A oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) de ações da SpaceX movimentou uma demanda de mais de US$ 250 bilhões, mas só cabiam US$ 75 bilhões. Assim, o pré-IPO fechou a porta com investidor na fila de espera. Os livros de ofertas da maior estreia na bolsa da história do mercado de capitais refletiram a procura mais de quatro vezes maior que a listagem, segundo fontes relataram à agência Bloomberg. Esse dinheiro que ficou de fora deve disputar as ações da segunda companhia de Elon Musk a abrir o capital, nesta sexta-feira (12), quando o código SPCX começar a piscar na Nasdaq. O cenário embasa as perspectivas de que os papéis da companhia decolem na sua primeira sessão, mas tanto capital atrai também movimento especulativo, por isso, os próximos dias - e semanas - tendem a ser turbulentos. “Neste momento, tem muito hype [em torno da estreia da SpaceX na bolsa], muito investidor especulativo, que é atraído pelas notícias. E aí aparecem os rumores de que as pessoas estão vendendo Bitcoin para comprar SPCX ou trocando ação da Nvidia por SpaceX. Isso corresponde a um perfil de investidor que faz trade mais especulativo”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe e sócio da Avenue. O executivo explica que, historicamente, o "overhang" (um desequilíbrio pela grande quantidade de ações) pode fomentar o fluxo de vendas, uma força contrária que tende a se formar com o tempo e pode limitar a valorização do papel. A rigidez dos preços num IPO também marcado pela elevada participação de investidores individuais - pelo menos três vezes mais do que em outras ofertas de empresas de tecnologia nos Estados Unidos - criam um cenário de pressão elevada para a estreia da SPCX. "O papel deve ir bem no curtíssimo prazo, porque existe a demanda reprimida de quem não conseguiu alocação, mais o dinheiro passivo de ETFs [fundos negociados em bolsa] que seguem o Nasdaq 100, tudo convergindo no primeiro momento", afirma Thiago Kapulskis, sócio do Global Tech Fund da São Pedro Capital. O estrategista-chefe da Avenue cita estimativas de US$ 7 a US$ 30 bilhões de fundos passivos comprados em SpaceX, por isso ele entende que é difícil acertar qual será a demanda cativa pelo SPCX logo no primeiro dia. Porém a mera inclusão da ação nos índices da Nasdaq, alguns dos mais negociados no mundo, deve garantir um dilúvio de capital sobre a sua estreia. Afinal, assim como Musk, a sua SpaceX é pop. E a provável alta do papel no primeiro dia deve refletir a euforia que o nome do empresário provoca. Além dele, existe a tese e, talvez até mais importante neste primeiro momento, um anseio do mercado por mais novidades. A Cerebras, fabricante de chips de IA, abriu capital no mês passado na Nasdaq e subiu 68% no dia 1. Antes dela, Arm, Reddit…o roteiro se repete. O mercado americano adora um IPO que deu certo, mas o problema é o que vem depois. "Se o papel subir nos primeiros dias, numa aposta de curto prazo que garantiu 20% de ganhos em poucos dias, o movimento está dado, mas é especulativo. A alocação para investimento é diferente e precisa ser medida por pelo menos 12 meses. E aí, sob esse ponto de vista, minha principal preocupação é que vários desses IPOs 'hypados' sofreram quedas severas, com drawdown [indicador que mede a queda percentual do valor de um ativo do seu pico até o piso] elevado." O sócio da São Pedro Capital explica que a diferença é de parâmetros: o sucesso de um IPO se mede no seu primeiro dia, na precificação e estreia do ativo, já a tese e o valor de um investimento mostra retorno num prazo mais alongado, quando se provam no tempo. Efeito manada e FOMO como estratégia de venda Não é por acaso que a demanda pela SpaceX explodiu. Musk reservou 30% da oferta inicial para o investidor de varejo. Schwab, Fidelity, Robinhood, SoFi e E-Trade estão entre as corretoras americanas que distribuíram a ação para seus clientes. Bancos internacionais como Mizuho, Deutsche Bank, UBS e Barclays foram orientados a captar investidores individuais de alto patrimônio nos seus países. Para a pessoa física no Brasil, a barreira estava mais alta: ou era necessário ter conta em corretora americana e atender os parâmetros para poder ser considerado para o livro de ofertas da SpaceX ou era preciso ser um investidor qualificado (com mais de R$ 1 milhão em patrimônio financeiro) disposto a entrar em estruturas mais complexas. "Elon Musk é um gênio em criar esses fenômenos de público", diz Castro Alves. Desta vez, não foi diferente. “Tem muita gente curiosa - mais curiosa até do que interessada em investir. Muitas pessoas nos procuraram com dúvidas: 'como assim um valor de mercado de US$ 2 trilhões?’ ou ‘a empresa vai colonizar Marte?'. Dessa curiosidade para um interesse maduro de alocação o passo maior. Do outro lado, de quem está comprando ou esperando pela estreia da SpaceX, existe um comportamento de manada - quanto mais gente compra, mais gente quer comprar, e isso se retroalimenta. É aí que mora o perigo." Até os institucionais foram balançados pelo FOMO (fear of missing out, em inglês, termo que designa o fenômeno psicológico do “medo de ficar de fora”). Embora não comente o tema, o BTG é sabidamente a única instituição brasileira que integra o consórcio de bancos que coordenaram a oferta da SpaceX. Isso gerou uma corrida de pequenos, médios e até grandes investidores por assessores que abrissem uma brecha para participar de um dos raros episódios do mercado de capitais - em que o Brasil teve um livro de ofertas só seu para uma listagem monumental no exterior. No dia do fechamento dos livros, BTG e XP criaram fundos de investimentos para acolher a demanda do público qualificado, conforme reportado pelo jornal Valor Econômico. Quem se antecipou teve a possibilidade de embarcar na estrutura criada pela Hurst Capital para se expor de forma indireta às ações da SpaceX ainda no pré-IPO. A operação, que captou R$ 2,75 milhões junto a 65 investidores, esgotou em menos de 24 horas no início de abril. A estrutura funciona por meio de Certificado de Recebíveis (CR, um título de crédito emitido no Brasil que dá ao investidor o direito de receber o resultado econômico que a ação gerar, mas não a titularidade dela). "Esses IPOs vão testar a disposição do mercado de pagar por empresas que prometem dominar infraestruturas críticas da próxima década. A tese pode ser extraordinária, mas o investidor precisa separar acesso de preço", reforça Fabio Guerra, diretor de novos negócios e estruturação da Hurst Capital. A gestora defende que a vantagem da sua estrutura de comprar o pré-IPO está no acesso à empresa antes dessa disputa pública pela ação. Na prática, o dinheiro dos investidores da Hurst que se expuseram à essa estrutura de SpaceX pré-IPO foi para uma gestora parceira internacional, que adquiriu direitos econômicos sobre ações da SpaceX no mercado secundário privado e os colocou dentro de um veículo de propósito específico (SPV, uma empresa-casca que existe exclusivamente para segregar esse investimento). O CR da Hurst espelha o resultado desse SPV: se a SpaceX valorizar, o lucro desce a cadeia até o investidor; se desvalorizar, o prejuízo também. Esse investidor, portanto, não se tornou um acionista da SpaceX, mas um credor da Hurst. E, considerando as taxas da estrutura montada pela gestora - estruturação, performance, administração do SPV e câmbio —, o breakeven real fica em torno de US 1,6 trilhão, segundo o executivo. Ou seja: com o IPO da empresa estimado em US$ 1,77 trilhão, o ganho potencial líquido desse investidor, neste primeiro momento, seria de cerca de 10%. Só que não apenas a janela da Hurst pré-IPO como também a do próprio IPO da SpaceX já fechou. Para o pequeno investidor que anseia entrar nesse jogo, restou apenas esperar pela estreia das ações amanhã. Avenue, Nomad e outras corretoras que permitem alocação no exterior oferecerão a possibilidade a seus clientes comprarem a ação no dia da estreia, quando os papéis começam a ser negociados no mercado secundário da Nasdaq. Nem mesmo a B3, a bolsa do Brasil, quis ficar de fora. Já na sexta-feira, simultaneamente à estreia da companhia de Musk em Wall Street, a bolsa lançará o BDR (um certificado negociado no Brasil que representa ações de empresas estrangeiras) da SpaceX, negociado com o código SPCX34. As plataformas também oferecerão exposição à SpaceX pela oferta de ETFs como o XOVR, com mais de 40% do portfólio na empresa e fundos fechados, como o DXYZ. Mesmo assim, o tom de cautela das plataformas é quase uníssono. A Nomad advertiu seus investidores em relatório que o padrão "tem sido uma alta expressiva no dia da listagem, seguido por meses de intensa volatilidade, à medida que investidores que estavam travados começam a realizar lucros." O horizonte de 90 dias importa mais que o IPO No começo o clima deve ser de festa, elevada liquidez e muito furor em torno de SpaceX, até que o horizonte começa a mudar e, naturalmente, o papel tende a buscar um preço médio mais comedido. Entre três e seis meses após a listagem, todos os investidores insiders (funcionários da empresa, fundos de venture capital, investidores de rodadas anteriores) começam a ficar livres para vender suas posições de uma vez. "Conforme vai passando o tempo, a pressão vendedora deve aumentar", explica Kapulskis. "Tem muito funcionário que pode querer botar esse dinheiro no bolso." Castro Alves lista alguns antecessores: "Lyft, Spotify, Uber. Todas caíram nos primeiros 12 meses. É do jogo. A Robinhood, que também deu uma fatia grande do seu IPO para o varejo, sofreu forte drawdown.” O estrategista-chefe da Avenue explica que o risco do IPO da SpaceX está muito alto, com as apostas elevadas neste momento. "Para o varejo, na verdade, nós defendemos montar uma carteira central mais focada em teses de valor e, nesse portfólio, ter posições marginais em teses de satélite. É nessa fatia menor que entram as ações de IA, high-tech e outras que ainda estão muito baseadas em expectativas e são pouco tangíveis. Esses investidores que têm muito apetite por essas novidades talvez encontrem até mais eficiência em posições em ETFs temáticos, porque esses fundos trazem o retorno de uma média agregada, então você surfa o movimento sem concentrar o risco.” O sócio da São Pedro Capital ainda pondera que os fundamentos também começam a ficar mais graves com o tempo e ter mais influência sobre a precificação do papel. “Se o data center do espaço não aconteceu, o Grok [IA da empresa] não ganhou relevância, o Starship [foguete espacial em desenvolvimento pela SpaceX] levará mais tempo, as expectativas sofrem esse reajuste e o papel cai. Só que a queda é grande, ela vem de múltiplos, por exemplo, como 25 vezes a receita projetada pelo Goldman Sachs para a empresa quatro anos à frente, em 2030." Por isso, para o executivo, quem compra a tese da SpaceX e faz alocação de forma estrutural, o ideal é esperar mais, até o cenário de realização de lucros do IPO e os insiders começarem a se desfazer de posições (em três a seis meses), assim o ativo tende a estar mais barato e já haverá mais informações no mercado sobre os projetos do negócio.
IPO da SpaceX tem fila na porta, mas investidor deve resistir à tentação da estreia
Sob rumores de demanda mais de quatro vezes maior que a oferta inicial de ações, muitos investidores ficaram de fora, o que eleva as tensões para a sexta de começo das negociações da SPCX












