“Não estamos sozinhos”, diz a frase de divulgação no cartaz “Contatos imediatos do terceiro grau” (1977), clássico de Steven Spielberg estrelado por Richard Dreyfuss sobre um eletricista de vida pacata em Indiana que vê sua vida mudar após o encontro com um Óvni. Passadas quase cinco décadas, o interesse do cineasta no mundo extraterrestre permanece aquecido. Ele chega aos cinemas hoje com “Dia D”, ficção alienígena que traz outra frase promocional no pôster: “Nós merecemos saber”. As duas frases representam o sentimento de Spielberg sobre aliens como alguém que acredita na existência deles, mas que gostaria de uma confirmação. “Eu merecia um avistamento (de Óvni). Eu precisava de um. Eu sou um embaixador desses caras (alienígenas) e eles nunca se mostraram para mim, não entendo isso”, divertiu-se o cineasta americano em entrevista ao programa CBS News, completando: “Com base nas evidências circunstanciais de tudo que reuni ao longo da minha vida, de todas as pessoas que ouvi, de todos os documentários a que assisti e de todos os depoimentos que presenciei no Congresso, acredito piamente que eles estiveram aqui e estão aqui. E, quem sabe, talvez sempre tenham estado aqui.” “Dia D” acompanha um especialista em cibersegurança de uma ONG (Josh O’Connor) e uma garota do tempo do telejornal local de Kansas City (Emily Blunt) que se veem em meio a uma conspiração, na qual o governo americano busca impedir que a verdade sobre a existência de vida extraterrestre seja comunicada para a população mundial. A visita de alienígenas na Terra tem sido um tema recorrente na obra do cineasta ao longo das décadas. Entre “Contatos imediatos” e “Dia D”, foram inúmeras obras sobre o assunto, como “E.T.: o extraterrestre” (1982) e “Guerra dos mundos” (2005). Personagens extraterrestres também podem ser vistos em “A.I.: inteligência artificial” (2001) e “Indiana Jones e o reino da caveira de cristal” (2008). O leque aumenta ainda mais se levarmos em conta filmes e séries produzidas pelo realizador, como “O milagre veio do espaço” (1987), “MIB: homens de preto” (1997), “Taken” (2002), “Transformers” (2007) e “Super 8” (2011). — Spielberg foi um dos responsáveis por quebrar a ideia disseminada pela ficção científica dos anos 1950 de que extraterrestres tendem a ser hostis e dominadores, rompendo com uma tendência que tinha raízes simbólicas nas tensões da Guerra Fria. Se os ETs invasores eram muitas vezes metáforas do estrangeiro “perigoso” dentro de uma paranoia americana, Spielberg foi na contramão ao defender a necessidade de se comunicar e não temer os nossos vizinhos espaciais — diz Marcelo Müller, crítico de cinema que é coorganizador de livro sobre Spielberg com lançamento previsto para o segundo semestre. — Em muitos filmes dele, o encontro com seres de outros planetas serve para curar feridas familiares, enfatizar o encantamento da infância e reiterar a nossa capacidade de nos maravilhar diante de algo sublime. O próprio Spielberg já disse muitas vezes que olhar as estrelas não causa medo, mas esperança. 'E.T. — O extraterrestre', de Steven Spielberg — Foto: Divulgação O novo drama alienígena do cineasta chega aos cinemas poucos dias após o influenciador Mayk Leão viralizar nas redes sociais ao afirmar ter avistado um Óvni em seu sítio, em Campo Largo, no Paraná. O caso despertou a atenção de especialistas e chegou, inclusive, a ser apontado como possível estratégia comercial de “Dia D”. Depois da repercussão, o influenciador anunciou uma pausa por tempo indeterminado nas redes sociais para preservar sua saúde mental. Ele relatou ter sua propriedade cercada e inclusive a morte de um animal. Ufólogos questionaram o avistamento de Mayk, apontando para algumas explicações para o ocorrido. — O caso do Mayk Leão é muito ruim para a ufologia. Acaba sendo um desserviço para a pesquisa ufológica séria — defende o ufólogo Thiago Ticchetti, editor da Revista Fenômeno UFO. — No decorrer das investigações, com ele mantendo seu posicionamento do que tinha visto mesmo diante de muitas evidências, a grande maioria de nós, ufólogos, chegou à conclusão de que ele inventou tudo. ET de Varginha Mesmo diante dos questionamentos, o caso de Mayk Leão mostra como o tema de Óvnis e alienígenas desperta a atenção do público e remete a outro caso clássico da ufologia nacional, o do ET de Varginha. Em janeiro de 1996, três jovens, entre 14 e 22 anos, relataram ter visto uma criatura alienígena num terreno baldio. O que se seguiu foi uma série de rumores envolvendo avistamentos estranhos, movimentação militar e forte interesse por parte da imprensa e do público. Desde então, o caso inspirou livros e documentários, mas segue sem conclusão. — Quem viveu a década de 1990 lembra o choque que foi aquela história. O caso ganhou reportagem no Fantástico, você passava a noite pensando naquilo, marcou toda uma geração — lembra Paulo Gonçalves, codiretor de “O mistério de Varginha”, série documental do Globoplay lançada no início do ano. — A história é fascinante, imaginar que um ser extraterrestre foi parar em Varginha, no sul de Minas. Todo mundo se faz um dia a pergunta: será que estamos sozinhos no Universo? Por isso, acho que o tema sempre desperta muito interesse. Gonçalves, que passou três meses morando em Varginha durante a pesquisa e a produção da série, lembra que o assunto ainda é recorrente na cidade. Ele só lamenta não ter conseguido nenhuma evidência física sobre o caso. — Posso dizer que sou um frustrado porque não consegui nenhum vídeo, foto ou documento para manter viva a chama do mistério. O que temos são os depoimentos das pessoas — conta o diretor, um fã do cinema de Spielberg. — O primeiro filme que vi na minha vida foi “E.T.: o extraterrestre”, e vou ser um dos primeiros da fila para ver o novo. O Spielberg é um mestre em contar histórias e é um dos principais responsáveis por inserir e moldar os ETs no nosso imaginário popular. Se Gonçalves não teve a oportunidade de encontrar provas físicas sobre a existência de Óvnis e alienígenas, o ufólogo Thiago Ticchetti conta ter vivenciado um avistamento de objeto não identificado aos 7 anos de idade, no início dos anos 1980, na Pedra da Gávea, no Rio. — Nasci com a ufologia no sangue. Meu pai era piloto da Força Aérea Brasileia e gostava muito do assunto, então desde criança que tenho interesse no tema, e leio sobre. A partir da minha experiência, quis saber cada vez mais e comecei a pesquisar ativamente o fenômeno ufológico — diz Ticchetti, que vê em Spielberg um aliado no tema. — Os filmes dele são grandes exemplos de como atrair a atenção do público para o assunto. Sou fã do cinema dele, principalmente aqueles sobre ufologia. Mesmo sendo obras de ficção, o trabalho que ele faz na divulgação da ufologia é muito importante. Com orçamento de US$ 115 milhões, “Dia D” é visto como um dos principais lançamentos da “temporada de verão” em Hollywood. As projeções de faturamento de abertura estão entre 40 e 50 milhões de dólares, apenas nos Estados Unidos.
De 'Contatos imediatos do terceiro grau' a 'Dia D': como Steven Spielberg se tornou o embaixador de aliens nas telas
‘Spielberg foi um dos responsáveis por quebrar a ideia de que alienígenas tendem a ser hostis e dominadores’, destaca crítico de cinema











