União Europeia entra na disputa por terras raras no BrasilComissário europeu visita projeto em Minas Gerais e tenta acordo com o governo Lula em setor dominado pela China e de interesse dos EUA. Crédito: Felipe FrazãoA Borborema, subsidiária da Australian Rare Earths, planeja investir R$ 3,6 bilhões em um projeto de terras raras na Bahia, visando transformar o Brasil em fornecedor de produtos de maior valor agregado. A operação deve começar em 2029. O presidente Renato Gonzaga destaca o potencial estratégico do Brasil, mas alerta sobre riscos de regras intervencionistas. A empresa firmou parceria com a Carester para avançar no processamento de óxidos, com uma planta planejada para Camaçari.Foto: Reprodução/CNN BrasilRenato GonzagaPresidente da BorboremaRIO - A disputa pelas terras raras já não se limita à mineração. A corrida agora é para decidir onde esses minerais serão processados — e quem ficará com a parte mais valiosa da cadeia. É nessa aposta que a Borborema pretende investir R$ 3,6 bilhões para desenvolver, na Bahia, um projeto integrado de terras raras, do minério ao óxido.Subsidiária da Australian Rare Earths, listada na Bolsa da Austrália, a empresa prevê iniciar a operação no fim de 2029. O plano é internalizar, em etapas, o processamento, transformando o Brasil em fornecedor não apenas de minério, mas também de produtos de maior valor agregado.O plano ganha relevância em um momento em que o Congresso discute o PL dos Minerais Críticos. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o presidente da empresa, Renato Gonzaga, defende que o País tem potencial para assumir um papel estratégico na cadeia global, mas alerta que regras excessivamente intervencionistas podem elevar o risco dos projetos e afastar o capital necessário para viabilizá-los. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:PublicidadeComo o sr. vê o ambiente global para terras raras?Está muito tensionado, com China e EUA. Recentemente, a China impôs restrições à exportação de alguns elementos de terras raras, que têm uso tradicional em tecnologia, mas que também podem ter aplicação militar.As empresas estão surfando essa onda no Brasil?Contamos 30 iniciativas, projetos ou empresas no País. Mas apenas cinco deles estão estruturados para ir adiante.O Brasil está bem posicionado?O Brasil tem um ambiente propício para se tornar um fornecedor alternativo. Temos geologia, reservas de qualidade. Temos as duas mineralizações típicas: de rochas duras, como no nosso projeto, e de argilas, como os demais.PublicidadeComo está o País na corrida pelo domínio das tecnologias?Estamos tateando os primeiros degraus da escada (de processamento), que é a concentração e elaboração do carbonato de terras raras. Dominar a segunda etapa — a separação dos óxidos — é algo que virá com tempo, tecnologia e investimentos. É algo que hoje não dominamos.Leia tambémMinerais críticos: É urgente a aprovação do projeto de lei que saiu da Câmara, diz SilveiraTerras raras: australiana Viridis prevê investimentos de R$ 2 bi em projeto no BrasilO PL dos minerais críticos atendeu o setor?Tem muito mérito em tentar colocar um marco regulatório, um ambiente que incentive investimentos. Mas o texto que saiu da Câmara denota uma intervenção estatal muito grande. Mira construir a cadeia de processamento e adicionar valor internamente. Mas, para chegar lá, temos de criar um ambiente institucional que estimule o investimento. Sentimos que faltou um debate mais aprofundado.O que poderia ter sido mais debatido?Haverá um comitê de notáveis que discutirá investimentos, sempre sob o argumento da soberania. Não está muito claro quem e como vai fazer parte. E, sob a capa da soberania, cria restrição e afasta capital. É uma cadeia longa, de investimento intensivo, que precisa de capital paciente. Aí surge uma visão seletiva de qual é o bom capital para levar os projetos adiante, quem é o bom parceiro.PublicidadeQual pode ser a consequência dessa política?No fim do dia, as consequências são elevação de prêmio de risco, que torna o financiamento mais caro a ponto de a competitividade ser afetada, eventualmente afetando a imagem da jurisdição como ambiente seguro e lucrativo para se investir.Que tipo de restrição pode afetar o setor?A triagem de investimentos; a restrição a exportações, conforme o grau de adição de valor interno; e a obrigatoriedade de investimentos em P&D atrelados à receita bruta. São debates válidos, que têm de ser pensados em como se integrar, e não se isolar, das cadeias globais. Não se pode mirar o topo do processo com uma política restritiva, que obrigue todo mundo a alcançar esse nível num primeiro momento. Faltaram debate e visão técnica para entender a complexidade da cadeia, os investimentos necessários e o que representa adição de valor.Qual tipo de exploração a Borborema fará?O nosso principal projeto é em rocha dura, com terras raras com teor altíssimo, até 100 vezes superior aos encontrados em mineralizações convencionais de argilas iônicas, e apresenta forte vantagem em volume equivalente de produção, o que se traduzirá eventualmente em margens. A área tem quase 200 mil hectares, na Província Mineral Rocha da Rocha, no Recôncavo Sul da Bahia. A planta de concentração será em Ubaíra e Jiquiriçá, onde também está a mina. A operação deve começar no fim de 2029.PublicidadeRenato Gonzaga, presidente da Borborema, subsidiária da Australian Rare Earth Foto: Reprodução/CNN BrasilA companhia avançará nas etapas de processamento?O nosso projeto nasce com a ideia de chegar ao produto final, em um segundo momento. Fechamos uma parceria com a Carester, uma das cinco no mundo ocidental que têm tecnologia em escala industrial para separar óxidos.Como é o acordo?Fizemos um contrato off-take, no qual nós venderemos um terço de nossa produção por dez anos e eles nos ajudarão na rota de separação dos óxidos aqui no Brasil. A Carester está inaugurando uma planta para esse processo na França. É um dos entes com maior conhecimento de separação no mundo ocidental.Onde será a segunda planta da Borborema?A ideia é fazer em Camaçari (região metropolitana de Salvador), que fica a 200 km do projeto e tem logística, acesso a porto e força de trabalho. Em breve vamos soltar um primeiro estudo.PublicidadeComo vão se financiar?Fechamos 2025 com 160 milhões de dólares australianos em caixa (R$ 575,9 milhões), que serão usados para financiar campanhas de sondagem, levantamentos geológicos e testes em plantas piloto.Em qual momento a empresa está?O nosso projeto está em licenciamento na esfera do Ibama. A gente pretende apresentar o estudo de impacto ambiental, provavelmente, no fim deste ano.
Entrevista | Multinacional australiana planeja investimento de R$ 3,6 bi em projeto de terras raras na Bahia
Empresa subsidiária da Australian Rare Earths planeja iniciar operações em 2029, integrando mineração e processamento de óxidos






