Começam hoje as negociações no mercado acionário americano das ações da SpaceX. A companhia espacial de Elon Musk, que se capitaliza para se tornar um grande conglomerado de inteligência artificial (IA) é agora uma empresa listada na Nasdaq, a bolsa eletrônica americana sediada em Nova York que concentra papéis de empresas de tecnologia. A oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX não escapou do radar dos investidores brasileiros. O BTG, único banco do país no consórcio de instituições que coordena a operação estruturada ontem, criou um fundo para investidores qualificados (aqueles que têm mais de R$ 1 milhão investido). Já a XP estruturou um fundo com aporte inicial de R$ 5 mil. Mas para o pequeno investidor, a oportunidade de participar está na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. E será por meio de BDRs, recibos que equivalem a ações da empresa americana. O valor inicial da aplicação ficará em torno de R$ 50, informou a B3. A precificação da oferta avaliou a SpaceX em quase US$ 1,8 trilhão, como era esperado pelos investidores e analistas de mercado. O valor já coloca a estreante no mercado de capitais entre as dez companhias mais valiosas do mundo logo hoje, o primeiro dia de negociações dos papéis na Nasdaq. O que são BDRs? Os BDRs são investimentos que funcionam como um espelho das ações negociadas no exterior, disponíveis para investidores que desejam apostar na empresa de voos espaciais. Por meio desse instrumento, que é negociado na Bolsa como uma ação de uma empresa nacional, é possível comprar ou vender esses ativos diretamente na plataforma das gestoras em que os investidores possuem conta. Os BDRs da SpaceX serão negociados sob o ticker SPCX34. SpaceX apresentou o que acredita ser o potencial de cada mercado no qual pretende operar — Foto: Equipe de Arte/O Globo A aplicação no Brasil será negociada na fração de 1:15 ações, ou seja: uma ação da empresa lá fora representará 15 BDRs. A previsão inicial do papel da empresa é de valer US$ 135 na Bolsa de Nova York — cerca de R$ 675. Com a divisão, cada BDR sairá por R$ cerca de R$ 45 a R$ 70, a depender da cotação do dólar e da procura pelas ações, que impõe variação ao valor. Não é preciso, para essa operação, fazer compras de câmbio e aportar o valor cheio da ação. BDR é a sigla em inglês para recibo de depósito brasileiro de ações. Empresas brasileiras têm recibos similares negociados na Bolsa de Nova York, mas sob a sigla ADR, o recibo de depósito americano. Apesar de a SpaceX não ser listada na Bolsa brasileira, bancos compram lotes de ações na Nasdaq e criam recibos que representam as ações. O BDR, portanto, é um espelho das ações que lastreiam esses papéis. A SpaceX será mais uma das muitas empresas estrangeiras que podem ser objeto de investimento diretamente na B3. Hoje, na Bolsa brasileira, é possível também investir em empresas como Apple, Nvidia e Microsoft, Tesla. “Estamos ampliando o leque de opções para quem busca diversificação geográfica e exposição a empresas globais de inovação sem sair do ambiente da bolsa do Brasil”, informou anteontem Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, em comunicado da instituição. Como funciona? O investimento pode ser feito diretamente nas plataformas de negociação (home broker) das corretoras, pelo código SPCX34. O processo, segundo a B3, é semelhante ao de negociação de ações brasileiras, ETFs (fundos de investimento que têm cotas negociadas diretamente em Bolsa) e outros BDRs. Não é preciso comprar dólares nem fazer remessa internacional para investir: todo o processo é realizado no Brasil, em reais. SpaceX lança foguete — Foto: Reprodução / X / @SpaceX A estrutura do BDR terá paridade de 1:15 – ou seja, cada ação da SpaceX no exterior corresponderá a 15 BDRs na B3. O valor do papel foi definido em US$ 135, ou cerca de R$ 690 pelo câmbio ontem. Com isso, será possível acessar os BDRs por cerca de R$ 50. Outros caminhos Os brasileiros podem abrir contas em gestoras internacionais e operar na Nasdaq diretamente comprando papéis da SpaceX. Para isso, é necessário realizar remessas de câmbio para essas contas, pagando IOF de 1,1% sobre o preço do câmbio, além de arcar com taxas de corretagens. Corretoras que atendem os brasileiros no exterior, como Avenue, Nomad e XP International, também dão acesso aos papéis da SpaceX — e a outras empresas com capital aberto na Nasdaq. É uma forma de diversificar e dolarizar o portfólio de investimentos. Mas, no caso da SpaceX, não há a garantia de que o preço seja o mesmo do IPO. — O investidor brasileiro está cada vez mais atento à importância de diversificar globalmente seu patrimônio — diz Fabio Checchi, chefe de desenvolvimento de negócios da Zero Markets no Brasil, corretora que também dará acesso a interessados nas ações da SpaceX por meio de parceria com a Levycam CCTVM. Investimento requer atenção Especialistas ressaltam que, como todo BDR, os da SpaceX estão sujeitos à variação dos papéis no exterior, aos altos e baixos do câmbio e à volatilidade do mercado americano. — Não acho que possa ser um grande tombo, mas eventualmente essa expectativa elevada criada em torno das ações da SpaceX pode levar a uma desvalorização dos papéis após o IPO. E quem vender a ação terá perdas, já que pagou caro pelo papel — diz Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo da Anefac. De acordo com Nickolas Lobo, analista da Nomad, investir em BDRs de uma empresa como a SpaceX requer bastante atenção e racionalidade. O forte apelo emocional atrai o interesse da pessoa física, impulsionado pelo sentimento de FOMO, sigla em inglês para “medo de ficar fora”. O evento, ele diz, traz oportunidades inéditas de internacionalização da carteira de investimentos, mas exige extrema cautela, já que os preços podem disparar num primeiro momento e ter volatilidade em seguida, fazendo o investidor ficar frustrado: — A médio prazo, entretanto, o mercado tende a ajustar os prêmios de risco, buscando um preço mais condizente com os resultados e as expectativas da companhia — afirma ele. Risco sem poder de decisão Elon Musk, dono da Tesla, da Space X e da rede social X — Foto: David Paul Morris/Bloomberg Segundo Lobo, o histórico conhecido de irreverências no controle de empresas por Elon Musk também é um fator que o investidor deve ter em mente. Segundo a agência Reuters, Musk pode deter até 85% dos votos do conselho, o que, na visão do analista da Nomad, também embute riscos: — A estruturação do IPO direciona para Musk direitos de voto ampliados. O acionista está comprando o risco econômico e o potencial de valorização do negócio, mas abrindo mão de qualquer poder de influência nas decisões estratégicas da companhia. Essa governança assimétrica e a imprevisibilidade narrativa potencialmente podem trazer mais volatilidade e mais resposta no preço em eventos que investidores não concordem com as decisões do Elon — disse ele.
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Investidores brasileiros poderão comprar BDRs por meio de corretoras locais por até R$ 70 na sexta-feira










