China e Taiwan trocaram acusações nesta quarta-feira (10) sobre a legalidade de patrulhas da guarda costeira chinesa a leste da ilha, depois que o governo taiwanês afirmou que navios mercantes foram “assediados” próximos de suas águas. A China, que considera Taiwan, governada democraticamente, parte de seu território, irritou-se após Japão e Filipinas anunciarem no mês passado que iniciarão negociações formais sobre suas fronteiras marítimas, envolvendo áreas que Pequim considera relacionadas às águas ao redor de Taiwan. No fim do último sábado, a imprensa estatal chinesa informou que embarcações foram enviadas para realizar uma “operação especial de fiscalização do tráfego marítimo” nas águas a leste de Taiwan em resposta ao anúncio de Japão e Filipinas. Taiwan afirmou que esses navios têm, nos últimos dias, “assediado” embarcações comerciais ao solicitar informações sobre origem e destino das viagens e alegar jurisdição sobre a área. “As patrulhas de fiscalização conduzidas pelas autoridades competentes do continente nas águas relevantes são uma ação legítima para salvaguardar a soberania nacional e os direitos e interesses marítimos”, afirmou Zhang Han, porta-voz do Escritório de Assuntos de Taiwan da China, em Pequim. Segundo ela, a guarda costeira chinesa realiza patrulhas de fiscalização nessas águas de acordo com a lei e a China continuará fortalecendo seu controle sobre a região. Taiwan reage As patrulhas provocaram irritação em Taiwan, cujo governo rejeita as reivindicações de soberania de Pequim e afirma que apenas o povo taiwanês pode decidir seu futuro. Falando a jornalistas em Taipé nesta quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores de Taiwan, Lin Chia-lung, afirmou que a China está “usando a chamada aplicação da lei como pretexto para expandir sua influência”. “Os comunistas chineses não têm o direito de interferir em questões relativas às águas a leste de Taiwan, sejam elas relacionadas à soberania ou à jurisdição de Taiwan”, disse, classificando a China como uma “criadora de problemas” que ameaça o status quo. Pequim não reconhece qualquer reivindicação de soberania do governo taiwanês e rejeitou diversas ofertas de diálogo feitas pelo presidente Lai Ching-te, que considera um “separatista”. “As ações dos comunistas chineses não apenas colocam em risco a soberania do nosso país, como também violam leis e convenções internacionais relevantes”, afirmou Xavier Chang, secretário-geral do gabinete de Taiwan, durante um evento separado em Taipé. “Não cederemos um centímetro do nosso território marítimo”, acrescentou. Taiwan também tem reclamado, no último mês, da aproximação de navios da guarda costeira chinesa das ilhas Pratas, administradas por Taiwan e localizadas em posição estratégica no extremo norte do Mar do Sul da China. Zhang afirmou que a China possui soberania sobre as ilhas Pratas e que as patrulhas realizadas na região também são “normais”. “Se as autoridades do Partido Progressista Democrático ousarem provocar, terão de arcar com todas as consequências decorrentes disso”, disse, referindo-se ao partido governista de Taiwan. Segundo Zhang, Taiwan estaria mais segura após uma “reunificação pacífica”. “Os compatriotas taiwaneses poderão verdadeiramente viver e trabalhar em paz e satisfação em um ambiente pacífico e tranquilo”, afirmou. Militares da Marinha e membros da imprensa navegam a bordo do barco de mísseis da classe Kuang Hua VI, enquanto as Forças Armadas de Taiwan demonstram prontidão para combate antes do feriado do Ano Novo Lunar, como parte de um exercício anual em Kaohsiung, Taiwan, em 9 de janeiro de 2025 — Foto: REUTERS/Ann Wang/Foto de Arquivo Teste de foguetes contra possível invasão chinesa Também nesta quarta-feira, as Forças Armadas de Taiwan dispararam seu novo sistema móvel de foguetes Himars, amplamente utilizado pela Ucrânia, em uma simulação de ataque contra uma força invasora chinesa, demonstrando sua capacidade de realizar operações do tipo "shoot-and-scoot" — disparar e se deslocar rapidamente para evitar contra-ataques. Taiwan havia realizado no ano passado seu primeiro teste do sistema Himars ("High Mobility Artillery Rocket Systems"), fabricado pela Lockheed Martin, na costa leste da ilha. O exercício desta quarta-feira marcou a primeira utilização da arma na costa oeste, na região central da cidade de Taichung. Os militares taiwaneses disseram que o treinamento teve como objetivo demonstrar a mobilidade do sistema e sua capacidade de “atirar e se deslocar” — retirando-se rapidamente após os disparos para evitar ser detectado por radares inimigos —, aumentando significativamente sua capacidade de sobrevivência em combate. “Nossos Himars demonstraram as sólidas capacidades de combate da unidade e concluíram com sucesso este treinamento”, afirmou o comandante da companhia, Ko Ming-pin. As praias e planícies de lama da costa oeste de Taiwan, voltadas diretamente para a China através do Estreito de Taiwan, são consideradas os locais mais prováveis para um eventual desembarque militar chinês em caso de invasão. As Forças Armadas taiwanesas vêm passando por um processo de modernização para ampliar sua capacidade de travar uma guerra assimétrica, baseada em armamentos móveis e de alto poder de fogo, como o Himars. A estratégia busca transformar a ilha em um “porco-espinho”, difícil de atacar e capaz de resistir a uma ofensiva chinesa. Com alcance de cerca de 300 quilômetros, o Himars poderia atingir alvos costeiros na província chinesa de Fujian, localizada do outro lado do estreito. O sistema deverá operar em conjunto com os lançadores Thunderbolt-2000, desenvolvidos por Taiwan, permitindo atacar forças chinesas ainda nos portos ou durante tentativas de desembarque na costa da ilha. Os Thunderbolt-2000 foram utilizados no primeiro dia dos exercícios, na terça-feira. Sistemas de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade (HIMARS) de Taiwan disparam foguetes durante um exercício militar com munição real, que simula uma invasão inimiga, em Taichung, Taiwan, em 10 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Angie Teo
China e Taiwan trocam acusações após novas patrulhas perto da ilha
Discussões sobre legalidade de operações da guarda costeira da China a leste do território taiwanês ocorre após Taipé ter dito que navios mercantes foram 'assediados' próximos de suas águas












