Presidente dos EUA se beneficia de mudanças regulatórias que ele mesmo supervisiona no mercado de criptomoedas Os criptoativos emitidos por Trump até agora não renderam bons retornos aos investidores — Foto: Jonathan Raa/NurPhoto via AP O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou mais de US$ 1,4 bilhão em renda proveniente dos empreendimentos de criptomoedas de sua família no ano passado, demonstrando que atualmente a maior parte de sua renda vem de ativos digitais que foram beneficiados por políticas implementadas por seu governo, segundo uma análise de suas mais recentes declarações financeiras divulgadas nesta terça-feira (30). Os documentos, correspondentes à sua declaração anual de bens e rendimentos de 2025 apresentada ao Escritório de Ética Governamental dos EUA, revelam que suas empresas receberam quase US$ 800 milhões da World Liberty Financial, um empreendimento de criptomoedas cofundado por Trump e seus filhos. Desse total, mais de US$ 520 milhões vieram da venda de tokens de criptomoedas e mais de US$ 250 milhões da venda de participações no negócio World Liberty, sendo que membros da família também têm direito a uma parcela dessa receita. O presidente também declarou US$ 635 milhões provenientes da venda de suas memecoins Trump. A declaração evidencia como o setor de criptomoedas transformou a fonte de renda do presidente. Em sua declaração apresentada em junho do ano passado, por exemplo, Trump havia informado US$ 57,35 milhões em receitas com vendas de tokens da World Liberty. Esse valor saltou para mais de US$ 500 milhões na declaração deste ano. A Reuters estimou recentemente que a família Trump obteve pelo menos US$ 2,3 bilhões com projetos relacionados a criptomoedas desde que Trump retornou à Casa Branca em 2025. Ao assumir o cargo, Trump passou a implementar políticas e iniciativas consideradas favoráveis ao setor, incluindo a criação de regras federais para stablecoins e a redução da fiscalização da indústria pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pela Comissão de Valores Mobiliários (SEC). O presidente também declarou mais de US$ 80 milhões em receitas provenientes de acordos judiciais com diversas empresas de mídia, além de milhões de dólares obtidos com o licenciamento de seu nome para incorporadoras imobiliárias no exterior. A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou em comunicado: “Nem o presidente nem sua família jamais se envolveram — nem jamais se envolverão — em conflitos de interesse. O presidente Trump transformou, com orgulho, os Estados Unidos na capital mundial das criptomoedas por meio de ações executivas.” Kelly acrescentou: “Todas as ações do presidente Trump e de seu governo são tomadas no melhor interesse do povo americano — e quaisquer supostos ‘repórteres’ que afirmem o contrário estão apenas reciclando a mesma narrativa falsa e desgastada que os democratas e a mídia tradicional vêm promovendo há uma década.” Embora a Casa Branca tenha afirmado anteriormente que os interesses empresariais do presidente estão atualmente sob administração de seus filhos, Trump continua sendo o beneficiário dos ativos mantidos no truste que, em última instância, recebe esses rendimentos. Nova fortuna Embora as criptomoedas sejam, de longe, a principal fonte de renda de Trump, seus negócios tradicionais — especialmente o setor imobiliário, incluindo campos de golfe e resorts — continuaram gerando milhões de dólares. Trump informou um aumento de 15% nas receitas de seus campos de golfe e resorts, que ultrapassaram US$ 500 milhões em 2025. Os maiores aumentos ocorreram nos clubes onde o presidente passou boa parte do tempo desde sua posse em 2025. Casa de Trump em Mar-a-Lago — Foto: AP Photo/Wilfredo Lee A receita do clube Mar-a-Lago, na Flórida — apelidado por Trump de “Casa Branca de Inverno” — subiu de US$ 50 milhões, em 2024, para US$ 77 milhões, enquanto a receita do clube vizinho em West Palm Beach aumentou 27%. Já a receita do campo de golfe de Trump em Los Angeles caiu no ano passado. Trump recebeu os vencedores da segunda edição anual de seu concurso relacionado à memecoin em Mar-a-Lago, em abril. Um porta-voz da empresa da família, a The Trump Organization, declarou: “A abrangência e a profundidade desta declaração reforçam ainda mais nosso compromisso com a transparência. Com quase 1.000 páginas, trata-se de um dos relatórios de divulgação financeira mais completos já apresentados e demonstra um nível de transparência financeira sem precedentes na história presidencial.” Um porta-voz da World Liberty Financial recusou-se a comentar. Don Fox, ex-diretor interino do Escritório Federal de Ética, órgão responsável por supervisionar as normas de ética aplicáveis aos funcionários federais e revisar declarações financeiras, incluindo as de Trump, afirmou que presidentes e vice-presidentes são isentos das leis de ética que proíbem conflitos de interesse para os demais integrantes do Poder Executivo. “Todo presidente desde a era pós-Watergate administrou suas finanças como se estivesse sujeito às regras de conflito de interesses”, disse Fox. “Com Trump, essas normas simplesmente foram completamente abandonadas.” Ele acrescentou: “Ele mostra melhor do que ninguém que chegou a hora de promover novas reformas éticas. Em termos legislativos, uma medida possível seria limitar os tipos de investimentos que ele e o vice-presidente podem manter.”