O homem maltrapilho tentava com dificuldade atravessar a grande avenida em Barcelona. Ao desviar de um bonde, acabou atropelado por outro. Ficou por um tempo caído nos trilhos, até ser socorrido por um passante. Eram seis da tarde de 7 de junho de 1926. Após três noites de agonia, no fim do dia 10, a vítima, de 73 anos, morreu no Hospital de la Santa Creu.

No momento do acidente, ninguém percebeu que aquele velho magro, com as calças presas por alfinetes, que só levava consigo um livro religioso, era Antoni Gaudí.

Um século depois, sua memória domina a cidade, com a conclusão da Torre de Jesus, coroamento da Sagrada Família. A estrutura de 172,5 metros, que receberia nesta quarta as bênçãos de Leão 14, fez da igreja a mais alta do mundo e pôs um ponto final simbólico no canteiro de obras mais duradouro de nossos tempos —alguns trabalhos, porém, prosseguem.

Naquele dia, há cem anos, só o porteiro da Sagrada Família deu pela falta do arquiteto. Gaudí não tinha voltado na hora habitual para dormir. Desde 1912, ele se dedicava exclusivamente à obra, sem cobrar. Por isso, morava num quarto improvisado em seu estúdio, no local da construção.

O idoso solitário em nada lembrava o jovem dândi que aceitou o desafio da igreja em 1883. Tinha então cinco anos de formado, mas já conhecera seu futuro mecenas, Eusebi Güell, que lhe abriu as portas da sociedade barcelonesa. Frequentava o circuito cultural da cidade, aproximando-se da Renaixença, movimento que defendia a identidade catalã.