A expansão global da inteligência artificial e a crescente demanda por data centers criaram uma nova oportunidade para o Brasil se posicionar como protagonista na economia digital, disse ao Valor Ernesto Pousada, presidente da Vibra Energia, no Web Summit Rio, nesta quarta-feira (10). Na avaliação do executivo, a combinação entre abundância de recursos renováveis e capacidade de geração elétrica coloca o país em uma posição privilegiada para atrair investimentos em infraestrutura tecnológica. "O Brasil não pode perder mais essa chance. Temos tanto recurso natural, temos tanta oportunidade. A inteligência artificial vai demandar muitos data centers, que por sua vez vão consumir muita energia, e o mundo quer energia renovável", disse. Embora a Vibra não tenha investimentos diretos em data centers, Pousada vê uma conexão natural entre o crescimento desse mercado e os negócios da companhia. Nos últimos anos, a empresa ampliou sua atuação em energia renovável por meio da Comerc, uma das maiores comercializadoras e geradoras de energia do país. Segundo ele, a expansão da infraestrutura digital deverá aumentar a demanda por eletricidade produzida a partir de fontes limpas. O executivo também destacou que a própria Vibra vem acelerando a adoção de inteligência artificial em suas operações. A companhia, presente em todos os Estados brasileiros e com uma rede superior a 7,5 mil postos de combustíveis, treinou 1.600 funcionários em uma academia corporativa voltada à tecnologia e passou a incorporar soluções de IA em diferentes áreas do negócio. Entre os resultados obtidos, Pousada citou a redução de R$ 900 milhões nos níveis de estoque após a implementação de ferramentas de inteligência artificial no planejamento da cadeia de suprimentos. A tecnologia também foi utilizada na gestão logística da empresa, permitindo otimizar operações de transporte e reduzir a necessidade de cerca de 100 caminhões. "É um caminho sem volta para qualquer empresa que busca eficiência, melhorar processos e continuar evoluindo", disse Pousada. Para o executivo, o principal desafio do setor energético brasileiro hoje não é a falta de capacidade de geração, mas a dificuldade de absorver toda a energia renovável produzida em determinados horários. Segundo ele, usinas solares e eólicas vêm sofrendo com cortes de geração, fenômeno conhecido como "curtailment", devido ao excesso de oferta em períodos de menor consumo. Nesse contexto, Pousada defende a adoção de políticas públicas voltadas ao armazenamento de energia. O executivo citou a realização de leilões de baterias como uma das medidas capazes de ajudar a equilibrar o sistema elétrico brasileiro: "Antes de pensar em novos investimentos, precisamos resolver esse problema. Temos excesso de energia solar e eólica durante o dia e precisamos criar mecanismos para armazenar essa energia e utilizá-la nos horários de pico", afirmou. Segundo ele, a combinação entre energia renovável abundante, sistemas de armazenamento e a chegada de novos investimentos em infraestrutura digital pode criar uma oportunidade única para o país. "Nós temos uma oportunidade tremenda de avançar e posicionar o Brasil como um grande polo de data centers abastecidos por energia renovável", disse. No evento, Pousada também afirmou que metas sociais e ambientais não afetam negativamente os resultados financeiros das empresas. O executivo participou de um painel ao lado de Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta, mediado pela diretora de redação do Valor, Maria Fernanda Delmas. A Vibra e o Instituto Liberta são parceiros do Movimento Violência Sexual Zero, iniciativa lançada no ano passado para combater a violência sexual contra crianças e adolescentes. De acordo com o presidente da Vibra, a campanha já impactou mais de 10 milhões de pessoas por meio de ações de conscientização, eventos e treinamentos voltados a frentistas que atuam em rodovias brasileiras. Para ele, iniciativas sociais podem gerar valor para a sociedade sem comprometer a performance dos negócios.