A oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX, prevista para ser precificada nesta quinta--feira (11), chegou ao investidor brasileiro de forma indireta. BTG Pactual e XP criaram fundos de investimentos para acolher a demanda do público qualificado, com mais de R$ 1 milhão em patrimônio financeiro. Do equivalente a US$ 75 bilhões em ações ofertadas pela companhia de Elon Musk, uma fatia de 25% foi destinada ao investidor individual, mas tal processo contempla quem tem conta em alguma das corretoras americanas ou europeias que participam do “pool” de distribuição. O BTG é a única instituição brasileira que integra o consórcio de bancos coordenadores da oferta, que prevê que a SpaceX estreie na bolsa focada em tecnologia Nasdaq na sexta-feira, com valor de mercado na casa do US$ 1,8 trilhão. Quem tinha a conta internacional no banco pôde acessar o IPO diretamente ou por meio de um fundo condominial. Lá fora, a aplicação mínima nesse veículo foi de US$ 5 mil. No Brasil, o BTG Pactual Reference Moon deu acesso a partir de R$ 500 numa carteira com hedge cambial. A XP criou localmente um fundo temático dentro da família Trend, o XP SS 1, para acatar aplicações a partir de R$ 5 mil, e que aparece em fase pré-operacional na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). E também estruturou um veículo no exterior contratando duas gestoras lá fora. A B3 vai disponibilizar já na sexta-feira o BDR (recibo de ação) da SpaceX, no mercado secundário. A estrutura do BDR terá paridade de 1:15 — cada papel da companhia no exterior corresponderá a 15 BDRs negociados na bolsa brasileira. Com isso, será possível acessar a empresa por um preço entre R$ 50 e R$ 70. Assessorias e consultorias de investimentos no Brasil, tanto do lado da XP quanto do BTG, identificaram boa demanda para os papéis do badalado IPO, embora a avaliação de especialistas seja a de que nem sempre este é o melhor momento para comprar uma ação. Como um valor de mercado alto previsto aciona uma busca automática de fundos passivos que seguem os índices de mercado, a perspectiva é de uma demanda global forte pelos papéis. “A chance de pegar um monte de gente desprevenida é grande”, diz um gestor de recursos que acompanha o setor de tecnologia. Para ele, as estimativas são agressivas e quem comprar a ação tem de acreditar que Musk vai entregar tudo o que prometeu. “Tem um interesse gigante para que o IPO dê certo na indústria de ‘venture capital’ inteira, mas na realidade tem uma máquina de marketing potente por trás, num tema que é complexo, é fácil vender que o homem vai para a lua, para Marte, é fácil encantar.” Pela sua avaliação, só pelo lado do fundamento, o preço das ações previsto parece alto, com crescimento de receitas projetados expressivos em cima de dados do passado e não auditados. Mas ele não descarta que o lado técnico do fluxo pese a favor dos ativos. No Nasdaq 100 as ações devem entrar em 15 dias, mas para isso outros papéis devem perder espaço. No S&P500, o mais importante do mercado americano, só podem entrar em 12 meses. A SpaceX pleiteava seis meses, mas a bolsa de Nova York não acatou a demanda. Para o gestor, o ingresso por meio de um fundo monoação tende a ser mais oneroso que uma compra direta, mas é uma forma de dar acesso a quem não tem conta em corretora lá fora. Os fundos entram como investidores institucionais, e não na fatia destinada ao varejo, que é menor. No caso do veículo local do BTG, a taxa informada no regulamento é de 0,5% ao ano. Na XP, os custos chegariam 2% de taxa de administração, mais 20% de performance, segundo um interlocutor a par das condições. Eduardo Carlier, coexecutivo-chefe de investimento (coCIO) da Azimut Brasil Wealth Management, se debruçou sobre os IPOs bilionários do setor de tecnologia que têm se enfileirado nos EUA. Entre SpaceX, OpenAI, com uma avaliação na casa dos US$ 850 bilhões, e Anthropic, em US$ 965 bilhões, um dos múltiplos preço/receita mais esticados é o da companhia de Musk, de 94 vezes, com OpenAI em 65 vezes e o da Anthropic, a dona da ferramenta de inteligência artificial Claude, em 107, mas com previsão de crescimento maior e sem dívida. Ele faz a ressalva de que esse é um múltiplo “horroroso” porque olha para o passado e não contempla custos, margem de lucro, nada, mas traz comparativos com o que se viu na história. A petroleira Saudi Aramco, que foi a mercado em 2019 captando US$ 25,6 bilhões, por exemplo, é negociada a 5 vezes e é “uma das companhias mais rentáveis do planeta”, cita. A Meta é negociada a 28 vezes. SpaceX ainda é uma promessa, com resultado negativo da ordem dos US$ 5 bilhões. “O motivo do ‘hype’ é que este é o maior ciclo de investimento da história”, diz Carlier, com projeções de que o setor absorva cerca US$ 1 trilhão neste ano. A Anthropic já tem lucro operacional e está numa atividade que pelo menos já foi testada. “No relativo, para esses três casos, mesmo que sejam um grau de risco alto, o mais convidativo parece ser a Anthropic.” O especialista diz que a receita da SpaceX está toda em conectividade ligada a satélites, e que Musk foi inteligente em unir tudo num pacote só. “A parte espacial captura mais o imaginário coletivo, vamos para Marte, mas é uma parte relativamente pequena do negócio”, afirma. “Foi um negócio montado para vender filé com osso, levando-o à bolsa, mas tem uma parte de risco grande a ser comprovada.” Open AI e Anthropic também já captaram somas importantes com fundos de private equity, de US$ 180 bilhões e US$ 125 bilhões, respectivamente, e já tem investidor profissional olhando para as companhias. “Esse pessoal vai ganhar muito dinheiro, e os funcionários das empresas também, vamos ver um nível de formação de riqueza de milionários que nunca se viu.”
BTG e XP criam fundos para brasileiros que querem entrar no IPO da SpaceX
Assessorias e consultorias de investimentos no Brasil identificam boa demanda para os papéis da badalada oferta pública inicial de ações










