Fifa cita seu código de conduta para os estádios, que veta materiais de 'teor político', mas a diáspora iraniana vê na decisão uma concessão para o regime em Teerã Manifestante com bandeira pré-revolucionária do Irã durante ato em Los Angeles — Foto: Sarah LAI / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/06/2026 - 18:39 Fifa Proíbe Bandeiras do Irã Pré-Revolução em Copas do Mundo A Fifa proibiu bandeiras do Irã pré-Revolução de 1979 na Copa do Mundo, alegando seu código de conduta que veta materiais políticos. A diáspora iraniana critica a decisão, vendo-a como concessão ao regime de Teerã. A bandeira, símbolo de oposição, foi barrada em 2022 e seguirá proibida. O Instituto para as Vozes da Liberdade contesta a medida nos EUA, enquanto a federação iraniana questiona a retirada de ingressos e enfrenta dificuldades migratórias. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Poucas vezes uma seleção em uma Copa do Mundo acumulou tantas polêmicas antes mesmo do apito inicial como a do Irã no Mundial que começa nesta quinta-feira. Além da guerra contra um dos anfitriões, os EUA, houve ameaças aos atletas, ingressos revogados, problemas com os vistos, regras migratórias restritivas e o veto a um antigo símbolo nacional, hoje associado à oposição no exílio: a bandeira tricolor que tem no centro um leão e um sol, abandonada após a Revolução Islâmica de 1979. Na última Copa, no Catar em 2022, torcedores que tentavam entrar nos estádios com essa bandeira foram abordados por seguranças e não raro obrigados a abandoná-las. Em maio, a Fifa decidiu que a regra seria repetida em 2026, invocando seu Código de Conduta à torcida. Ali, a federação afirma que estarão proibidos materiais “que sejam de natureza política, ofensiva e/ou discriminatória”. Oficialmente, a Fifa não classificou a bandeira pré-revolucionária como item político, mas nas entrelinhas disse exatamente isso. No mesmo encontro de maio, foi decidido que a bandeira da Palestina — alvo de recentes entreveros no futebol europeu — estava liberada, já que representa um membro da entidade. “A bandeira do Leão e do Sol é um símbolo de paz abraçado por milhões de iranianos que acreditam na liberdade, na democracia e no direito de expressar sua identidade sem medo ou censura”, disse, em comunicado, o Instituto para as Vozes da Liberdade, uma organização de oposição ao regime em Teerã, e que entrou com uma ação na Justiça dos EUA para garantir o direito de levar as bandeiras aos jogos. Iranianos com a antiga bandeira do Irã no jogo com a Inglaterra: Fifa proibiu a entrada desta bandeira nos estádios — Foto: Reprodução/Twitter “A liberdade de expressão é protegida nos Estados Unidos — e nenhuma organização deve silenciar uma voz enquanto favorece outra. Estamos preparados para buscar todos os recursos legais necessários para defender esse direito e garantir que a liberdade de expressão seja respeitada durante a Copa do Mundo”, acrescentou. Embora as cores da bandeira — verde, branco e vermelho — e as faixas horizontais sigam um padrão similar desde o início do Século XX, o que está no centro dela é a causa da discórdia. Até 1979, a bandeira trazia o leão e o sol, um símbolo originado na Pérsia Antiga e com milhares de anos de história. Após a instauração da República Islâmica, em fevereiro de 1979, o leão e o sol permaneceram temporariamente (mas sem uma coroa que representava o regime comandado pela dinastia Pahlevi). Em 1980, foi adotado o modelo atual, com o novo brasão da República e o takbir islâmico (“Allah é Grande”) escrito 22 vezes nas faixas. Saman Ghodos, meia do Irã após partida contra o Uzbequistão em Teerã — Foto: AFP É essa a bandeira usada em competições oficiais há quase 50 anos, e é a única reconhecida pela Fifa. Mas para a diáspora iraniana — são mais de 750 mil nos EUA —, ela é o símbolo de um regime que reprime sua população, mata seus dissidentes e que, hoje, não os representa. Por isso, a antiga bandeira dos tempos de Reza Pahlevi predomina nos atos contra a República Islâmica no exterior, e foi vista nos protestos de janeiro, quando dezenas de milhares de pessoas foram mortas. — Meu primo foi assassinado e minha mãe foi presa. Não há paz entre mim e este regime — disse à rede BBC Roozbeh Farahanipour, empresário, ativista e que deixou o Irã no ano 2000, durante um protesto pela liberação da bandeira pré-revolucionária em Los Angeles. Esse não é o único dilema da diáspora. Muitos veem o “Team Melli” (“Seleção Nacional”, em persa) como mais uma ferramenta de promoção do regime, e torcer pelo próprio país se torna uma escolha, acima de tudo, política. — Não é fácil para nós protestar contra o nosso povo, são os nossos filhos. Mas eles se aliaram à República Islâmica — diz Tannaz Parsi, uma das manifestantes no ato contra a Fifa em Los Angeles, à BBC. Para outros, é necessário separar o futebol do regime. —Existe essa narrativa de que, ah, não é a seleção iraniana; é a seleção da República Islâmica — afirmou Niki Akhavan, professora da Universidade Católica dos EUA, em Washington, à rádio pública NPR. — Meu argumento é que você não pode ceder ao Estado e dizer: "OK, bem, sabe, é o seu time". Não, é uma seleção nacional, e é por isso que você quer apoiar essa seleção. Iranianos nos EUA fazem protesto diante do estádio onde a seleção iraniana fará sua estreia na Copa do Mundo, em Los Angeles — Foto: Sarah LAI / AFP Das três partidas do Irã na primeira fase, duas acontecerão em Los Angeles, cidade que tem a maior quantidade de iranianos nos EUA, cerca de 250 mil, e que foi apelidada de “Tehrangeles”. Nesta segunda-feira, a federação do país disse que sua cota de ingressos foi revogada, sem explicação, e afirmou que a decisão levanta questões “sobre a interferência de considerações políticas e não esportivas na organização do maior evento de futebol do mundo”. Pelas regras, cada federação tem direito a 8% dos ingressos de cada partida, e tem o poder de decidir como distribuí-los. A Fifa não se pronunciou. “Negar aos torcedores iranianos o acesso à sua cota legal e oficial de ingressos é uma ação contrária ao espírito que rege as competições internacionais e ao princípio da igualdade entre os países participantes”, afirmou a federação iraniana. O impasse sobre os ingressos se junta à longa lista de problemas pré-Copa do Irã, que se vê na rara situação de participar do Mundial ao mesmo tempo em que trava uma guerra contra os EUA. As autoridades em Teerã chegaram a questionar a presença da equipe, e o processo de concessão de vistos foi árduo e cheio de entraves. Na última hora, a equipe transferiu sua base para o México, alegando questões de segurança, e será obrigada a deixar os EUA logo após o final das partidas por ordem das autoridades migratórias.
Entenda por que as bandeiras do Irã pré-Revolução de 1979 não estarão nas arquibancadas na Copa do Mundo
Fifa cita seu código de conduta para os estádios, que veta materiais de 'teor político', mas a diáspora iraniana vê na decisão uma concessão para o regime em Teerã













