Gerando resumoOs minerais e metais críticos, que se tornaram vedetes da indústria de mineração nos últimos anos, têm atraído uma infinidade de investidores mundo afora. Na corrida para se posicionar entre fornecedores globais, muitas empresas são entrantes na nova onda da mineração mundial. É o caso da ADL Mineração, produtora de metais pesados (monazita, ilmenita, rutilo e zirconita), que vê espaço para se tornar um player nesse negócio que envolve disputa geopolítica de grandes nações. PUBLICIDADEÀ frente da ADL está a brasileira de origem sul-coreana, Adelina Lee, cujo perfil foge do tradicional na indústria de mineração, comumente conduzida por executivos homens. Lee está há dois anos à frente da companhia, como presidente. Traz como experiência sua atuação internacional e a inspiração no pai, Oscar, que chegou ao Brasil com oito anos de idade e por longa data atuou na exportação de metais pesados. Lee é formada em Letras pela Kyung Hee University, fala quatro idiomas e morou alguns anos na Coreia do Sul desde a pandemia. Foi ao país para aprofundar conhecimento no idioma e na cultura da família. Iniciou a trajetória profissional durante a faculdade, em importação e exportação, realizando operações comerciais entre Brasil, Coreia do Sul, China e Estados Unidos.Adelina Lee, CEO da ADL Mineração Foto: Felipe Rau/EstadãoAlém do pai, a executiva conta com o apoio do consultor técnico da empresa, Gilberto de Campos, tido como um dos maiores especialistas em terras raras e minerais estratégicos do Brasil. Trabalhou na Orquima, empresa pioneira no processamento de terras raras no Brasil e depois renomeada Nuclemon (Nuclebrás de Monazita e Associados) e na antiga estatal Nuclebrás (Empresas Nucleares Brasileiras S/A), reestruturada como Indústrias Nucleares do Brasil (INB). PublicidadeO foco da ADL, no momento, são os óxidos de terras raras contidos na monazita, que extrai e beneficia em instalações localizadas em Buena, no município de São Francisco de Itabapoana, litoral do Rio de Janeiro. Essas instalações foram arrendadas em contrato de cessão onerosa da INB, em 2024, por 30 anos. A empresa tem operações também de extração no sul da Bahia, na região de Alcobaça e Belmonte, onde detém concessões de pesquisa e lavra de metais pesados. Esses materiais são cruciais na fabricação de produtos aeroespaciais e de defesa, motores elétricos, turbinas eólicas, geradores e tecnologias de defesa, além de serem usados em medicina e pesquisa.A monazita é uma das principais fontes de elementos de terras raras (ETR). Uma tonelada contém 700 quilos de ETR, informa o consultor Gilberto Campos. No Brasil, o mineral está presente nas ‘areias monazíticas’ encontradas na região litorânea dos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. O Brasil detém a segunda maior reserva de ETR do mundo, atrás da China, com 22 milhões de toneladas. O grande desafio está na tecnologia de separação, refino e fabricação do material final (ímãs permanentes), que está em poder da China. O Ocidente corre para recuperar o tempo perdido. A corrida pelos óxidos é fruto do embate geopolítico travado entre os governos dos EUA e da China pelo domínio das aplicações tecnológicas e de defesa, consideradas estratégicas.PublicidadeLeia tambémMinerais críticos tornam o Brasil peça-chave no embate entre EUA e China, diz Thiago de AragãoCâmara aprova marco legal para minerais críticos; texto segue para o SenadoAcordo com companhia americana de terras raras abre fronteiras para Brasil, diz CEO da Serra VerdeOs ETR normalmente estão associados a tório e urânio, material que precisa ser separado e monitorado pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). No caso da monazita da ADL, explica o consultor, o teor de urânio é baixo, de apenas 0,3%, e o de tório, 6%. Todo o estoque existente no País está armazenado sob controle da INB.Rumo ao CanadáRecentemente, a ADL fez a primeira exportação de monazita para o Canadá, um contêiner com 16 toneladas, como parte de um acordo com uma companhia do país detentora de tecnologia voltada às terras raras. Desde 2019, o País não vendia o mineral ao exterior. A última carga foi da INB, empresa vinculada ao governo federal. Para este ano, a meta é exportar de 500 a mil toneladas. Em dois anos, atingir 3 mil toneladas. ADL Mineração Fábrica da ADL Mineração em Buena, em São Francisco de Itabapoana (RJ), onde se faz a separação de minérios da monazita Crédito: ADL Mineração/Divulgação Foto: ADL Mineração/Divulgação“Neste momento, nosso foco começa com a retomada das exportações de monazita e aprimoramento de sua pureza com instalação de equipamentos adicionais para atingir 98%. Já estamos acima de 92%”, disse Lee, em entrevista ao Estadão. Outros dois passos ambiciosos, que requerem vultosa soma de recursos financeiros, estão na mira da executiva, que também é uma das acionistas da companhia. PUBLICIDADEO primeiro projeto é voltado à produção de um concentrado de terras raras que reúne vários minerais valiosos em um único produto (chamado de cloreto de terras raras). Esse concentrado é a matéria-prima usada na etapa seguinte, quando cada elemento é separado e preparado para aplicações industriais e tecnológicas.Neste projeto, o investimento é estimado em US$ 70 milhões (R$ 350 milhões). Lee admite que será necessária a entrada de parceiros investidores para colocar o projeto de pé. A data prevista é final de 2027. “A tecnologia já temos dentro da ADL. O que pode acelerar esse processo é capital, mas com recursos próprios pode demorar três anos.”Monazita, mineral rico em óxidos de terras raras, na fábrica da ADL Mineração, unidade de Buena, em São Francisco de Itabapoana (RJ) Foto: ADL Mineração/DivulgaçãoO segundo passo na estratégia da ADL, explica Lee, é montar no País uma instalação industrial de separação dos elementos de terras raras. A empresária admite que se trata de um projeto de grande envergadura. O investimento estimado é da ordem de US$ 600 milhões (R$ 3 bilhões). A escala de produção é muito maior: prevê o beneficiamento de 20 mil toneladas por mês de minério pesado (monazita). “Estamos conversando com investidores que queiram montar o projeto no Brasil”, informa Lee. A executiva diz que já tem memorandos de entendimento com uma empresa estrangeira que vai transferir tecnologia, utilizando robótica e inteligência artificial no processo de separação dos ETR, para evitar agressão ao meio ambiente.Segundo a executiva, a ADL está em tratativas com investidores dos EUA, chineses, canadenses, australianos, sul-coreanos e japoneses. “Nosso objetivo é ter esse projeto aqui no Brasil, onde temos o minério, com tecnologia em fase de desenvolvimento. Criar uma cadeia produtiva no País.”PublicidadeMercado nacionalAtualmente, a receita da ADL Mineração vem da venda no mercado interno de minerais usados na fabricação de pigmentos, tintas, revestimentos, plásticos e cosméticos, além de matéria-prima para indústrias cerâmicas, de vidro, de materiais refratários, fundição, saúde e odontologia, entre outras aplicações. Já a monazita é totalmente destinada à exportação. Gilberto de Campos, especialista em terras raras e consultor da ADL Mineração Foto: Felipe Rau/EstadãoNa Asian Metal, bolsa chinesa voltada aos setores de metais e siderurgia, a monazita (com 54% de óxidos de terras raras) é cotada atualmente na faixa de US$ 5,5 mil a tonelada. No início de maio valia US$ 6,7 mil, mas já atingiu US$ 9 mil, comenta Lee. “Há uma manipulação grande no mercado por fornecedores chineses”, diz. Segundo Campos, consultor da ADL, o Brasil chegou a ser o quinto maior produtor de terras raras do mundo várias décadas atrás. “Hoje, não é nada”. Além da região de Buena, a ADL tem operação de mineração no sul da Bahia, nos municípios de Alcobaça e Belmonte, com 29 mil hectares de reservas em licença de lavra e de pesquisas. A empresa gera atualmente 200 empregos diretos e 400 indiretos. Segundo ela, todos os recursos são reinvestidos para ampliar capacidade de produção e estrutura operacional.Publicidade