Com a Copa do Mundo começando nesta quinta-feira e os Estados Unidos concentrando a maior parte dos jogos, fintechs apostam em soluções que permitem a turistas brasileiros realizar pagamentos no exterior usando o Pix. O meio de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central (BC) pode ser usado para pagar desde hospedagens e aluguel de carros até restaurantes e serviços. O movimento ocorre em um momento em que o Pix está na mira dos EUA, em investigação do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sobre práticas comerciais “desleais” do Brasil. Na última semana, em decisão preliminar, o USTR afirmou que o BC favorece seu sistema de pagamentos instantâneos, descrito como um “campeão nacional”, em detrimento de empresas de pagamentos americanas. Segundo projeção do Escritório Nacional de Viagem e Turismo dos EUA (NTTO, na sigla em inglês), o número de brasileiros visitando o país deve crescer 5,8% em 2026, impulsionado pela Copa do Mundo. O órgão estima que as chegadas de brasileiros aos EUA passarão de 1,9 milhão em 2025 para pouco mais de 2 milhões neste ano. Entre as empresas que buscam capturar essa demanda está a Brazil Pays, que conecta comerciantes nos EUA a consumidores brasileiros. A companhia atua como facilitadora de pagamentos para estabelecimentos que atendem brasileiros, como lojas de eletrônicos, restaurantes, empresas de aluguel de imóveis e carros, escritórios de imigração e prestadores de serviços, permitindo pagamentos via Pix, cartão e boleto. Segundo a CEO e fundadora da Brazil Pays, Marina Alves, a empresa conta atualmente com 223 estabelecimentos ativos em oito cidades americanas. “Os nossos clientes são dentistas, médicos, lojas de eletrônicos, de perfume, spas. Em Miami, eu tenho um super bacana que faz toda a parte de Fórmula 1, tenho casamento em Vegas. São diversos segmentos”, contou. “É uma empresa que ajuda os brasileiros que estão chegando aqui para morar ou como turistas.” Com a Brazil Pays, o estabelecimento parceiro oferece ao consumidor a opção de pagamento por Pix durante a compra. A fintech recebe os recursos em reais, realiza a operação cambial e faz a liquidação em dólares para o comerciante. Na avaliação da executiva, uma das principais vantagens para o consumidor é reduzir a exposição às oscilações do dólar após a compra. “O fato de comprar com a gente, primeiro, porque não é o dólar turismo. Então, acho que isso é muito importante, é o comercial. Segundo, eu sei o quanto eu vou pagar no momento da compra”, disse. “Eu estou vindo aqui para os jogos da Copa, vou aproveitar, vou comprar um perfume, vou comprar um celular. E aí, se acabou o dinheiro, ‘ah, bom, mas eu posso pagar via Pix com o meu dinheiro do Brasil’”, afirmou Alves. “Eu acho que agora com a Copa vai ter bastante oportunidade para a gente.” Outra empresa mirando os viajantes brasileiros é o Braza Bank. O banco de câmbio oferece uma solução de checkout internacional para estabelecimentos comerciais nos EUA aceitarem pagamentos via Pix. O cliente escaneia um QR Code e realiza o pagamento diretamente a partir de sua conta bancária brasileira. A líder de câmbio do Braza Bank, Taísa Bilecki, afirma que a solução já está presente em estabelecimentos físicos e online, incluindo restaurantes, empresas de locação e lojas voltadas ao público brasileiro. Atualmente, a instituição possui cerca de 20 parceiros ativos no país e outros em fase de implementação. Além do pagamento à vista com o Pix, a solução permite parcelamento em reais com o cartão. Nesse modelo, o consumidor conhece o valor final da compra no momento da transação, enquanto o estabelecimento recebe o montante integral no dia seguinte. “Brasileiro tem em todos os lugares, brasileiro gosta de viajar, brasileiro se programa para fazer viagem. E uma coisa que é muito importante é como ele pode se programar”, afirmou Bilecki. “A gente vai comprando de pouquinho a pouquinho. Só que, quando você chega no lugar, vê que trouxe pouco, porque tem muitas oportunidades de produtos que, inclusive, só vendem fora do Brasil.” Já a Ruvo segue uma estratégia diferente. A fintech permite a movimentação internacional de recursos por meio do Pix e de ativos digitais. Em vez de conectar diretamente consumidores e comerciantes, a empresa utiliza o Pix como porta de entrada para uma conta global baseada em dólares digitais, que podem ser movimentados por meio de um cartão com bandeira Visa. “Nós tornamos o Pix internacional. Você pode enviar um Pix e, imediatamente, transferir dólares para qualquer conta nos Estados Unidos ou gastar em dólares”, afirmou o cofundador e CEO da Ruvo, Alec Howard. A ideia da Ruvo nasceu da experiência dos fundadores no setor de pagamentos. Howard e seu sócio, Mike Mason, trabalharam juntos ao longo de 13 anos, em três empresas antes da Ruvo. Howard também passou pela Uber, onde participou de projetos ligados à área de pagamentos, incluindo iniciativas na operação brasileira da empresa. “Toda a nossa trajetória e a forma como trabalhamos juntos sempre estiveram ligadas a pagamentos.” No ano passado, durante uma viagem de surfe ao Brasil, Howard recebeu uma ligação de Mason. “Ele disse: ‘Alec, estamos pagando engenheiros de software no Brasil e isso é muito caro. Toda vez que pagamos, eles perdem de 4% a 8% da renda e precisam esperar dias para receber o dinheiro.’” Foi dessa conversa que surgiu a ideia do novo negócio. A viagem, inicialmente planejada para durar uma semana, acabou se estendendo por três meses. “Quando voltei ao Brasil e vi como o Pix era bom, fiquei em choque. Eu não conseguia acreditar no quanto ele era onipresente, porque os Estados Unidos tentaram lançar coisas parecidas com o Pix. Existe o RTP [Real-Time Payments] e o Venmo, mas o Brasil está realmente à frente dos Estados Unidos na área de pagamentos”, contou. Para Marina Alves, da Brazil Pays, o avanço do Pix reflete uma transformação mais ampla dos meios de pagamento no Brasil. “O Pix é algo que, por mais que as pessoas falem ‘quero barrar, quero barrar’, não tem como, é uma ferramenta”, avaliou.