Na maior oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da história do mercado de capitais, as ações da SpaceX estreiam nesta sexta-feira (12) na Nasdaq, a bolsa de Nova York que concentra as empresas do setor de tecnologia. A segunda companhia de Elon Musk a abrir capital movimentou uma demanda cerca de quatro vezes maior do que a sua oferta, de US$ 75 bilhões. E todo o dinheiro que ficou de fora no IPO deve disputar as ações nesta sessão, assim que o código SPCX começar a piscar nas telas de investidores do mundo todo. Por isso, especialistas acreditam que os papéis da companhia devem decolar nesta primeira sessão de negociação. Só que o volume de capital atraído pelo papel também será um ímã de movimento especulativo, por isso, os próximos dias - e semanas - tendem a ser turbulentos. Avenue, Nomad e outras corretoras que permitem alocação no exterior oferecerão a possibilidade a seus clientes comprarem a ação no dia da estreia, quando os papéis começam a ser negociados no mercado secundário da Nasdaq. Nem mesmo a B3, a bolsa do Brasil, quis ficar de fora. Já na sexta-feira, simultaneamente à estreia da companhia de Musk em Wall Street, a bolsa lançará o BDR (um certificado negociado no Brasil que representa ações de empresas estrangeiras) da SpaceX, negociado com o código SPCX34. As plataformas também oferecerão exposição à SpaceX via ETFs (fundos negociados em bolsa) como o XOVR, com mais de 40% do portfólio na empresa, e fundos fechados, como o DXYZ. Mas o tom de cautela das plataformas é quase uníssono. A Nomad advertiu seus investidores em relatório que o padrão "tem sido uma alta expressiva no dia da listagem, seguido por meses de intensa volatilidade, à medida que investidores que estavam travados começam a realizar lucros." “Neste momento, tem muito hype [em torno da estreia da SpaceX na bolsa], muito investidor especulativo, que é atraído pelas notícias. E aí aparecem os rumores de que as pessoas estão vendendo Bitcoin para comprar SPCX ou trocando ação da Nvidia por SpaceX. Isso corresponde a um perfil de investidor que faz trade mais especulativo”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe e sócio da Avenue. O executivo explica que, historicamente, o "overhang" (um desequilíbrio pela grande quantidade de ações) pode fomentar o fluxo de vendas, uma força contrária que tende a se formar com o tempo e pode limitar a valorização do papel. A rigidez dos preços num IPO também marcado pela elevada participação de investidores individuais - pelo menos três vezes mais do que em outras ofertas de empresas de tecnologia nos Estados Unidos - cria um cenário de pressão elevada para a estreia da SPCX. "O papel deve ir bem no curtíssimo prazo, porque existe a demanda reprimida de quem não conseguiu alocação mais o dinheiro passivo de ETFs [fundos negociados em bolsa] que seguem o Nasdaq 100, tudo convergindo no primeiro momento", afirma Thiago Kapulskis, sócio do Global Tech Fund da São Pedro Capital. O estrategista-chefe da Avenue cita estimativas de US$ 7 bilhões a US$ 30 bilhões em fundos passivos (ETFs, fundos negociados em bolsa) comprados em SpaceX, por isso ele entende que é difícil acertar com precisão qual será a demanda cativa pelo SPCX logo no primeiro dia. Porém a mera inclusão da ação nos índices da Nasdaq, alguns dos mais negociados no mundo, deve garantir um dilúvio de capital sobre a sua estreia. Afinal, assim como Musk, a sua SpaceX é pop. E a provável alta do papel no primeiro dia deve refletir a euforia que o nome do empresário provoca. Além dele, existe a tese e, talvez até mais importante neste primeiro momento, um anseio do mercado por mais novidades. A Cerebras, fabricante de chips de IA, abriu capital no mês passado na Nasdaq e subiu 68% no dia 1. Antes dela, já foram Arm, Reddit…o roteiro se repete. O mercado americano adora um IPO que deu certo, mas o problema é o que vem depois. "Se o papel subir nos primeiros dias, numa aposta de curto prazo que garantiu 20% de ganhos em poucos dias, o movimento está dado, mas é especulativo. A alocação para investimento é diferente e precisa ser medida por pelo menos 12 meses. E aí, sob esse ponto de vista, minha principal preocupação é que vários desses IPOs 'hypados' sofreram quedas severas, com drawdown [indicador que mede a queda percentual do valor de um ativo do seu pico até o piso] elevado." O sócio da São Pedro Capital explica que a diferença é de parâmetros: o sucesso de um IPO se mede no seu primeiro dia, na precificação e estreia do ativo, já a tese de investimento mostra seu valor num prazo mais alongado, porque ela se prova no tempo. Efeito manada e FOMO como estratégia de venda Não é por acaso que a demanda pela SpaceX explodiu. Musk reservou 30% da oferta inicial para o investidor de varejo. Schwab, Fidelity, Robinhood, SoFi e E-Trade estão entre as corretoras americanas que distribuíram a ação para seus clientes. Bancos internacionais como Mizuho, Deutsche Bank, UBS e Barclays foram orientados a captar investidores individuais de alto patrimônio nos seus países. Para a pessoa física no Brasil, a barreira estava mais alta: ou era necessário ter conta em corretora americana e atender os parâmetros para poder ser considerado para o livro de ofertas da SpaceX ou era preciso ser um investidor qualificado (com mais de R$ 1 milhão em patrimônio financeiro) disposto a entrar em estruturas mais complexas. "Elon Musk é um gênio em criar esses fenômenos de público", diz Castro Alves. Desta vez, não foi diferente. “Tem muita gente curiosa - mais curiosa até do que interessada em investir. Muitas pessoas nos procuraram com dúvidas: 'como assim um valor de mercado de US$ 2 trilhões?’ ou ‘a empresa vai colonizar Marte?'. Dessa curiosidade para um interesse maduro de alocação o passo maior. Do outro lado, de quem está comprando ou esperando pela estreia da SpaceX, existe um comportamento de manada - quanto mais gente compra, mais gente quer comprar, e isso se retroalimenta. É aí que mora o perigo." Até os institucionais foram balançados pelo FOMO (fear of missing out, em inglês, termo que designa o fenômeno psicológico do “medo de ficar de fora”). Embora não comente o tema, o BTG é sabidamente a única instituição brasileira que integra o consórcio que coordenou a oferta da SpaceX. Isso gerou uma corrida de pequenos, médios e até grandes investidores por uma brecha para participar de um dos raros episódios do mercado de capitais no Brasil em que um banco daqui teve um livro de ofertas seu para um processo de listagem colossal no exterior. De olho na procura não atendida pelo book, o BTG e a XP criaram fundos de investimentos para acolher a demanda do público qualificado, conforme reportado pelo jornal Valor Econômico. Quem se antecipou teve a possibilidade de embarcar na estrutura criada pela Hurst Capital para se expor de forma indireta às ações da SpaceX ainda no pré-IPO. A operação, que captou R$ 2,75 milhões junto a 65 investidores, esgotou em menos de 24 horas no início de abril. A estrutura funciona por meio de Certificado de Recebíveis (CR, um título de crédito emitido no Brasil que dá ao investidor o direito de receber o resultado econômico que a ação gerar, mas não a titularidade dela). "Esses IPOs vão testar a disposição do mercado de pagar por empresas que prometem dominar infraestruturas críticas da próxima década. A tese pode ser extraordinária, mas o investidor precisa separar acesso de preço", reforça Fabio Guerra, diretor de novos negócios e estruturação da Hurst Capital. A gestora defende que a vantagem da sua estrutura de comprar o pré-IPO está no acesso à empresa antes dessa disputa pública pela ação. Na prática, o dinheiro dos investidores da Hurst que se expuseram à essa estrutura de SpaceX pré-IPO foi para uma gestora parceira internacional, que adquiriu direitos econômicos sobre ações da SpaceX no mercado secundário privado e os colocou dentro de um veículo de propósito específico (SPV, uma empresa-casca que existe exclusivamente para segregar esse investimento). O CR da Hurst espelha o resultado desse SPV: se a SpaceX valorizar, o lucro desce a cadeia até o investidor; se desvalorizar, o prejuízo também. Esse investidor, portanto, não se tornou um acionista da SpaceX, mas um credor da Hurst. E, considerando as taxas da estrutura montada pela gestora - estruturação, performance, administração do SPV e câmbio —, o breakeven real fica em torno de US 1,6 trilhão, segundo o executivo. Ou seja: com o IPO da empresa em US$ 1,77 trilhão, o ganho potencial líquido desse investidor, neste primeiro momento, é de cerca de 10%. E para o pequeno investidor que ansiava entrar nesse jogo, restou apenas esperar pela estreia das ações hoje. O horizonte de 90 dias importa mais que o IPO No começo, o clima deve ser de festa, elevada liquidez e muito furor em torno de SpaceX, até que o horizonte começará a mudar e, naturalmente, o papel tende a buscar um preço médio mais comedido. Entre três e seis meses após a listagem, todos os investidores insiders (funcionários da empresa, fundos de venture capital, investidores de rodadas anteriores) começam a ficar livres para vender suas posições de uma vez. "Conforme vai passando o tempo, a pressão vendedora deve aumentar", explica Kapulskis. "Tem muito funcionário que pode querer botar esse dinheiro no bolso." Castro Alves lista alguns antecessores: "Lyft, Spotify, Uber. Todas caíram nos primeiros 12 meses. É do jogo. A Robinhood, que também deu uma fatia grande do seu IPO para o varejo, sofreu forte drawdown.” O estrategista-chefe da Avenue explica que o risco do IPO da SpaceX está muito alto, com as apostas elevadas neste momento. "Para o varejo, na verdade, nós defendemos montar uma carteira central mais focada em teses de valor e, nesse portfólio, ter posições marginais em teses satélite. É nessa fatia menor que entram as ações de IA, high-tech e outras que ainda estão muito baseadas em expectativas e são pouco tangíveis. Esses investidores que têm muito apetite por essas novidades talvez encontrem até mais eficiência em posições em ETFs temáticos, porque esses fundos trazem o retorno de uma média agregada, então você surfa o movimento sem concentrar o risco.” O sócio da São Pedro Capital ainda pondera que os fundamentos também começam a ficar mais graves com o tempo e ter mais influência sobre a precificação do papel. “Se o data center do espaço não aconteceu, o Grok [IA da empresa] não ganhou relevância, o Starship [foguete espacial em desenvolvimento pela SpaceX] levará mais tempo, as expectativas sofrem esse reajuste e o papel cai. Só que a queda é grande, ela vem de múltiplos, por exemplo, como 25 vezes a receita projetada pelo Goldman Sachs para a empresa quatro anos à frente, em 2030." Por isso, para o executivo, quem compra a tese da SpaceX e faz alocação de forma estrutural, o ideal é esperar mais, até o cenário de realização de lucros do IPO e os insiders começarem a se desfazer de posições (em três a seis meses), assim o ativo tende a estar mais barato e já haverá mais informações no mercado sobre os projetos do negócio.
SpaceX estreia hoje na bolsa de Nova York. Devo comprar a ação?
Especialistas acreditam que os papéis da companhia devem decolar nesta primeira sessão de negociação, mas o ativo enfrentará muita turbulência nos primeiros dias
SpaceX debuta na Nasdaq com IPO de US$ 75 bi (demanda 4x), sinalizando capital abundance no tech/space sector. Padrão especulativo (similar a Cerebras +68%) cria risco de drawdown severo em 12 meses; lucro D1 vs investimento de verdade exigem estratégias radicalmente diferentes.












