Era janeiro de 2025, a febre cripto estava no auge e Donald Trump se preparava para voltar à Casa Branca. Quando uma amiga de Fatime Elrgdawy lhe mostrou uma mensagem do presidente eleito promovendo sua própria criptomoeda - “COMPRE SEU $TRUMP AGORA” - ela pensou: “Meu Deus, isso é genial”. Se Trump estava colocando seu nome no projeto, Elrgdawy se lembra de ter pensado, “deve ser um investimento legítimo”. A engenheira de software, de 29 anos, moradora de Santa Barbara, na Califórnia, aplicou US$ 2 mil de suas economias na memecoin $TRUMP, um token puramente especulativo cujo valor costuma ser impulsionado pelo burburinho nas redes sociais. No fim de maio, sua posição valia menos de US$ 120. Enquanto isso, a família Trump embolsou centenas de milhões de dólares com a venda dos tokens, depois de colocar pouco ou nenhum dinheiro próprio no projeto. A memecoin $TRUMP é um dos quatro projetos cripto da família Trump que se transformaram em uma mina de dinheiro para os Trump - e em uma péssima aposta para compradores como Elrgdawy. Embora variem em tamanho e estrutura, todos seguiram a mesma cartilha: os Trump assumiram pouco risco inicial, integrantes da família promoveram os projetos, a família arrecadou dinheiro à medida que investidores entraram e esses compradores tiveram grandes perdas quando os preços dos criptoativos ligados a Trump despencaram. Uma análise da Reuters mostra que a família Trump usou esse modelo para gerar ao menos US$ 2,3 bilhões em lucro com investidores desde que Trump voltou à Presidência. Do outro lado dessa bonança estão mais de 1 milhão de investidores, cujas perdas líquidas somavam US$ 2,3 bilhões no fim de abril. O cálculo inclui compradores de varejo de criptoativos e de ações ligadas a cripto, além de pessoas que investiram indiretamente por meio de fundos, como ETFs com exposição a criptoativos de Trump. A análise foi baseada em registros de blockchain, documentos societários, divulgações on-line das empresas de Trump, declarações públicas da família e de executivos dos projetos, além de entrevistas com executivos da indústria. As conclusões foram revisadas por mais de uma dúzia de especialistas em contabilidade e cripto, que consideraram razoáveis as estimativas. Os quatro negócios analisados incluem a World Liberty Financial, principal empreitada cripto dos Trump. A empresa rendeu à família mais de US$ 1,4 bilhão com a venda de seus tokens de governança, sustentada pela promessa de “construir e democratizar um novo sistema financeiro em benefício de milhões”. Os tokens, que dão ao detentor direito de voto em algumas questões de governança, despencaram de valor. Os irmãos Trump também promoveram duas empresas listadas em bolsa, American Bitcoin e AI Financial Corp., conhecida como ALT5 Sigma até abril, como formas convenientes de ganhar exposição a tokens cripto por meio de ações. Os papéis das companhias desabaram. Há ainda o token $TRUMP, com o desempenho ruim típico das memecoins, cujo valor reflete a popularidade de tendências da internet ou celebridades ligadas a elas. A Reuters já havia documentado os centenas de milhões de dólares que o mercado cripto rendeu aos Trump. Esta reportagem mostra, pela primeira vez, que eles não só enriqueceram em escala sem precedentes para um presidente dos EUA em exercício e sua família, mas fizeram isso por meio de negócios cripto que envolviam pouco ou nenhum risco de perda para si, enquanto resultaram em grandes prejuízos a investidores de varejo. A porta-voz da Casa Branca Anna Kelly não comentou diretamente as conclusões da Reuters nem as experiências de investidores que perderam dinheiro. Em comunicado por e-mail, afirmou: “Todas as ações do presidente Trump e de sua administração são tomadas no melhor interesse do povo americano”. Eric Trump e Donald Trump Jr. não responderam aos pedidos de comentário. Todos, exceto três dos 27 investidores individuais entrevistados pela Reuters, disseram conhecer o histórico de Donald Trump de falências, empreiteiros não pagos e empreendimentos fracassados. Ainda assim, a maioria afirmou acreditar que sua posição no topo do poder político americano e aquilo que viam como sua habilidade empresarial garantiriam retornos lucrativos. Muitos reconheceram ter feito pouca ou nenhuma análise prévia. Análise mostra que família usou modelo para gerar ao menos US$ 2,3 bi em lucro com investidores desde que Trump voltou à Presidência Elrgdawy disse que ficou claro que “não há mais esperança” para seu investimento na memecoin $TRUMP. Ela afirma agora acreditar que “foi apenas um esquema de pump and dump” - quando vendedores de um ativo promovem sua alta e depois “desovam” suas posições com lucro antes do colapso. A memecoin despencou 97% desde o pico de janeiro de 2025. Apenas cinco investidores relataram lucro. Quatro deles compraram tokens da World Liberty por centavos nas primeiras rodadas de venda e depois venderam rapidamente o que puderam quando 20% de seus tokens se tornaram negociáveis em corretoras cripto. Eles ainda estão, em tese, no lucro com os 80% restantes, mas só poderão realizar esse ganho quando a World Liberty desbloquear totalmente seus tokens em 2030. John Paul Rollert, da University of Chicago Booth School of Business, disse que investidores de varejo deveriam ter se perguntado, antes de investir, se a família Trump ganharia dinheiro mesmo caso as empreitadas cripto fracassassem. Se a resposta fosse sim, “você está chegando mais perto de algo que parece um golpe”, disse. A World Liberty informou em letras miúdas que a família Trump receberia a maior parte da receita com a venda dos tokens. Em materiais de marketing, incluiu avisos de que o token não era um investimento e que compradores não deveriam esperar lucro. O site da memecoin $TRUMP exibe alertas semelhantes. Investidores despejaram dinheiro nos negócios da família Trump enquanto o mercado cripto mais amplo estava em alta, impulsionado por apostas de que um segundo mandato de Trump aceleraria a entrada dessa classe de ativos no mercado financeiro tradicional. Ao tomar posse, Trump passou a implementar políticas vistas como favoráveis à indústria, da criação de regras federais para stablecoins ao recuo da fiscalização do setor pelo Departamento de Justiça e pela SEC, a comissão de valores mobiliários americana. Oito especialistas em ética governamental entrevistados pela Reuters disseram que o enriquecimento da família Trump em uma indústria regulada pela administração do presidente - e defendida pelo próprio presidente - representa um conflito de interesses sem paralelo na história moderna dos EUA. Eles observaram, porém, que, embora esse afastamento de normas estabelecidas seja antiético e sem precedentes, é legal, desde que a família não troque acesso ao presidente ou favores regulatórios por ganho financeiro. Em comunicado, a porta-voz da Casa Branca afirmou: “Nem o presidente nem sua família jamais se envolveram - ou se envolverão - em conflitos de interesse. O presidente Trump orgulhosamente transformou os Estados Unidos na capital cripto do mundo por meio de ações executivas.” David Wachsman, porta-voz da World Liberty Financial, disse à Reuters que a empresa é “uma empresa privada americana de tecnologia financeira, não uma organização política”, e que é “francamente antiamericano sugerir que uma empresa privada nos EUA não possa fazer negócios”. Os Trump arrecadaram US$ 2,3 bilhões com empreitadas cripto seguindo um modelo de negócios já usado por Trump no setor imobiliário: emprestar o nome da família a um projeto, em vez de arriscar seu próprio dinheiro. “Os acordos de licenciamento são os melhores de todos porque não há risco”, disse Trump à Reuters em 2016. O principal componente dessa máquina é a World Liberty Em outubro de 2024, a empresa, cujos cofundadores incluem os Trump e alguns associados de longa data, começou a vender tokens cripto, com os irmãos atuando como principais vendedores da ideia. O discurso mirava potenciais investidores cripto grandes e pequenos, incluindo investidores americanos qualificados. Por 1,5 centavo de dólar por token, compradores teriam direitos limitados de voto em decisões importantes da plataforma, mas não teriam direito a nenhuma fatia dos lucros. Do outro lado estão mais de 1 milhão de investidores, com perdas líquidas da mesma magnitude no fim de abril Muitos investidores iniciais imaginaram que poderiam lucrar quando os tokens começassem a ser negociados em corretoras cripto. Mas a World Liberty os proibiu de vender mais de 20% de suas posições. Em abril deste ano, a empresa apresentou proposta, depois aprovada pelos maiores detentores dos tokens, que impediria investidores de desbloquear totalmente seus ativos até 2030, após a data prevista para Trump deixar o cargo. O bloqueio deixou muitos investidores frustrados por não conseguirem realizar lucros cada vez menores à medida que o preço caía. Questionado sobre a experiência dos investidores, Wachsman disse que a equipe da World Liberty sempre esteve “ativamente engajada” com a comunidade e que adota uma visão de longo prazo. Apesar das frustrações, investidores iniciais da World Liberty, que pagaram 1,5 centavo ou 5 centavos por token, estão em situação melhor do que muitos daqueles que investiram por meio de corretoras cripto. Quando as negociações começaram em 1º de setembro, o preço do token saltou de 31 centavos para 46 centavos, mas depois caiu para cerca de 6 centavos no fim de abril - uma desvalorização de 87%. Para os Trump, a World Liberty só trouxe ganhos. Não há evidências, com base em entrevistas, registros regulatórios e declarações públicas, de que os Trump tenham investido dinheiro próprio para criar a World Liberty. Mesmo que tenham feito isso, consultores e acadêmicos disseram que o empreendimento poderia ter sido criado por menos de US$ 1 milhão. Ao mesmo tempo, o presidente licenciou seu nome e sua imagem para a empresa como parte de um acordo que direciona 75% das vendas de tokens a uma entidade chamada DT Marks DEFI LLC, controlada majoritariamente pelo Donald J Trump Revocable Trust. Até agora, a World Liberty canalizou mais de US$ 1,6 bilhão para a família Trump - mais de US$ 1,4 bilhão com vendas de tokens de governança e cerca de US$ 230 milhões com outros empreendimentos, segundo cálculos da Reuters. Enquanto isso, as perdas totais dos investidores que compraram tokens diretamente da World Liberty ou por meio de corretoras chegaram a US$ 674 milhões. Em 17 de janeiro de 2025, três dias antes de sua segunda posse, Trump publicou a mensagem vista pela amiga de Elrgdawy, incentivando o público a comprar a memecoin $TRUMP, uma jogada separada da World Liberty. No dia seguinte, Eric Trump escreveu no X que ela era “a memecoin digital mais quente do planeta”. Um dia depois, Donald Jr. republicou a mensagem de Eric enquanto a moeda alcançava sua máxima histórica de US$ 75,35. A memecoin então despencou 80% conforme investidores iniciais realizaram lucros. Até agora, gerou cerca de US$ 616 milhões para a família Trump, enquanto compradores perderam mais de US$ 700 milhões, segundo estimativas da Reuters. Em agosto passado, a World Liberty Financial fechou parceria com a ALT5 Sigma, pequena empresa deficitária listada na Nasdaq. Pelo acordo, a ALT5 Sigma levantou US$ 750 milhões com a venda de novas ações e usou US$ 717 milhões desse total para comprar tokens da World Liberty. As ações da ALT5 Sigma logo começaram a cair, da máxima acima de US$ 9 em agosto de 2025 para US$ 0,75 em abril, uma perda de cerca de US$ 675 milhões para os investidores. A queda acompanhou a desvalorização do token da World Liberty e a perda mais ampla de interesse por empresas de tesouraria em ativos digitais. Os Trump, ainda assim, saíram ganhando. Dos US$ 717 milhões que a ALT5 Sigma gastou em tokens da World Liberty, mais de US$ 500 milhões foram para a família, com base no acordo de divisão de receita. Em abril, a ALT5 Sigma informou que mudou seu nome para AI Financial Corp. como parte de um movimento rumo a “uma plataforma financeira mais ampla”. Em e-mail à Reuters, disse que a AI Financial continua detendo tokens da World Liberty e é “firme defensora” da stablecoin do projeto cripto.