylmar, Bellini, Nilton Santos, Zito e Didi, e o 4-2-4 como formação tática bem definida. Depois dos primeiros jogos, houve mudanças impactantes, mas sem alteração tática: as entradas dos jovens Pelé e Garrincha, que pediam passagem. Quatro anos depois, o plano se repetiu, e a seleção chegava para a Copa novamente com um time bem definido no papel. Durante a campanha, mais uma mudança de impacto, dessa vez forçada pela lesão de Pelé, que deu lugar a Amarildo. A 'bagunça' de 1966 Em 1966, sem a presença de Paulo Machado de Carvalho, a seleção mudou sua estratégia de preparação, e colheu maus frutos. De forma extremamente criticada pela imprensa na época, a CBD (então CBF) organizou uma série de amistosos e treinamentos em que o elenco era dividido times "verde", "amarelo", "azul" e "branco", tamanha quantidade de convocados. O técnico Vicente Feola levou 47 jogadores para a Inglaterra, as escalações não se repetiram durante o torneio e o Brasil foi eliminado precocemente. Embarque da seleção brasileira de futebol para Copa do Mundo de 1962, no Chile, em avião da Panair — Foto: Arquivo / Agência O Globo Essa "bagunça" tática foi considerada o principal fator do fracasso na busca pelo tri, o que levou João Saldanha, que assumiu a seleção em 1969, a definir uma espinha dorsal logo de cara, como uma prioridade no seu trabalho. Com a formação bem definida, as individualidades se potencializariam, dizia. Da sua escalação padrão, houve alterações pontuais promovidas por Zagallo no México: o recuo de Piazza para a zaga, e as entradas de Clodoaldo, Rivellino e Everaldo. Desde então, raramente o Brasil chegou a uma Copa do Mundo sem que o torcedor soubesse escalar todos, ou quase todos, os 11 titulares. As esperas por jogadores que se recuperavam de lesão, como Zico em 1986 e Romário, em 1990, eram as situações que poderiam alterar as escalações. Uma exceção foi a Copa de 1978, quando o técnico Claudio Coutinho deixou diversas posições em aberto. Havia a definição do 4-3-3 como esquema tático, mas, querendo emular inovações que a Holanda apresentara quatro anos antes com seu "futebol total", o treinador testou diferentes formações. Em meio à indefinição, craques do futebol carioca, Zico e Roberto Dinamite, não tiveram titularidade garantida. Copa do Mundo na Espanha, em 1982. Brasil 3 x 1 Argentina, no Estádio Sarriá. Na foto, jogadores da seleção comemoram o primeiro gol do Brasil — Foto: Anibal Philot / Agência O Globo Em 1982, mesmo com uma tentativa de "campanha" da mídia para que Telê Santana usasse um verdadeiro ponta, o técnico não abriu mão de seu time titular, que privilegiava um meio campo técnico e talentoso. A maior mudança foi a entrada de Serginho Chulapa, após lesão de Reinaldo, antes do torneio. Escalação confirmada com antecedência nas Copas recentes Depois da virada do século, o time titular do Brasil para a estreia da Copa nunca foi motivo de muito mistério entre a torcida. Em 2006, o famoso "quadrado mágico", com Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo, já havia sido confirmado antecipadamente pelo técnico Parreira, assim como a presença de outros nomes consagrados, como Cafu e Roberto Carlos, mesmo que houvesse críticas pontuais à falta de espaço para jogadores mais jovens, como Cicinho e Robinho. Thiago Silva comemora gol na Copa do Mundo de 2014 — Foto: AFP PHOTO / EITAN ABRAMOVICH Em 2002 e 2014, Felipão confirmou os times titulares, sem rodeios, para a imprensa em coletivas. Em 2010, Dunga também chegou à Copa com 11 nomes bem definidos, com pouca margem para especulações. Já Tite teve que lidar com lesões meses antes das Copas de 2018 e 2022, mas, ainda assim, na semana de estreia, não havia grandes indefinições sobre os titulares. No último Mundial, a única dúvida era se Vinicius Jr seria titular ou reserva, o que Tite confirmou apenas um dia antes.